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(DES)APONTANDO RISCOS

 

VI

          

Com tudo resolvido e já na manhã véspera da mudança – Leticia desceu toda feliz pelo elevador. A reforma estava finalizada e dentro do previsto. Até acariciou as paredes e circulou tanto pelos poucos metros quadrados que quase ficou tonta. Mas estava encerrada esta etapa.

Na manhã seguinte chegaria a Transportadora com o que – na divisão – ficara para ela.

Encontrando o zelador – fez uma pergunta que desde o inicio planejava – mas esquecia. Estava ela com uma dúvida operacional. Não vira nesta confusão toda – a menos que estivesse muito mais desatenta do que desejava estar – a saída de gás de cozinha.

Vendo-o passar aproveitou para perguntar sobre a cegueira seletiva. Só não esperava a resposta que ele dera. Pela primeira vez – preferiu a cegueira.

Não. Não temos – mas há previsão de obras para instalação no próximo ano. Por enquanto somente com botijão de gás dentro da cozinha.

Não tinha tubulação para gás encanado. Murmurou meio de si para si. Não porque planejasse esse meio resmungo – mas porque a voz desapareceu.

Despediu-se dele com um aceno e uma imitação de riso e saiu. Resolveu caminhar um pouco pelas Alamedas – quem sabe a caminhada ajudasse na solução. Ou quem sabe algum duende verde viria com alguma boa sugestão. Nesta época ainda não estava com amizades com a fadinha. Apelou para o tal duende. Mas de verde mesmo só viu a própria imagem assustada num reflexo de uma vitrine. Nem lembrava quando fora a última vez que estivera frente a frente com um deles. Não frente a frente com um duende. Frente a frente com um botijão.

Ela não sabia lidar com botijão de gás. Simples. Não sabia. Além do mais considerou espacialmente incompatível um botijão dentro daquela minúscula metragem da cozinha. Não compreendia como não tinha visto.  

Os passos seguintes pelas Alamedas trouxeram de imediato uma lembrança. A das falas das poucas amigas que contara sobre os desvios na rota do Futuro compartilhado – que de previsto passara a abolido.

Alertaram – morar sozinha de todo é perigoso. Sempre há assaltos e o pior – pode-se ficar morta durante dias sem ninguém perceber.

Simpáticas – pensou. E encantadoras – pensou de novo. Mas não era momento de refletir sobre amigas temerárias. Já tinha muito para resolver depois da dolorosa notícia da falta de encanamento.

Mas foi impossível evitar imagem de corpos mortos solitários em apartamentos como as amigas advertiram – depois da imposição do tal botijão. Por certo tinham botijão de gás – os pobres mortos solitários. Isso ninguém comentou – foi o que concluiu de mais sábio naquele instante. Roxa sorriu. Ou talvez tivesse sorrido. Já não garantia o tipo da expressão facial que surgia depois da assustadora informação. Deve ter ficado branca como neve.

Sempre gostara de contrapontos.

Enquanto descia pelas tais Alamedas buscando algum – pelo amor de Zeus – mágico duende solidário – veio uma lembrança repentina. Vai ver fora realmente por alguma intermediação esverdeada.

Lembrou numa inspiração súbita e forte. Quase perdeu o fôlego. Ainda bem que a voz tinha sumido – senão seria uma espécie de grito que se escutaria. Até tossiu para ativar os pulmões.

Lembrava de algumas cenas da infância não muito claras – na cozinha. Mas uns pequenos traços de Memória se uniram e se fizeram presentes como uma espécie de auxílio intempestivo. Lembrou a mãe colocando com uma esponja um pouco de espuma de sabão na saída – não tinha certeza onde exatamente – mas talvez na conexão do botijão com o fogão.

Quase escutou a voz da mãe experiente – se fizer bolhinhas é sinal de risco iminente de explosão.

Quando a palavra explosão veio à mente – o corpo até reagiu. Não só os braços – mas o corpo todo. Até sentou-se num banquinho em frente a uma lojinha da Alameda. Imagina uma explosão de um botijão de gás num espaço de cinquenta metros quadrados. Não teria jeito nem com a ajuda do maravilhoso senhor Elson – Evesio – Everdson. E por certo ele ficaria irritadíssimo quando visse o piso que colocara tão maravilhosamente perfeito – espalhado e destroçado entre paredes e teto.

Sim. Paredes. No plural. Desta vez o vizinho que escapara de tanta ameaça que viria depois – de derrubar a parede do apartamento dele para instalar sofá cama e varão de cortina no apartamento dela – não escaparia da tal explosão. Desta vez teria um amplo espaço com pisos e pedaços da alta tecnologia do fogão na sala dele. Sem falar na terceira dimensão da televisão. Tanto esforço para subir no elevador para depois ficar no plano de última dimensão.

E além do mais moraria – Sim – sozinha. Um detalhe de extrema importância. Quem faria esta parte de retirar – colocar – testar e ligar – seria ela. Sem esquecer a tal esponja com espuma. Acabaria ensaboando até a geladeira. E explodiria tudo limpíssimo. Com toda esta sequência aumentara o risco de engrossar as estatísticas das amigas cuidadosas.

Nem conhecera ainda o Francesco e por certo a tia Luiza perderia a chance de acreditar em Papai Noel. Quanta alteração no Destino por conta de uma caninho ausente.

Nem pensar.

Nem tudo é solidão e dificuldade. Ou obituário de jornal. Pode fazer de outra forma. Falou num sussurro já diante de outra vitrine e em outra Alameda. A escolha – a decisão e a vontade – agora é sua. Temer e evitar também faz parte do direito de posse. 

Sempre se pode transformar pensamento em diálogo. Bendito seja o inventor do alter ego. Sorriu. Não tinha duende verde – mas tinha alter ego.

Logo que soube pensou em dramatizar a situação tornando-a tema de jantar na casa dos filhos e norinhas. Mas não se imaginava contando esta novelinha para quem quer que fosse. Ou que esta historinha tivesse algum ponto de interesse para quem quer que fosse – além dela mesma. Quem poderia se interessar por questões tão simples e corriqueiras – além do alter ego e do temor dela. Nem o tal duende se interessara. O mundo parecia se mover muitíssimo bem sem as tais questões de botijões e encanamentos.

Imagina se contasse também que descera as Alamedas em busca de um duende verde e que ele não aparecera. Iria ficar de roupinha nova – aquela branquinha que se amarra com tirinhas. Os braços iam ficar bem mudos para trás. E o espaço onde passaria a morar seria menor que este – com a única diferença de ter paredes acolchoadas e falta de acesso a fogões e muito mais ainda a botijões.

Sorriu de novo. Inventara há muitos anos um pêndulo imaginário. Até quis registrar o domínio. Mas não existe registro público para uma criação imaginária. Sentiu-se um gênio desconhecido. Riu ao lembrar-se disso.

Funcionava de forma egóica – e obviamente prática. Cada vez que se imaginava contando algo a alguém – e este tal pêndulo imaginário oscilasse para o lado do ridículo – era porque realmente o relato era ridículo. E nada contava. Buscava a solução mais pertinente e encerrava a dialética com ela mesma.

Este era um dos filtros mais importantes que ela utilizava sempre antes de depositar qualquer queixinha em ouvidos alheios. Conversava com o alter ego primeiro e depois com os outros egos. Considerava uma tática de guerrilha. E tática vencedora – nunca errara. Só errara quando agira por impulso e saíra por ai falando as primeiras asneiras que surgissem na cabeça – deixando empoeirado num canto qualquer o tal pêndulo imaginário.

E sabedora de que cada um tem seu filtro – sabia também que nem sempre os excessos de um se entendem com os filtros dos outros. E vive versa. Assim aprendera sobre cautela.

De filtro em filtro – agiu com pragmatismo. Lembrou a fase atual do – é meu. Todo meu.

Quando a mudança foi feita lá se veio o fogão. Foi encaixado no lugar correto – e inclusive liberado um espaço para o tal botijão ameaçador.

E lá ficou qual um enfeite ultrapassado e gasto – sem uso por alguns meses. A querida Lilian veio e se foi. O sábio Álvaro pendurou luminárias e quadros. Teve tempo até de discorrer sobre a nomenclatura do mamão. As meninas riram dos avisos nas caixas. A tia Luiza passara a crer em Papai Noel.

Tudo acontecia e o mundo girava – menos o fogão. Lá ficava. Desligado. Desencanado. Sem botijão. Inútil.

Leticia passava por ele – fingia que não via. Olhava de cantinho de olho. E nunca a ele se dirigiu a não ser para colocar algum objeto em cima – enquanto abria alguma porta de armário. Quem perguntasse quando o colocaria em funcionamento – ela respondia – qualquer dia desses surge um espaço para ele. Somente isso. Os que perguntavam não continuavam. Por certo entendiam que ainda era uma adaptação. No que não estavam absolutamente errados.

Qualquer decisão que inclua um pouco que seja da oralidade – também tem que ser bem pesada. Riu de si mesma e das metáforas ou analogias sem a menor validade.

Definido o quero e o não quero partiu para a solução. Desta vez sem analogias nem metáforas. O objeto em questão não mais pertencia ao desejo da função. Um simples caninho o destituíra. Assim ficava então passível de indeferimento. Simples – se não queria ter botijão de gás – não precisaria ter fogão. E ainda valia mais uma vez – um vice e versa.

Uma cozinha moderna surgiu repentinamente. Já havia bastante com o que se preocupar. Botijão de gás era realmente nada.

Numa tarde de folga – entrou na internet. Localizou um site de compra e vendas. Gostou. Seguiu todas as orientações e lá dispôs o tal fogão órfão de encanamento.

Vendo fogão novo – sem defeitos – pouco uso. Acrescentou os detalhes de tecnologia e as tantas vantagens decorrentes.

No minuto após o anúncio – surgiram candidatos. Vários. Não sabia que tantos estavam dispostos à adoção de um fogão.

Um deles mais interessado foi logo entrando em contato pelo mail particular dela. Leticia – inegável – teve uma pontinha de temor. Lembrou – mais uma vez – das amigas cuidadosas. E se fosse um assaltante disfarçado. Sorriu de si mesma. Por que o infeliz do assaltante se disfarçaria em comprador de fogão órfão. Sempre escutara que a base para ser um assaltante é justamente a preguiça em desenvolver um trabalho. Não seria justamente este que teria todo esse trabalho para assaltar um lugar que ele por certo não saberia de alguma riqueza associada. Em especial à venda de um pobre fogão.

Baniu o pensamento. Silenciou as amigas.

Agora já amiga da Fadinha – uniu-se a ela. Limpou o fogão. Deixou-o reluzente. Por pouco se apiedava do coitado – tanto tempo sem atenção e agora aquela faxina toda. Até os objetos podem ser iludidos. Mas retomou o tão já ameaçado senso de sanidade. Nada de conversar com fogão. 

No dia marcado e na hora marcada chegou o comprador. Apresentou-se na Portaria ao Zelador requisitado por Leticia para – por via das dúvidas – servir de identificador de assaltantes que casualmente gostem de trabalho.

Quando comentara por alto com o Zelador que não conhecia a pessoa que viria buscar o produto de uma venda – ele abriu os olhos um pouco exagerado. Vai ver também receava os tais assaltos e os mortos solitários e esquecidos em apartamentos. Mas se dispôs a acompanha-lo desde a chegada e subida até a saída do prédio. Muito gentil.

Mas longe disso.

O comprador era um senhor de cabelos todos brancos. Magrinho. Sotaque arrastadinho. Chegou acompanhado pela esposa – uma senhorinha que ria de qualquer fala. O zelador até diminuiu o tamanho do esbugalhado dos olhos.

A senhorinha sentou-se na cadeira da salinha e olhou em volta. Comentou algo sobre como alguém consegue viver em tão pouco espaço e acrescentou – eu ficaria sufocada. Leticia ia abrir a boca – mas desconsiderou. Fechou de volta e por garantia ainda colocou os dedos sobre os lábios. Nada de vaidades feridas ou orgulhos desconsiderados. O caso ali era apenas uma venda de fogão. Não daria uma festa. Não os convidara para se hospedar. Nem muito menos estava vendendo nem um sequer dos cinquenta metros quadrados. Apenas se livraria de um intruso. O fogão.

Ao ver o marido com a ajuda do zelador carregando o fogão – a senhorinha esqueceu a metragem sufocante e sorriu. Levantou-se com um ar de alegria e alívio. Pareceu até rejuvenescer. Não imaginara que fosse um fogão tão novo – que maravilha. Bateu até palminhas toda feliz quando viu o fogão saindo do apartamentinho para seguir em direção à casa dela.

Leticia se controlou para não fazer o mesmo – bater as palminhas – pelo mesmo motivo da senhorinha. Poderia não ser bem compreendida e obstaculizar a compra e venda. Já resistira à observação de arquitetura pneumológica da sorridente senhorinha – não seria agora que iria arriscar algum tropeço por conta de umas palmas fora de propósito.

O marido deixou um pouco o fogão no hall do elevador e voltou para finalizar a compra. Enquanto separava o valor exato – comentou a aventura de saída de casa e chegada à cidade.

Explicou – vieram de uma cidadezinha do interior não muito distante e saíram cedo de casa. A estrada teve um acidente sem gravidade – mas que atrapalhou o fluxo de carros e o horário planejado. Pretendia ter chegado mais cedo. Desculpou-se. Mas estavam felizes pela compra. Moravam num sitio – quatro filhos e dez netos compartilhavam todos os finais de semana com eles. Tinham trinta e nove anos de casados. E compravam mais um fogão.

Leticia desta vez baniu Freud que já vinha de lá dando opiniões.

Enfim – com o fogão devidamente vendido – nada mais de preocupações com botijão de gás.

Quando eles saíram – tratou de organizar o espaço esvaziado. Ao contrário da senhorinha do sítio – achava que tinha espaço até de sobra. Já foi rápida colocando uma mesinha com uma linda toalha portuguesa. Não tinha mais volta – mas por via das dúvidas e sendo precavida – se voltassem apontaria a falta de lugar. A senhorinha sufocada por certo não só entenderia como fugiria buscando ar. Riu.

A modernidade e a praticidade seriam agora integrantes da nova vida. Viva a nova vida – pensou a Leticia sem uma só ruguinha de saudade do fogão. Até porque fora bem adotado. Ficaria reluzindo em chamas azuis por todo o dia. E o que não faltaria seria espaço nem pessoas. Seria como um membro da família.

Lembrava muito bem o quanto celebrara quando ele – o fogão – entrara porta adentro do último apartamento destituído. Quando o porteiro avisou da entrega – autorizou subir e já abriu a porta sorrindo. Daquela vez não temia assaltantes nem requisitou avaliador de personalidade. A própria empresa que entregou – fez no mesmo instante a ligação – com o encanamento.  Quando saíram – tudo funcionava. Ocupara um espaço adequado e perfumara as conversinhas de começo de noite com aromas deliciosos. Cumprira a finalidade por um tempo. Assunto encerrado.

Qual uma Filosofia oscilante pensou – naquele dia da entrega deixara o cantinho específico reluzente para receber o novo fogão. E agora neste dia da saída restava um cantinho especifico também reluzente para demonstrar a saída. A vida tem tanto vai e vem – que nem sempre se consegue acompanhar. Riu.

Ainda bem que não tinham encanamento de gás no prédio novo.

Estava diante da escolha e da vontade própria. Quando avisou sobre a venda o Roberto se preocupou. A Aline também. Você vai ficar triste – ambos disseram.

Não.

Cozinharia – sim – as comidinhas com os mil temperinhos que gostava. Teria uma dieta saudável e prazerosa. E – acima de tudo – pouco trabalhosa. Quase riu lembrando o perfil preguiçoso que definia um assaltante. Vai ver era agora assaltante do próprio prazer. Ou da infância – reencontrada no horário de dormir.

Estava mesmo era feliz com a decisão e cumprimento da decisão – livre de discussões teóricas ou práticas. Sem dialética de convencimento nem retórica de aconselhamento.

Apenas o ato pelo fato.

Cozinharia em placa de indução – que já comprara enquanto aguardava a saída do já inútil órfão. Já constava como itens – desde que mudara – uma panela de arroz e um micro-ondas. Perfeito. Na feirinha do bairro uma senhora sorridente e de mãos magras – vendia já tudo picado e higienizado. Era só selecionar o que faria durante a semana e nada mais de tanto lavar e secar.

Sorriu de novo. Até se abraçou. Obviamente sabia que o mais importante na realidade não era a venda nem o caninho ausente. O mais importante é que agira. O verbo agir mudava de tom. Não aceitara nem desistira. Não rebelara nem ofendera. Não omitira nem resignara. Não temera nem calara. Só agira de acordo com a própria vontade.

E se tinha que ver com o fogão e com a falta do tal caninho – também tinha que ver com ela.

Sem falar que estava muito feliz por não ter que ensaboar conexão de botijão nem se imaginar voando pelos ares num torpedo gaseificado.

Cecilia e Roberto – sempre atentos já foram presenteando com panelas especiais para micro-ondas. Aline e Renato com as adequadas para a placa de indução.

A Lilian que gostava de relatos leves – ao saber toda a história na realidade e na seriedade – achou meio sem graça. Até descartou a possibilidade de ter falado uma frase que a Leticia atribuiu a ela. Não lembrava ter feito algum comentário sobre cozinha ser conceito e não objeto. Mas vai ver falara e não lembrava. Mas tinha certeza absoluta de que não a assustara com corpos mortos nem com assaltos em ambientes de pouca metragem. Justo ela que só gostava de relatos leves – jamais faria parte integrante de grupos de leitores da Seção Policial. Estava certa a Lilian. A Memória que pode até falhar numa frase pronunciada – mas nunca erra dentro dos próprios valores. Estivesse a Leticia com uma tacinha – brindaria em direção à Lilian.

Esta foi uma das vezes que errara ao falar por impulso as primeiras asneiras que surgiram na cabeça – deixando de lado a ajuda do tal pêndulo imaginário que tanto utilizava.

Enfim.

Leticia deitou-se naquela noite pensando na nova decoração da cozinha.

Com a falta de paredes e a composição métrica do apartamentinho – da cama olhava para o espaço reaproveitado. As cores da toalha sobre a mesinha davam um toque a mais de alegria ao antes não festejado. Observava não só o que ocupara o lugar – mas o que definira o Lugar.

Com a vida profissional em escala crescente e com a nova fase de vida em escala independente – pensava sobre as diferenças – ou as sutis semelhanças – entre inovar e renovar.

Os braços percorreram a cama. Dormiu.

Um tempo depois ao acordar pela manhã – vai lá saber porque – lembrou-se do episódio do fogão. Sentada diante do balcão sorriu enquanto tomava o café da manhã com calma. Da outra ponta as plantinhas balançavam com o ventinho que entrava pela janela.

Sorriu por uma lembrança. Num dia de folga convidou uma amiga para almoçar em casa. Organizou a mesa. Escolheu a toalha. Fez um serviço impecável. O cardápio adequado.

A amiga entrou e conversavam enquanto Leticia colocava as comidinhas no balcão para que se servissem. Ela – a amiga – olhou para a cozinha e fez aquela expressão quase infantil de quem busca. Não encontrando o objeto da busca – perguntou onde ela escondera o fogão.

Leticia explicou sem muitos pormenores a decisão – e os motivos da decisão. A amiga surpresa comentou – nunca conheci alguém que tivesse dispensado o fogão da cozinha. Ele tem razão em ter desistido de investir na relação. Riram.

Acrescentou outro verbete ao já existente é meu todo meu. Acrescentou – eu posso. Mais um pouco e teria usado o spray que o Roberto dera para ela pichar a parede como dona absoluta dela.

Quando deu por encerrada a rotina dispensou as lembranças e saiu.

 

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(DES)ARRUMANDO METROS

 

V

 
Com a tal retrospectiva da compra da Televisão – Leticia se viu quase refém de uma sequência de outras retrospectivas involuntárias.

Neste dia de volta do trabalho – sentou no Fouton que ficava na sala e de frente para a estante que finalmente arrumara.

Obviamente a estante não estava como planejara – porém melhor ordenada do que logo depois que se mudara. Os livros – ao menos – obedeciam uma ordem de linhagem. Vai lá saber que ordem é esta – mas assim denominava cada vez que repensava em retomar a reorganização. E com tanto – re – deixava mesmo era como estava. Havia uma lógica particular e ela saberia onde encontrar o que precisasse. Já era o suficiente. O excesso de metodologia tiraria a sensação de posse e pareceria que visitava uma Biblioteca fria e calculista. Haja desculpa sem nexo – riu um dia enquanto buscava um livro e não encontrava.

Nem ligou a Televisão.

Para não fugir completamente à rotina – cuidou um pouco das plantinhas antes de sentar. Notou que uma delas estava com as folhinhas tristinhas e colocou mais água. Com os dias quentes – quentíssimos e o ar seco – sequíssimo – as plantinhas sofriam com a falta de umidade em volta delas. Lembrava com frequência de uma amiga querida – Glória – que dizia achar criminoso deixar uma planta morrer de sede – já que não podia ir pegar a água sozinha. Nesse período que a amiga dizia isso ela – a Leticia – nem dava atenção às plantinhas. Mas nunca esqueceu a frase. E agora a utilizava quase como uma Lei.

Tocou de leve os dedos nas folhas e depois nos cabelos. Balançou a cabeça de forma positiva. Da Memória nada escapa – é só uma questão de oportunidade – e a oportunidade vem mais dia menos dia. Nada é desconsiderado nem escutado à toa. Quando algo é escutado – é porque já está registrado e em algum instante será utilizado. Qual um destino. Pelos sentidos entram – filtrados – o que depois será buscado. Agora sabia. Na época não.

Circulou pelos cinquenta metros quadrados. Parabenizou mais uma vez a Fadinha por ser tão delicadamente organizada. Encerrou as atividades profissionais do dia também de forma simbólica ao dispensar a roupa formal e sorrir para uma chuveirada de água quase fria.

E lá se foi ficar sentadinha no Fouton – sem nem bem compreender porque o fizera já que depois das rotinas sempre ia para a cama. Mas a retrospectiva veio se aconchegar como se estivesse apenas querendo um colinho. Recostada no Fouton – teve uma sensação de viajar no tempo ou de estar sonâmbula. Sozinha – se deixou levar.

Entretanto – mesmo a disponibilidade solitária tem os próprios limites. A retrospectiva foi seletiva – nada de lembranças que a magoassem. Sempre alertava aos navegantes que final de dia é momento de alegria. Mas também dizia o mesmo sobre o começo do dia.

Estava cuidando com mais dedicação do próprio humor para que não se desgastasse com o que não poderia ser mudado. Deixava sempre um arquivo estocado no ”Temporário”. Riu ao concluir assim. Vai ver este o motivo de tantos recentes elogios pela expressão dela. Até uma mocinha da loja que ela começara a frequentar depois da mudança comentou – se tem algo que admiro em você é que todas as vezes que vem aqui tem uma expressão de alegria. Tem boa energia em volta.

Gostou de escutar.

Olhou para a cozinha. Para o balcão com a toalha de renda branca e os utensílios de uso repetido ao alcance da mão. Ali fora o primeiro local onde todos se acomodaram diante da falta absoluta de espaço – os cinquenta metros quadrados mal cabiam as tantas e tantas caixas.

As últimas caixas entraram. A porta foi fechada. Os pulinhos com Cecilia e Roberto. As risadinhas. O pipocar de um champagne que Aline e Lilian junto com o Renato levaram até lá. As tacinhas – nem lembrava como arrumaram as tacinhas. Lembrou. Sem tacinhas. Champagne francês em copinho descartável. Daria uma reprimenda a nível internacional caso fosse exposta a cena. Mas não tinha jeito – era assim ou assim. E brindaram em copos descartáveis todo o francês das bolhinhas.

Feitos os brindes e celebrada a euforia olharam em volta. Cada um buscou uma posição estratégica e entre o amontoado de caixas – começaram a separar o que já poderia ser aberto. E nisso incluía a caixa de tacinhas para evitar serem transformadas em caquinhos.

O difícil era selecionar as caixas em meio a tantas pilhas de caixas encostadas na única parede e resvalando pelo piso.

Naquele dia entendeu a palavra Caos e todo o significado. Lembrou a Mitologia Grega. Há uma versão que diz que Caos é um filho de Cronos e irmão de Éter. Até se sentou melhor no Fouton.

Não faltaram risos – um auxílio de comicidade para empurrar um pouco a tristeza. Afinal – a mudança fora em decorrência de um desacerto nos planos de futuro. Todos ali dentro dos cinquenta metros quadrados – centímetro por centímetro – se empenhavam em ajudá-la a superar. A continuar. A entender o que a avó repetia – o que não tem remédio remediado está.  

Quando organizou as caixas para a mudança – tivera todo um cuidado em escrever em papel branco e prender com fita adesiva o conteúdo delas. Depois de tantas mudanças – poderia até ser orientadora metodológica de alguma Transportadora. Tudo bem – não tanto. Foi o que reconsiderou quando passou rapidamente os olhos pela estante. Mas os itens descritivos nas caixas lacradas estavam todos lá. Facilitava e muito saber o que se abriria e onde se colocaria o tal conteúdo.

Ai sim – as risadas foram soltas.

Cecilia pegou a primeira caixa e nem conseguia abrir – só ria. Os cabelos até caiam para trás. Avisou – aqui tem uma caixa enorme escrito – tirinhas de cabelo. Tirinhas de cabelo. Como alguém tem tantas tirinhas de cabelo. E o coro de risos se seguia melhor do que se tivessem um Maestro regendo.

Aline alertou – aqui tem outra mais interessante. Está escrito – roupas desnecessárias. Esta provocou até engasgos de tantos risos.

Renato olhou para uma outra caixa e entregou a Aline. Esta é melhor você abrir. Prefiro evitar ter uma consulta de Psicanálise de urgência. Está escrito – roupas íntimas de malhação. Nunca soube que ela malhava e muito menos que tinha roupas intimas para malhar. Todos riram novamente.

E de riso em riso e caixa em caixa – a tarde se foi.

Durante duas semanas a rotina fora abrir caixa. Lilian – a amiga querida de muitos anos viera por uma bela causa para passar três meses no país – já acordava com tarefas agendadas.

Leticia saia cedo para trabalhar e Lilian chegava para tentar dar alguma organização ao Caos. Vai ver dispensá-lo e convocar o Éter. Só mesmo um ato volátil para conseguir dar um – acabou – em tanto que se oferecia ao trabalho. Foi assim durante semanas. Até o domingo que o Luciano viera munido de músculos fortes e boa vontade intensa e as caixas desapareceram por completo. O Éter aconteceu. E o Cronos se satisfez.

Começou a etapa da decoração.

Todos os dias móveis eram levantados e mudados de lugar. Lilian e Leticia já até se divertiam. Os braços – sempre os braços – nem entendia como esquecera eles até o dia do pesadelo – lá estavam em brava serventia.

Quando tudo parecia adequado – nada. Era trocado novamente. Um dia o Roberto comentou – vocês duas vão ficar doentes da coluna – o que mais fazem dentro destes poucos metros é carregar moveis de um lado para outro. Desta vez elas riram. Quando ele comentou foi durante uma visita – e já iam pedir a ajuda dele quando o comentário veio e as duas – sincrônicas – calaram. E riram em códigos duplicados. Fingiram de assunto encerrado e quando ele saiu – lá se foram carregar os móveis e trocar de posição.

Sem falar na tarde que os tapetes chegaram da lavanderia. Este – sim. Foi o Dia Mundial de Carregar Peso. Os tapetes – dois – seriam um da sala e outro do quarto. Enormes. Leticia descobriu que ela própria precisava retomar a análise. Deu até saudade do Ronaldo – mas ele agora morava longe. Muito longe. Tinha mania de grandeza. Não o Ronaldo. Ela – a Leticia.

Os tapetes cobririam quase todo o piso que o senhor Elson – Evesio – Everdson havia tão artisticamente colocado.

Abrir e estirar o da sala fora fácil. Não tinha tantos objetos para levantar. Uma erguidinha de pé de cadeira ou de mesinha e lá estava o tapete lindo cobrindo e colorindo toda a sala com sua imensa metragem. Desta vez não foram polegadas. Repetiram-se os metros quadrados. Olhavam encantadas. E – por certo – tentavam gastar um tempo sem finalidade para evitar o passo seguinte difícil. Vai ver foi neste instante que a Leticia aprendeu este consumo de tempo para ganhar tempo fazendo nada. Não tão simples – mas assim.

A questão era o do quarto.

Ficaria sob a pesada cama de cabeceira de ferro trabalhado. Tinha que erguer a cama e estirar o tapete. E tudo isso sem espaço para movimentação. E contavam apenas com os braços delas. E mais um pormenor – teria que ser com muito cuidado. Barulho no apartamentinho era permitido até as cinco horas da tarde. Eram seis horas. Nada de arrastar daqui para ali. Não importava se o percurso era curto. Importava que o silêncio fosse longo.

Lilian – prática – foi logo desarmando a cama. Mesinhas de cabeceira abraçadas – foram parar na sala. Abajur desmontado. Enfeites colocados em segurança no cantinho da cozinha. Tudo com passinhos suaves.

Quatro braços a serviço da decoração. Qual uma devoção. Fé e função. Riram.

Quando finalmente conseguiram desmontar- estirar o tapete – definir a equalização – montar – repor objetos e móveis no lugar certo – não estavam só com os braços caídos. Pernas e fôlegos pareciam ter viajado para outra dimensão. Fosse depois da Televisão nova e saberiam em qual dimensão teriam ido parar.

Surpresa mesmo foi um tempo depois. A Lilian já havia voltado para o país onde morava. Quando soube que a Leticia havia carregado a enorme caixa da Televisão – reclamou. Você ficou maluca – carregar um peso daqueles. Leticia lamentou a distância geográfica. Estivesse perto da Lilian ofereceria a ela um espelho. Riu.

Passou a mão no Fouton. Desta vez riu alto. Respirou aliviada por saber que ninguém a observava. Teve o dia do Fouton.

Uma amiga também distante viria para visitar a Leticia e seria confortável recebê-la em casa. Nada de ficar em Hotel. Ficaria muito feliz de poderem passar a noite conversando e rindo sem compromissos outros além da conversa e do riso. Eram amigas da tantos anos que era uma alegria renovada que a Leticia sentia cada vez que a Carolina vinha vê-la. Desde que anunciava a vinda – todo um novo estado de ânimo surgia na Leticia. Carolina tinha sido aluna dela num tempo que orientava grupos de Formação e de aluna a amiga – foi um caminho rápido e sólido.

O único detalhe – não tinha local para a amiga dormir.

Um pensamentozinho veio anexado. Lembrou a espreguiçadeira de praia. Trouxera com ela do terraço do apartamento deixado para trás. Adorava a espreguiçadeira e pouco usara. Colocou na sala ao lado da estante. Ficaria como um recuerdo. E quando quisesse ler ou escrever – recostaria nela. Perfeito. Cobriu com uma manta que trouxera de uma viagem ao hemisfério de cima. Achou pertinente. Tinha uma certeza – a Aline vai achar ótimo – ela não é convencional. A Cecilia vai discordar – ela é mais séria em termos de decoração. Eis as surpresas. A Cecilia achou ótimo e divertido. Aline criticou insistentemente e diariamente – está horrível uma espreguiçadeira de praia no meio da sala. Tanto falou que Leticia – cansada da repetição – lá um dia dispensou a tal espreguiçadeira. Assunto encerrado. Deu de ombros – mas ficou com um gostinho de antagonismo. Guardou o acontecimento no tal arquivo do “Temporário”. Afinal sabia – Aline não queria que ninguém criticasse o apartamentinho.

Dispensou o pensamentozinho anexado. Saiu da espreguiçadeira e voltou à dormida da amiga que viria. E veio.

Lembrava que as noites que antecederam a chegada da Carolina – acordara na madrugada pensando na quase impossível solução. Sofá cama não caberia nos cinquenta metros quadrados. Cama – nem pensar. No quarto só cabia mesmo a dela própria. Colchão em chão ela se recusava. Seria uma desatenção com uma amiga tão querida. Mesmo assim ainda saiu para procurar em lojas especialistas em mobiliário para acomodar amigos em visita. Riu. As opções eram maravilhosas. Belas. Elegantes. Confortáveis. Mas já seria o caso de chamar novamente o senhor Elson – Evesio – Everdson para derrubar desta vez a parede que dividia com o vizinho. Não pareceu em definitivo uma solução adequada.

Voltou para casa no final do dia apenas com o cansaço como testemunha. Nada de sofá cama. E a Carolina chegaria em três dias – já avisada e ordenada que esquecesse Hotel. Dormiria no apartamentinho novo e colocariam as novidades pessoais com o bom hábito – “in vino veritas”. Aceito e confirmado – perfeito.

Permanecia aquele único detalhe já referido – não tinha local para a amiga dormir.

Estava no trabalho no dia seguinte – sem a solução doméstica mas aguardando uma inspiração – quando o celular tocou. A inspiração viera – mas não diretamente para ela. Viera para Aline.

Aline contava – já sei onde sua amiga vai dormir. Passei numa loja aqui na esquina de casa. A loja está em promoção. Já entrei e deixei até reservado para que ninguém se adiante pelo preço baixo e você – caso concorde e queira comprar – não mais encontre.

Achei um Fouton. Já medimos – a Lilian e eu – e cabe em seu espaço. O tecido é lindo – bege. Quando voltar – vamos até lá para ver se você define positivamente.

Fouton comprado.

A entrega seria efetuada em cinco dias úteis. Leticia começou a achar um tempo depois que esta era um rotina que ela desconhecia. Tudo no mundo girava e acontecia – após cinco dias úteis.

Não se inquietaram. Lá se foi a Lilian com ela buscar o carro. Colocado o Fouton no carro – era somente subir duas quadras e já estaria a solução definitiva dentro de casa – na sala. E nada de derrubar parede de vizinho – riram as duas no caminho.

Entre imaginar e executar – a linha não é tão tênue quanto se pode acreditar. Nada disso. As duas teriam que retirar do carro – colocar no elevador – levar pelo corredor – e depositar na sala.

Leticia ia começar a rir quando a Lilian alertou – nada de rir. O riso diminui a força. Guardou esta informação para repensar em outro momento – mas considerou de imensa importância. Lá ia ela de novo – a Leticia – lidar com os imensos. Riu discretamente.

Depois de mais esforço braçal com o peso do Fouton elevador e corredor adentro e os móveis novamente carregados e relocados – o Fouton ganhou o espaço ideal. Agora a Carolina já tinha onde dormir. Ou conversar e rir.

Leticia passou as mãos no tecido do Fouton. Era realmente bonito. E um objeto novo numa casa nova. Este sim – a primeira compra oficial para o novo apartamentinho. O mais tinha sido adaptado – trouxera já de muitos anos e muitas casas. Sentiu uma pontinha de tristeza e lembrou a Lilian. Fez uma mudança – já que esta era a palavra mais comum atualmente – na frase dela. Nada de lágrimas – as lágrimas diminuem a força. Gostou mais assim.

A Carolina viera. Dormira no tal Fouton. Beberam vinho e falaram o que quiseram.

Olhou para as cortinas. Sempre adorou cortinas e tapetes. Mais uma vez a Lilian resolveu quase que magicamente o desejo da Leticia. Foi um tal de pregar aros. Lavar as cortinas. Providenciar varão. Na parte do varão ela sorriu. Passaram dias e dias em busca de um varão com três metros e meio. Ainda tinha o tal meio. Nem lembrava mais quem dera esta medida da janela onde o varão seria fixado para receber as cortinas. Mas entenderam como corretas as medidas. Não faltaram lojinhas e lojas. Só tinham até três metros de comprimento. Até que um dia encontraram numa loja de material de construção. Comemoraram. Não foi fácil – mais uma vez – trazer no carro o varão.

Trouxeram. Subiram pela escada. Não cabia no elevador. Sete andares. Sete. E fazendo força para não rir para não ficar fraca.  

Foi impossível não rir no ato seguinte. O varão de três metros e meio que subira pelas escadas com toda a seriedade requisitada – era maior do que o espaço da janela. Teria que ser trocado por outro de três metros. O meio metro que sobrava já ameaçava de novo a casa do vizinho.

Não trocaram. Serraram. Uma serrinha de metal foi apresentada e utilizada. Desta vez riram. Com força ou sem força – era impossível não ceder ao riso. Desta vez não era a rotina ou a medicação. Desta vez era o riso ou a medicação. Riram.

E lá estavam as cortinas lindas – penduradinhas. Olhou com um carinho quase parental.

A vida em paralelo continuava. O trabalho. A rotina de atendimentos. Os horários continuavam – mais cedo do que o desejado para acordar. Ainda brincava de Fadinha. As plantas estavam crescendo verdes e perfumadas.  Não havia um só dia que algo de dentro dos tais cinquenta metros não fosse movido ou alterado.

No dia da finalização da compra com a viúva temerosa fez um comentário com o Roberto. Este agora é todo meu. Posso até pichar as paredes se eu quiser. É todo meu.

Ainda não tinha combinado a derrubada de paredes e portas com o senhor Elson – Evesio – Everdson. Na manhã de um domingo que fora até lá para decidir que tipo de reforma faria – o Roberto foi encontrar com ela. Levou um presente. Um spray dourado para pichar as paredes o quanto quisesse. Adorou. Muito. Sempre seria grata a ele por este presente aparentemente lúdico – mas de importância quase visceral.

A mesma gratidão lúdica que tinha com a Aline. Quando toda a reforma foi acertada e combinada – uma caçamba se fazia necessária. Tijolos não somem no ar. Não existem na Mitologia Grega nem são parceiros do Éter. São retirados e levados materialmente para o mundo dos entulhos. A Aline sabedora das dificuldades de horário da Leticia foi logo avisando – deixa que eu resolvo. E resolveu. No dia que precisava ser retirado os tijolos desmembrados e as portas desqualificadas – lá estava em frente ao prédio A Caçamba. E Aline tirou uma foto e enviou para a Leticia que trabalhava do outro lado da cidade. Foi a foto e um recadinho – eis a sua caçamba. A mais linda do bairro. Sorriu.

Até o Renato que tinha horários tão difíceis quanto os dela – se dispôs a dar o nome e autorização numa lojinha de material de construção próximo do apartamentinho – para que nada pudesse ser motivo de atraso na entrega.

Luciano a levara para as compras de pisos e cimentos. Ambos lidavam com o doloroso da situação com tristeza – mas sem mágoas. Este era o viés por onde se entendiam a partir da mudança. E tristeza não se desvincula dos afetos. Não é preciso afeto desvinculado para se dissolver o que não está em Estado de Prazer. Muito pelo contrário. Para se dissolver o que não está em Estado de Prazer – é preciso muito afeto vinculado. Este também um aprendizado recente como o das plantinhas.

E uma espera em especial se fazia no dia a dia. Em meio a tanto prefácio e posfácio Leticia ia entremeando o novo texto. Inaugural. Seria avó. Todos aguardavam o nascimento da Riana.

Lilian viera para aguardar e Álvaro viera depois. Coitado. Também mal aterrissou e lá se foi recebendo uma maleta de ferramentas. Quadros e luminárias precisavam ser expostos.

Mas enfim cada coisa já parecia ocupar o espaço certo. E ela fazia disso um percurso também pessoal – começava a se sentir pertencendo àquele Lugar. Os cinquenta metros quadrados cabiam muito mais do que poderia imaginar qualquer engenheiro ou arquiteto com suas réguas e calculadoras.

Cada um mora dentro de uma metragem especial. Como na Televisão de terceira dimensão. Agora a medida era outra – e a Vida começava a se entender com a Leticia mais do que se desentender. E a Leticia começava a compreender a Vida muito mais do que simplesmente a justificar.

Antes de levantar do tal Fouton e deitar no horário infantil – Leticia lembrou o amigo americano que viera visitá-la vinte e seis anos depois que se despediram. Aliás – de repente todos pareciam querer visitá-la. Mas pensaria sobre isso depois. Em meio às conversas com o Paul – ela perguntou a ele se ele a estava achando egoísta. Ele respondeu com seriedade. Há uma diferença entre ser egoísta e estar independente. Você está independente. Go on.

Levantou e foi dormir. Amanhã tinha a Fadinha já cedo.

(DES)CARREGANDO PESO

 

 

Numa noite em que arrumava a estante e bem no estilo impetuoso – Leticia tomou a decisão.

Estava ordenando os muitos livros por título e por autor. Desde que mudara – planejava. Mas neste dia colocou o plano em execução. Tivesse um organograma – agora este item seria riscado. Mas claro que não tinha. Leticia e um organograma eram mais distantes que fantasias e ilusões em pessoas idosas.

O ambiente estava em silêncio. Só o arrastar das capas dos livros nas prateleiras da estante fazia uma musicalidade de arranjo de orquestra. Umas mais fortes. Outras mais fracas – tudo dependia do peso do volume a ser ordenado. E sem analogias – o peso pelo peso.

Nunca fora muito interessada em Televisão – mas neste instante se interessara. Sim. Vai lá saber o porque mas quando colocou um dos livros na prateleira pensou objetivamente – vou comprar uma Televisão. Até foi verificar o título e o autor para ver se justificavam a súbita necessidade – mas nem o título nem o autor continham algo que a tivesse induzido a esta vontade repentina. Enfim. Coisas do inconsciente. Aceitou. E continuou planejando e arrumando os livros. Agora com mais pressa e – portanto – com menos Metodologia. Eis de novo mais um aspecto estrutural da Leticia. A desconcentração imediata.

A cada intenção de decoração – parava com os livros e ia se postar em frente ao suposto local do novo objeto. Já estava com os pensamentos fora da estante.

Mas enfim. Compraria uma nova Televisão com tudo que tinha de atual. E grande. Enorme. Caberia sobre a cômoda e ficaria de frente para a cama. Não. Colocaria pendurada na parede da sala. Seria mais democrático e não ocuparia espaço. Não. Melhor deixar sobre a cômoda – sem pendurar. Evitaria a imobilidade.

Atualmente a Leticia estava com um novo olhar sobre o que não podia ser movido. Desde que destituíra paredes e portas – tudo passara a ter um novo conceito dentro de casa. E dentro dela. Ficara grata à noite de insônia que a fez compreender o que realmente dispensara além de tijolos e madeira. Numa outra noite também de insônia – pensou sobre a retirada das paredes como consequência e não como causa. Naquela noite o sono voltou mais rápido.

Enquanto escolhia com mais pressa a ordem dos livros e já desistindo de continuar com a outra estante – pensou nos filmes. Poderia assistir a todos os filmes que gostava. Tinha uma coleção de filmes antigos que o Luciano lhe dera num aniversário – mas poucos deles ela assistira. Apenas um ou outro num dia que não trabalhou por doença ou folga extra e ficara sozinha. Somente ela gostava dos tais filmes antigos – o que significava que não os assistia. Agora iria por em dia todo o presente. E olhando para as caixinhas dos filmes – sorriu pelo pleonasmo da metáfora.

Lá ficaram os livros do jeito que estavam. Foi cuidar dos filmes.

Organizou as caixinhas. Colocou por ordem de preferência. Separou os fios do aparelho de DVD. Até paninho de limpeza passou nas capas. Um carinho só. Riu de novo. Estava rica em metáforas. Ou as metáforas ricas dela.

Com a divisão de alguns objetos na organização da Transportadora – a Televisão do quarto de cima já fora direto para o lado de caixas do Luciano. Era dele. Podia levar. E ele levou. Ficara para ela uma antiga – mas como não se interessava por Televisão – deu de ombros e deu de presente à mocinha da Portaria do novo prédio.

Como os dias estavam tão cansativos ao retornar do trabalho – cumprimentava plantinhas e elogiava a Fadinha – e dormia cedo. Na maioria das vezes não jantava. Um copo de leite e uma torrada qualquer – e estava encerrado o assunto. Quando agia assim lembrava-se do Álvaro. Quando alguém reclamava e apontava que ele não deveria pular refeição alguma – ele ia saindo e avisando – já comi demais no século passado. Sábio amigo.

Mas o novo horário de sono – este realmente era novo. Em período algum da vida dormira tão cedo. Vai ver que talvez quando criança. E mesmo assim sob o comando da mãe brigando e a obrigando a ir para a cama. Ia zangada e torcendo para que o tempo voasse junto com a infância submissa. Agora estava na contramão do pedido. A infância submissa se fora – e ela ia dormir cedo. Um dia até comentou para um amigo – nem adiantou crescer já que tenho que dormir cedo. Ele riu.

Ao deitar – abria um livro – e durante muitas noites seguintes tinha a sensação de dejà vu. Estava sempre na mesma página. O ritmo profissional era intenso. Somava a mudança e todo o envolvimento emocional que a mudança causara e só restava mesmo ler todas as noites a página número um. Acordava no meio da noite – e lá estava o coitado do autor desprezado num canto da cama sob a luz acesa da mesinha de cabeceira. Ao se olhar via um certo desalinho no estilo de dormir. Mas sem muita perda de tempo – recolhia o livro e já dormia. Parecia que estava recuperando um cansaço ancestral. Quem sabe estava mesmo.

Mesmo possuída pelo tal cansaço ancestral – nunca deixara de organizar a roupa do dia seguinte ou o café da manhã já ficar em ponto de ser aquecido. Havia rotinas e precauções que não poderiam ser descuidadas. E acrescentava uma boa noite para as plantinhas e um pouco de água na terrinha para que a noite delas também fosse confortável.

E – lógico – cuidava de fechar janelas e cortinas. Nada mais de engatinhar. Ou de ficar atrás do balcão temendo tournée de barata. Agora já era a etapa de andar e resolver. Ao menos assim acreditava ou tentava acreditar.

Já estava numa fase que aprendera – nem tudo é matemático e nem tudo é transformado em saber. A parte que sobra de muitas somas sempre se perde num cantinho qualquer do traço. E muito saber fica por aí – sabe-se lá onde – desaproveitado porque não conseguimos alcançar.

Deu por encerradas as tarefas da noite. Com a manhã do amanhã em ordem – dormiu pensando na Televisão nova.

Acordou no horário de sempre – cedo. Mas desta vez nem reclamou com o espelho – a nova compra a deixara mais animada. Organizou todo o apartamentinho antes de sair. Certa da atitude na sequência – deixou um espaço aberto para a Televisão nova. Quem sabe poderiam ter alguma disponível na loja e entregariam no ato da compra.

Já saiu para o trabalho com todo o roteiro feito. Voltou do trabalho direto para o shopping – encontrou a que queria.

Tela enorme. Maior do que os cinquenta metros quadrados. Riu com o vendedor que nada entendeu com este comentário dela meio entre os dentes. E ainda era um daqueles aparelhos novos de terceira dimensão. Tudo de maravilhoso. Deixaria em cima da cômoda. De frente para a cama. E se sentiria dormindo em meio ao mundo real. Riu. De real o mundo tem nada. O vendedor escutou e mais uma vez não entendeu. Mas ciente de que ela estava decidida na compra – dizia sim a tudo. Entender é para quem compra – não para quem vende. O verbo vender dispensa entendimentos. Só lê números. Procede. Cada um com seu quadrado. Riu mas desta vez discreta e consigo mesma. Cansara da expressão de concordância surda do tal vendedor.

Tudo acertado. Dados. Pagamentos. Endereço de entrega. Impossível a entrega ainda hoje. Receberia num prazo de cinco dias úteis – após a finalização da compra. Que deixasse a portaria avisada – ou voltariam com o produto e demoraria mais cinco dias úteis para repetir a entrega.

Pensou – autoritário este vendedor. Nem terminou o pensamento e ele foi avisando – ordens da Empresa – desculpe – mas tenho que seguir e informar.

Que seja feita a santa vontade da Empresa. Agradeceu e saiu.

E cuidou de esperar que a utilidade – dos dias – passasse apressada.

Numa sexta feira – obviamente exausta – chegou de volta em casa. O porteiro sorriu para ela e avisou – tem uma encomenda para a senhora. Está atrás da coluna – é grande e bem pesada.

O grande até ela já concluíra desde a decisão até a finalização do processo. A questão foi o tal – bem pesada.

Mais uma vez os braços avisaram – estava sozinha. Até olhou para eles – os braços – e calculou o valor dos músculos e das articulações. Olhando assim – não pareciam grande coisa. Grande mesmo só a televisão numa imensa caixa bege.

O porteiro olhou para ela – e ela jurava que ele também olhara para os braços dela. Mas devia ser uma impressão fruto de algum Complexo de Inferioridade mal curado. Ela mesma já olhara o suficiente. Mas não pode deixar de perceber que ele estava com um risinho de canto de lábio – quando falou sobre o peso.

Leticia formalizou – eu comprei – eu resolvo. Subirei com a minha Televisão de terceira dimensão. E põe dimensão nisso – outra conclusão invasiva.

Avisou ao porteiro – desço já.

Subiu. Colocou bolsa e material de trabalho na bancada. Organizou mais uma vez o espaço escolhido para colocar a Televisão. Até passou um paninho com o álcool que sobrara da noite da barata. Olhou mais uma vez para os braços – e quase imponente – desceu.

O porteiro ficou observando. Ela deu um abraço na caixa. E respirou fundo. E semi-abraçada a ergueu e a caixa obedeceu. Ficou erguida por entre os braços dela. Quase um momento amoroso. A Leticia caminhou em direção ao elevador. Palavra correta e adequada. Eleva-dor. Pensou isso enquanto – carregada de orgulho próprio fingia descontração aos olhos do porteiro.

Enfim. Deu os passos necessários. Talvez não os necessários – mas os possíveis. Dois passos. Todo aquele esforço rendera dois mínimos passos. E a Televisão dentro da caixa de cor bege – escorrera solene – dela até o chão. Mas de pé. Nada de cair deitada. Uma elegância tem sempre que ser requisitada.  Depois de dois ou três passinhos com parada – chegou finalmente diante da porta do elevador. Apertou o botão do eleva-dor abraçada à caixa. Ou tentando fazer com que aquele gestual fosse mesmo um abraço. Lá estava ela carregando um peso por certo maior do que o dela própria. Os braços apontadores de faltas e perdas pagavam o preço da denúncia não solicitada. Já estava se sentindo quase uma esquizofrênica. Conversava com Televisão e discutia punição com os braços. 

O elevador chegou. Ela abraçou de novo a caixa – e conseguiu. Conseguiu entrar e apertar o número do andar onde desceria. Ficou orgulhosa – até fez uma carícia nos braços.

Nova batalha até dentro do apartamentinho – e a guerra foi finalmente vencida. Ao menos a parte do front. Faltava agora a parte das trincheiras – ou seja – colocar em funcionamento em cima da cômoda que escolhera como lugar possível e conveniente.

Encostou a caixa na parede. Ainda bem que sobrara alguma – mesmo sendo a divisória do apartamento vizinho. Cuidou para que a caixa não escorregasse e se sentou no sofá com os braços caídos qual uma pintura de retirante. Diziam os entendidos em dores que a dor muscular surge apenas algumas horas depois do exercício intenso. Contrariou a assertiva. A dor muscular que sentiu dos ombros até os dedos a fez saber e lembrar todos os feixes musculares que compõem a anatomia. Ao menos a dela. E nela. Nada de horas. Foi apoiando a caixa na parede e a dor foi se instalando nos braços. Eis uma rapidez de dar inveja.

Lá estava a caixa ocupando a metade da sala – o que é compreensível sabendo-se das dimensões internas da habitação – e ela com os braços caídos tentando se ajustar à ideia da compra. Quase se recriminou por não atender as opiniões carregadas de logística do Roberto. Quando contou a ideia que tivera a ele no trajeto para a compra ele foi objetivo – aquelas polegadas desejadas eram bem maiores que o espaço ao qual supostamente pertenceriam. Lembrava que ele fizera um chiste – põe de frente para a janela que os vizinhos vão pensar – da varanda deles – que estão num cinema. E riram. Ambos.  Agora não sentiu vontade de rir.

Mas deixou as trincheiras para outro momento. Foi prática – se até agora fiquei sem televisão mais uma noite não faz mal algum. E diante da caixa fez um aceno de despedida e falou sorrindo – até qualquer momento.

Mas em algum momento o qualquer momento chega. Nova onda filosófica a invadiu. E concordou. Era já chegado o momento. Afinal estava realmente ridículo e desconfortável ficar pulando a caixa encostada na parede já há cinco dias. Até riu quando fez as contas. Mais novos cinco dias úteis – inúteis.

Criou um espaço no tapete da sala – afastou as cadeirinhas dos séculos passados e deitou no tapete a tecnologia do século bem atual.

Com um estilete cortou as defesas da caixa. Com fingida calma e sincera vontade de ganhar tempo – mesmo sabendo que faria diferença alguma no contexto este ganho de tempo – foi primeiro jogando num saquinho todas aquelas fitas adesivas que dariam para envolver qualquer araucária gigante. Eram metros e metros de fita adesiva. Mas foi retirando e finalmente – a caixa estava liberta.

Abriu. Olhou para dentro dela como se fosse um conteúdo surpresa. Olhou sentadinha do lado da caixa e verificou o que dela – da caixa – seria retirado em ordem de prioridade. Tinha uma enorme e preta base e um cilindro transparente. Entendeu – porém não muito rápido. Mais um pedacinho daquele tempo que jurava estar ganhando foi consumido. O cilindro se acoplaria à base e a base assim composta aguardaria o encaixe da tela. Nada mais elementar. Brincadeira de criança – ela pensou. Retirou a tal base. Pesada. Muito. Colocou na cômoda que havia limpado. Acoplou o pequeno cilindro – enfim algo leve – e voltou em direção à caixa.

Tentou – verbo correto – retirar a tela. Estava envolvida por uma fina camada de papel endurecido e folhas finas de um material que lembrava um isopor. Algo bem moderno – pensou. Digno de terceira dimensão. Sorriu. Do que não sabia – mas sorriu.

E lá se foi a Leticia e os braços retirar de dentro da caixa a tela. Puxou duas ou três vezes. Já quase esquizofrênica – começou a discutir com os braços. Lembrou até das sessões de Análise com o Ronaldo. Quantas horas foram remuneradas a ele sob o assunto de força e de braços. Sem falar no que rendera o dia que ficara com as duas mãos grudadas e ele a perguntar os motivos dela estar com as mãos grudadas. A pergunta era – o que fazia ela de mãos dadas consigo própria.

Recordou o quanto era tranquila naquela época. Deu saudade imediata. Fosse agora e o Ronaldo iria preferir as mãos grudadas do que soltas na bochecha dele. Riu. Riu como habitual – com a baixa de oxigênio cerebral. Mas não deixa de ser um riso. Coitado do Ronaldo. Tinha o cabelo comprido e preso em rabo de cavalo. Por certo ia ficar descabelado depois que ela desgrudasse as mãos e grudasse na bochecha dele. Riu de novo.

Entendeu. Estava tentando ganhar aquele tempo. Até o Ronaldo – coitado – fora espancado.

Mas a tela continuava no mesmo lugar. De diferente só a base solitária com o cilindro em cima da cômoda. Inúteis mas já postados.

A memória foi-se sofisticando. Lembrou as telas do Jeronimus Bosch. Nunca ele vira uma televisão – nem de uma dimensão quanto mais de três – e compunha telas tão ricamente povoadas. Imagens e distorções de imagens – como uma quarta dimensão da alma humana.

Lá estava de novo tentando ganhar tempo. Mas perdoou a Memória – eis uma aliada solidária e amigável. Ultimamente estava bem amiga da Memória e das lembranças.

Recostou-se na cama diante da cômoda. Olhou os objetos que colocara. Refez o caminho até ali. Não da vida dela – seria gastar tempo demais sem finalidade alguma. Pensou no percurso da compra – mas dispensou o vendedor. Comprara a Televisão que desejara. Escolhera o tamanho e a modernidade tecnológica. Desobedecera conselhos. Separara um local adequado e até higienizara o tal local. Subira com ela até o apartamento qual uma música nordestina – entre abraços e escorregos. Encostara à parede divisória. Aguardara mais cinco dias. Retirara a base e o cilindro. Colocara na tal cômoda higienizada.

Não seria justo ceder a um pensamentozinho safado que se enfiava por entre a retrospectiva. Um anúncio na Internet – vendo televisão com muitas polegadas e muitas dimensões pela bagatela da metade do custo e ainda na caixa. O comprador terá que retirar no local.

Em absoluto.

Voltou para a frase já conquistada mudando apenas a conjugação. É minha. Toda minha.

Levantou-se da cama. Sacudiu braços e mãos. Quase acenou um pedido de desculpas ao Ronaldo descabelado e esbofeteado. Fez uma reverência ao Bosch. Foi no espelho – quase deu um grito de susto – estava mais descabelada que o coitado do Ronaldo teria ficado. Nos dedos ainda sentia o pegajoso da cola das fitas adesivas. A pele do rosto em total descompasso com a temperatura ambiente – suada sob um frio de quinze graus.

Aprendeu rápido.

Melhorou a aparência – prendeu os cabelos – acalmou a pele do rosto. Interfonou para a Portaria do prédio e solicitou a presença do Zelador. O senhor Romildo subiria em vinte minutos.

E lá chegou o senhor Romildo. Simpático. Atencioso. Sorridente. Disponível. Escutou a explicação e a demanda anexada. Olhou para a caixa deitada no tapete. Passou um rápido olhar no saquinho das fitas adesivas. Caminhou até o local onde seria colocada a tela. Olhou para Leticia.

Imagino como foi difícil carregar este peso – deveria ter me pedido. Por certo é magrinha – porém forte. Parabéns. Mas vamos lá. Deixa colocar aqui em cima do cilindro. Que bela Televisão. Enorme. Quase maior do que o apartamento. Sorriu – sem eco.

Quando o senhor Romildo colocou tudo certo no local certo completou. Entendo destas conexões. Vou organizar os fios e fazer as ligações. Deixo tudo pronto. Fios e ligações são comigo mesmo. E sorriu enquanto colocava cabinhos e tomadas nas entradas corretas.

Pronto. Sempre que precisar pode chamar.

Lá se foi o senhor Romildo repetindo pelo corredor enquanto juntava uma parte da caixa dispensada no hall de Serviço – se precisar é só chamar.

Leticia deu os retoques na cômoda. Tomou uma chuveirada. Levou uma tacinha de vinho tinto para a mesinha de cabeceira. Ligou a Televisão. O quarto se encheu de luz e som. As imagens circulavam absolutamente e perfeitamente nítidas – escolheu um filme na prateleira dos filmes antigos. Estava feliz. Muitas conquistas além da tal terceira dimensão se fizeram efetivas por conta de um impulso. Gostou.

Dormiu e sonhou com a cineasta descabelada e o filósofo de rabo de cavalo. Ronaldo parecia girar numa cadeira segurando um clarinete – mas ela não entendia bem o que ele falava. Sonhou que havia muita luz acesa na casa e um ruído forte e repetido.

Acordou – era o despertador tocando. Era cedo.

A Televisão estava ligada desde a noite. Por certo o sono viera forte com estilo comatoso. Assim ela dormira e não desligara. Sorriu para a tela imensa – e desligou. Esticou os braços. As mãos percorreram o colchão. Esticou as pernas. Tudo parecia perfeito.

Abriu mais ainda os olhos. Dormira muito tarde – bem diferente do horário infantil que há muito seguia. Dormira no horário adulto – se tivesse tempo até sorriria disso. Mas não tinha. O tempo inútil que tentara gastar quando não sabia como fazer para erguer a televisão – fora realmente todo gasto. A palavra certa agora era – emergência.

Pela primeira vez esquecera de separar a roupa do dia seguinte e o material de trabalho. O pulo que deu da cama deve ter despertado vários vizinhos. Vinte milhões de pessoas pareciam estar correndo de um lado ao outro dos tais cinquenta metros quadrados. Conseguiu se entender. Lógico que no modo acelerado – mas venceu. Fez toda a rotina. Regou as plantinhas. Arrumou a cama e a cozinha. Passou pela Televisão e caminhou com os dedos pelo contorno da tela.

Foi trabalhar. Quando voltasse a Fadinha teria feito o que tinha que ser feito. Desceu sorrindo o elevador e pensando sobre qual filme assistiria antes de dormir. Estava feliz com as novas diretrizes – podia assim denominar – que incorporava à maturidade. Pedir ajuda não é coisa de solitários – é de quem faz parte do mundo real. Que bobagem. Teria economizado cinco dias de espera – sabe-se lá do que – com a caixa encostadinha à parede. Tem uma parte que se faz sozinho e outra parte que se faz com ajuda. A parte que era dela – tinha cumprido. Simples assim.

E o riso lúdico se fez de cúmplice deste súbito item recém adquirido de maturidade. Sorriu e pensou enquanto subia rápida a ladeirinha.

É minha. Toda minha. Sorriu.

 

 

(DES)ENTENDENDO MORFEU

 

 

Rotina é rotina. Uma vez alcançada – é um ritual como se com ela se tivesse xifopagamente nascido. Depois de tantas mudanças externas e internas – uma rotina realmente se fez necessária. Talvez a única e estreita forma de tentar que a sanidade não se mudasse de vez de mala e cuia sabe-se lá para onde.

Ou se faz a rotina – ou se faz a medicação. Tem que saber escolher e ceder. Até os ímpetos têm lá seus momentos marcados. Assim ela – a Leticia – falava em forma de chiste duplamente disfarçado.

Mas finalmente habituada à tal rotina que criara em prol desta Filosofia da Percepção – Leticia estabeleceu os novos vínculos com as novas atitudes e fantasias. Sentia-se bem. Aliás – nem sabia que estava se sentindo tão bem até o momento em que muitas pessoas começaram a apontar. Não havia um só dia que os que com ela conviviam no cotidiano não comentassem – está mais jovem e está diferente. Pessoas que nem a conheciam a chamavam e timidamente elogiavam – permita-me lhe dizer que você está muito bonita com esta roupa. Ou elogiavam a pele. E quem já a conhecia e não a via com frequência – exaltava a diferença de anos anteriores e avisavam – está mais nova do que antes. Que beleza. E sempre uma curiosa observação seguia a pergunta – o que estava acontecendo a ela.

Se Leticia não tinha ou não queria a resposta certa – ria e fazia qualquer comentário generalizante – como se tirasse dela e jogasse no Universo. Se estava com mais disponibilidade citava a Física Quântica e as trocas cósmicas de Energia. Mais ou menos assim. Mas o que importava é que tirava dela a interrogação do outro. Virava uma exclamação – podia-se assim dizer. Ser tão seguidamente elogiada era novo para ela. Não sabia como lidar com a súbita vaidade oferecida e anunciada. E mais ainda – não costumava falar sobre si mesma. 

Vai ver aprendera isso com o pai. Ele dizia – quem revela muito de si mesma acaba esvaziada da própria identidade e preenchida pelo pensamento do outro. Não que não gostasse do pensamento dos outros – longe disso – mas neste momento em especial estava gostando um pouco mais de si mesma. Qualquer invasão tinha que ser bem dosada. Custara muito estar ali tranquila no novo apartamentinho de cinquenta metros quadrados. Tinha medo de aborrecer a Fadinha. Principalmente por saber que a Fadinha dela – era ela mesma.

A cada volta para casa – brincava com a Fadinha que deixara a casa arrumada e cuidava das plantinhas. Na saída – organizava e regava. No retorno – conferia e se divertia. Tudo em ordem. Eis os motivos que não saia sem arrumar todos os cantinhos. A volta sempre parecia mais feliz – e o tempo continuado. Quando entrava de volta na outra casa – a de médios metros quadrados e encontrava tudo na desordem do amanhecer ou do anoitecer – sentia que o tempo não fluíra. E não gostava disso. Olhava para o Universo e tentava se desculpar com a tal Energia que ficara prisioneira.  

Agora vivia um presente em continuidade. Disso gostava. Muito. Vai ver era mais um detalhe que a fazia se sentir ou aparentar renovada. Pode-se não saber a causa exata mas bem se pode colher os bons frutos dos efeitos. Isso acontece se e quando a causa – mesmo misteriosa – é bem tratada. Os mistérios escrevem as emoções codificadas e tem as próprias traduções – também codificadas – a serviço. Algumas vezes a maturidade ajuda a decifrar uma ou outra emoção. Algumas vezes.

Havia dias que ia passear na Avenida ou nas ruas das grifes. Ocasionalmente ia encontrar com alguma amiga. Raramente estava frequentando o cinema – hábito que vai lá saber qual o motivo – estava negligenciado. Deveria fazer parte das mudanças e de um atual detalhe constitucional. Estou vivendo a minha própria protagonização – pensou enquanto afastava o pensamento de filmes. Acalmou-se tão logo inventou esta palavra como sinônimo da atitude recém-criada. Deveria ser isso – concluiu. E deu por encerrada a menor que fosse possibilidade de culpa em relação ao que quer que fosse visto como compromisso desnecessário.

Em situação de impacto eufórico – Leticia brindou ao espelho a nova fase e sorriu. Estou até inventando terminologias.

Agora era a nova lei. Pessoal e intrasferível. Ria quando assim pensava e agia. Iria ao cinema quando desse vontade. As pessoas estavam certas – ela estava diferente. E compreendeu uma parte da tal jovialidade apontada – estava com atitudes novas e isso provoca reais efeitos no físico e na expressão fisionômica. A circulação se completa – o sangue se oxigena. Riu.

Enfim. Estava bem

E lá chegou a esperada sexta feira. Voltou para os cinquenta metros quadrados cheia de alegria. Antes passou no supermercado – comprou vinhos e queijinhos e água especial. Mais uma plantinha com flores amarelas. Como ninguém é de ferro – numa rápida olhada numa lojinha no caminho de volta – um vestidinho a chamou e insistiu para ser comprado. Obediente – cedeu. Assim explicaria ao gerente do Banco – amigo de muito tempo.

Entrou em casa. Fadinhas e plantinhas devidamente saudadas. Arrumou a bancada com as comidinhas de sexta feira e se serviu como se numa ceia coletiva. Estava tão adequada já ao novo estilo que – acompanhada de si mesma – Leticia fazia suavemente a própria festa.

Descobriu de uma tacada só que nem sempre se vestir com a própria pele é sinal de solidão ou de abandono.  É sinal de quietude interior. Não que seja este o caminho mais desejado – mas se ele vem – é buscar o melhor. Funcionava para ela – nesse período da vida – como se tivesse feito uma reconstrução. Não como a reforma material feita pelo senhor maravilhoso que trocara pisos e derrubara as paredes do apartamentinho novo. Mas dela mesma. Numa noite de insônia – surpreendeu-se com este pensamento. Entendeu que também derrubara paredes e arrancara portas – de si própria. Uma metáfora que a fez se auto-orgulhar. Pensou assim durante a tal insônia – e o sono veio forte e sedutor.

Dormiu segura sob o comando do Morfeu.

O tempo de adaptação e recuperação era particular. Convivia muito em harmonia consigo mesma. Às vezes brincava com as plantinhas dizendo – eu me amo. E em seguida se desculpava – amo vocês também

Até riu lembrando o Francesco – o convidado do primeiro Natal logo após a decisão da vida nova sozinha. Parecia já tão distante. Lembrava ainda a voz da mocinha positiva da agência de encaminhamento de companhia quando a solidão não fosse conveniente. Riu de novo. Esta parte também gostava dela própria. Criava as situações mais bizarras – mas conseguia lidar de forma administrativamente correta. Nunca mais soubera dele – do Francesco – ou da tia Luiza que mais viajava do que aterrissava. Vivia nos ares e nos mares. Bom para a tia Luiza que sempre fora tão arraigada à solteirice dela. Não sabia se o Francesco a expusera à Vida ou se ela expusera a Vida ao Francesco. Esse sempre um caminho de ida e vinda carregado de justas incertezas. Enfim. Sempre que a encontrava evitava o assunto. Cada um sabe do que quer falar – é preciso respeitar. E respeitava. Mas a tia Luiza parecia sempre muito bem – sorria fácil – algo bem difícil em tempos idos. Que se apossasse do que tinha que ser apossado. Vez ou outra percebia-se uma pulseira ocultando a tatuagem no pulso direito em forma de chama e com a letra F no centro. Outras vezes ficava à mostra. Deveria ter uma relação estreita com o estágio da relação e das trocas afetivas.

Leticia achava impossível não recordar o Lacan. Vai lá saber quem ocupa – na realidade dos laços – a posição fálica.

Até arriscou a revisar mentalmente Platão e os tais Erasteis e Eromenos. 

Vai ver é assim – de décadas em décadas as posições são mudadas. Quando pensou sobre isso – já estava deitada.

A sexta feira era um dos dias mais complicados no trabalho dela. Acordava muito mais cedo do que nos outros dias da semana e não era poupado um só segundo em torno do tanto fazer. Quando encerrava a atividade – estava sempre exausta. Naquela sexta feira não fora diferente. Repassando – fora uma das piores.

Colocou a tacinha de vinho na mesinha de cabeceira – o pratinho com alguns queijinhos. Antes de deitar uma ducha quente a fez lembrar toda a pele e cabelos fio a fio. Relaxou.

Apagou a luz do teto. Ligou a televisão. Pensou em Platão – quase foi pegar o livro na estante – mas deixou O Banquete para outro momento.

Preciso verificar se fechei a porta da rua e passei a correntinha – pensou enquanto se abraçava ao edredom.

O barulho fora forte. Não entendia bem de onde viera. Mas fora um estrondo. Escutou o barulho da correntinha da porta – na parede e na madeira. Alguém tentava entrar – ou definitivamente entrara. Não sabia o que fazer. Estava deitada. Sentiu algo nos pés. Até gelou. Mas compreendeu. Na pressa de deitar não tirara os sapatos. Nem notara até aquele instante.

Ficou ainda mais paralisada. Se levantasse de sapatos poderia fazer ruído no piso e quem entrava poderia agredi-la. Temeu tirar os sapatos antes de levantar – e caírem do colchão e fazerem o mesmo barulho arriscado no piso. Olhou para o piso e não enxergou o tapete. Tinha certeza absoluta que tinha o tapete. Mas sumira. Desistiu de pensar no tapete. O barulho da correntinha se repetiu. Sentiu que estava suada. Passou as mãos nos cabelos que pareceram curtos. E eram longos. Mas estavam molhados.

Deitada imóvel – aguardava que fosse quem fosse que entrara – aparecesse.

Olhou para a cortina – a janela do quarto dava para o prédio do lado. Mas deitada – não via o prédio nem a cortina. Desistiu de entender a cortina – ou a arquitetura. Vai ver era o escuro e o susto. Não conseguia assimilar mesmo a arquitetura. De repente os cinquenta metros quadrados pareciam redimensionados.

Encheu-se de coragem. O barulho da correntinha continuava. Ficou de pé. Estava descalça no tal tapete. Nem sabia onde tinham ido parar os sapatos. Mas ao menos lá estava o tapete macio e vermelho. Por um segundo sentiu uma confusão – de onde saíra o tapete com esta cor – vermelha. Notou uma luzinha – vinha do corredor. Mas isso era impossível. Não tinha corredor. Mas nem acabou este pensamento escutou os passos. O Tempo ficou em desacordo. O escuro só confundia e não conseguia enxergar direito. Não sabia o que fazer e não tinha para onde correr. Estava de pé descalça num tapete vermelho enquanto alguém entrava no apartamento dela. Deveria ter ido verificar a corrente mais cedo. Ou ter trancado a porta. Teve uma ideia. A faca. Dos queijos. Olhou para a mesinha de cabeceira e em meio a mais confusão viu a faquinha de cabo rosa. Caso fosse necessário usaria a tal faquinha. Mas não conseguiu pegar. Olhava para a faquinha – mas não conseguia pegar. Algo como se as mãos tivessem paralisadas. Ou o braço. Só a respiração estava forte. E àquela hora da madrugada não deveria ter um só vizinho acordado. Lembrou o relógio que ficava na parede da cozinha – mas não conseguia enxergar de onde estava. Melhor não se mover mais.

Queria gritar – mas não gritou.

Tudo que queria – parecia não conseguir.

Falou sussurrando – mas daqui não saio e só entra quem eu deixo – é todo meu.

O – é todo meu – a fez abrir os olhos de uma vez. Estava deitada – suada e assustada. Num gesto por certo corriqueiro há algum tempo – estirou o braço para o lado para segurar o braço dele. Dele. Não tinha ele.

Estava sozinha – foi a mensagem que o braço trouxe de volta – vazio e esvaziado.

Concentrada – entendeu. O pesadelo fora real. Tão real quanto o tal esvaziado.

Estava sozinha. Deitada na cama. A televisão estava ainda ligada – mas sem som. A cortina do quarto – fechada. Passou a mão nos cabelos e os sentiu molhados nas pontinhas. Para ter certeza de que lado estava – olhou rápido para o tapete. Verde. Não era macio – era uma tecelagem. A luz dos carros entrava pelo vidro da janela da sala – não fechara as cortinas.

Recuperada – levantou. A corrente estava lá presinha na parede e a porta trancada. Acendeu as luzes. Todas as luzes. Bendisse os dois lustres do teto. Saiu acendendo tudo que podia ser aceso. Abriu as cortinas. A do quarto. A da sala. Abriu até as janelas amplas. Nem sabia muito bem porque fazia isso. Vai ver era para sair o intruso. Riu. Janela a fora. E janela para dentro só entraria a Noite e os múltiplos odores acumulados pelo dia.

Mas isso era o de menos. Estava no próprio apartamentinho e tentava se encontrar com a realidade. O pesadelo viera como um intruso oferecer as certezas.

Já que estava tão suada e ao olhar o tal relógio que lá estava na cozinha em posição de visibilidade fosse qual fosse o ângulo – verificou que ainda era cedo – resolveu voltar para o chuveiro. Um novo banho poderia apagar as marcas da angústia e dormiria como desejara.

Entrou no banheiro. Deixou a água morna do chuveiro fazer fumacinha até os espelhos ficarem cegos. Colocou gotas de Óleo de Lavanda nos cantinhos – o vapor faria que se difundisse pelo pequeno ambiente e daria um toque de suavidade. Suavidade. Era tudo o que precisava. Separou uma roupa leve e até trocou lençóis e fronhas. Quase riu lembrando a piadinha do marido traído que vende a cama do casal. Estava trocando a roupa de cama – como se elas respondessem pelo pesadelo. Ou como se tivessem traído a confiança dela de uma noite de bom sono. Mas assim fez e se sentiu melhor.

Saiu recolhendo tudo que fora usado. Colocou na máquina de lavar e somente depois foi para o banheiro – já enfumaçado o suficiente e com um aroma delicado da Lavanda.

Nem a música ela deixou de fora. Valsas. Ficaria ao som de Valsas de Viena. Nada havia que a deixasse mais normocárdica do que escutar Valsas. E no momento pareceu uma ideia solidária. Colocou as Valsas. Sem falar num pequeno detalhe – ainda estava assustada. Muito assustada. A música abafaria os sons externos – que por duas ou três vezes a fizeram parar em meio aos preparativos e ir verificar a porta da saída e a correntinha. A música ajudaria também a resolver a sensação paranóica.

Não poderia demorar muito com a tal sessão de exorcismo onírico – dia seguinte teria que estar bem cedo já bem acordada.

Mas continuou mesmo que mais acelerada. Antes de entrar no banheiro – olhou para a cama vazia. Lembrou a informação do braço. Nunca imaginara que os braços dão as medidas das decisões de forma tão objetiva. Olhou para a cama. Para os braços. Para o relógio. Sentiu uma tristezinha. Entrou no chuveiro.

Lavou os cabelos. Passou todos os hidratantes capilares que há tempos não lembrava de usar. Sentou—se no banquinho que ficava no box e fez até esfoliação de pés e cotovelos. Estava mesmo indiferente ao horário e privilegiando o relaxamento. Ou querendo se separar do que sentira muito mais do que sonhara.

Mas a noite ainda tinha muito que oferecer.

Quando saiu do chuveiro – lembrou. Colocara as toalhas também para lavar logo depois que optou por descartar desta forma o tal pesadelo. A esta altura giravam na máquina entre lençóis e sabão.

As janelas estavam abertas em parceria com as cortinas. As luzes da casa acesas. E o local onde guardava as toalhas de banho ficava do outro lado do banheiro e de frente para as janelas. Benditos cinquenta metros quadrados e a arquitetura do prédio vizinho. E ainda era cedo – não havia vizinho dormindo. Isto aconteceu no pesadelo anterior. Neste agora e de olhos bem abertos – tinha até vizinho na varanda com a família.

E lá estava Leticia mais uma vez lembrada pelos braços que estava sozinha. Não tinha a quem pedir. Isso era fato. E contra os fatos não há argumentos. Frase antiga – mas vingativa.

Mas nada que não pudesse ser rastejado. Foi o que decidiu. Abaixou-se. Toda molhada – engatinhou. Veio à mente uma observação de uma amiga Neurologista – quem não engatinhou quando nenê – não sabe engatinhar quando adulto. Fica com a coordenação para sempre comprometida. Enfim agora sabia – engatinhara quando nenê. Não sabia a validade ou a funcionalidade da conclusão – mas ali estava ela. Engatinhando com perfeição. Pernas e braços – os tais braços apontadores de faltas e perdas – ritmados e perfeitamente coordenados. Os cabelos e cremes hidratantes capilares pingavam deixando as marcas da desatenção no piso trocado pelo senhor maravilhoso – e no tapete verde de artesanato.

Tudo isso pensava e ria. Ria. Muito. Devia ser consequência daquele sintoma antigo. Baixara o oxigênio cerebral mais uma vez. Era o mínimo que podia fazer diante de tal cena. E ria mais.

Mas conseguiu.

Quando finalmente se deitou – depois de ter ido algumas vezes se certificar da tal correntinha na porta – respirou fundo. Olhou as janelas e as cortinas fechadas. A roupa de cama trocada perfumada. Um cheirinho de Lavanda ainda enfeitava os cinquenta metros. Com a mão percorreu como numa carícia o espaço amplo do colchão.

Antes de se entregar aos cuidados de Morfeu e rir disso – pediu a ele um pouco de comiseração. E uma noite de sono restaurador e reparador.

Deve ter atendido. Na manhã seguinte nem bem entrou no local de trabalho e escutou de lá – bom dia – está sempre bonita e cada dia mais. Precisa me contar o segredo.

Sorriu – não para a amiga que assinalava a mudança – mas para Morfeu. Enfim pareceram ter se entendido. Ao menos por uma noite.

 

 

(DES)BARATINANDO A VIDA


Com a decisão pela nova vida Leticia conseguiu um apartamentinho como queria. Uma maravilha. Minúsculo. Não caberia o que armazenara pela vida a fora de material nos cinquenta metros ditos quadrados – mas caberia o que importava.

No dia de conhecer o espaço fez um ar de resignação. Sendo assim – assim é.

A vendedora era uma senhora viúva embora muito bem casada com a desconfiança. Temia a compradora. Temia a família da compradora. Temia o Banco onde sairia o financiamento. Temia os documentos do Banco. Era uma temeridade que dava até para tocar de tão bem constituída. Ficara viúva há dez anos mas ainda seguia as orientações imaginárias do marido e as reais dos filhos.

E lá estava Leticia.  Em meio a tanta temeridade – atribuída de tanta coragem. E as duas em contraponto total iniciaram as negociações.

Caminhar em cinquenta metros quadrados e repletos de paredes foi como passear num estranho labirinto de só um caminho. Não tinha luz no teto. A luz era embutida na lateral de uma das paredes da salinha. A cozinha era um canto escuro por onde outra parede fazia um isolamento quase penitenciário. No quarto uma parede impedia que da sala e da cozinha soubessem que poderia haver vida útil ali dentro. Ou inútil.

Um banheirinho encerrava o percurso por onde se voltava por entre paredes.

Mas de frente para o que chamaria de excesso entre faltas – estavam dois janelões que abriam para um jardim do prédio vizinho. Um lindo jardim com uma fontezinha por onde circulava a água e o barulhinho dela. E a rua – a ampla avenida que ela sempre gostara.

Iria morar no bairro que adorava. Próxima de um dos filhos. Diante do local de trabalho e perto da outra avenida que também abrigava todos os caminhos do prazer. O cinema preferido. A Livraria preferida. As lojinhas preferidas.

Se descesse a rua – estaria diante das grifes e cafeterias.

Não seriam paredes em excesso e espaço em falta que a fariam desistir deste mundo lá fora. E já aprendera que fantasias e expectativas não se entendem muito bem com metragem. Tanto faz – o mundo lá fora é bem maior que esta bobagem de espaço interno.

E diante da viúva temerosa foi avisando com clara disposição.

Adorei. Vou comprar. A viúva até sorriu e comentou – assim fácil?

Não tem que ser difícil. Gostei. Quero. E se posso – vamos resolver a forma de trocas de domínio.

Lá se foi com papeis daqui e dali – e a sequencia se fez com a suavidade nem sempre habitual.

Assinou. Assinaram. Cada um com sua posse. Uma tinha teto. A outra tinha o pagamento.

E a viúva temerosa foi lá feliz ver a conta bancária – enfim encerrado.

Ai começou a etapa seguinte. Tirar o que tinha e criar o que não tinha.

As paredes foram as primeiras a sair do ambiente. Paredes e portas. Nunca na vida a Leticia havia lidado diretamente – ou indiretamente – com reformas. Sempre olhara de longe e com um temor parecido com o da viúva. Mas era chegada o instante. Parecia que atualmente este era o estilo. A chegada do instante. E mais uma vez acreditou que com instantes e com chegada não se menosprezam.

Enfrentou a reforma.

O senhor Everdson – nome que custou a entender e decorar – veio em auxilio. E a acalmou – fica tranquila – sou bom e pontual. Acreditou. Aliás – nada mais restava a fazer a não ser acreditar. Com todas as alterações de vida continuava trabalhando a semana toda e o dia todo. Ou confiava na palavra do senhor Everdson – ou confiava na palavra do senhor Everdson. Nada melhor que a falta de escolhas – deixa a decisão bem mais linear. Nada de gastar tempo com isso ou aquilo. Perfeito. E assim foi feito.

Nada de paredes. Nada de portas. Nada de iluminação indireta. Duas saídas para fios surgiram do teto. Um piso novo foi colocado. A casa se encheu de luz. Muita luz.

Cada dia que ia até lá – sorria. Está tão lindo. O senhor é tudo de maravilhoso senhor Elson – Evesio – Everdson. Ele ria por todos os motivos. Pelo elogio efusivo que não parecia habituado e pelos três nomes que sempre a Leticia o nomeava a cada encontro entre argamassas e fiação.

Até que no dia combinado ele avisou – pode trazer a mudança.

E ela levou. A mudança.

Lá estava a Leticia mais uma vez diante de caixas e caixas. Desta vez não ficou assustada – nem foi para o Hospital. Nesta parte já estava experiente desde a primeira mudança. O que repetia era apenas a questão espacial. A Leticia podia entender de tudo – menos de espaço. Sempre considerava o espaço visual bem maior do que o real – aquele que se mede em metros. Este era complicado. Pelo visto era um sintoma – sem cura.

Mas enfim. Uma parte do que não coube deu aos funcionários da transportadora. A porta fechou.

Ficou ela e as caixas.

Não bem assim. Eles estavam lá. Os filhos e as norinhas. E lembra em especial do filho mais novo – o Roberto e da Cecilia – que se abraçaram a ela e pulando diziam – é seu! É seu! É seu! E riam muito mesmo em meio às tais caixas.

Caixa é o de menos. Um dia elas todas são abertas e desaparecem. Só isso. Tudo se resume numa questão de tempo em boa relação com o espaço. Somando a esta relação – uma tesoura para cortar os adesivos e um latão de lixo para descartar as caixas. Acrescentando ainda a ajuda da amiga Lilian que chegara de viagem para uma temporada na cidade e que ia – todos os dias – ajudá-la. Junte-se também a metodologia do Luciano que num domingo foi até lá e resolveu que caixas amontoadas e pouca metragem não fazem parceria agradável – e com boa vontade e força muscular dispensou as caixas esvaziadas. O resultado desta soma foi igual a – casa arrumada.

A acomodação final se resolveu com o caminhar pelo apartamentinho. E o que pode ser movido – por certo pode ser adequado. Numa casa sem paredes – tudo pode ser movido. O limite passou a ser apenas a casa do vizinho. Sorriu no dia que concluiu isso.

Eis algo que nunca conseguiram tirar da Leticia – o bom humor. Juntava este tracinho estrutural com o pragmatismo e a impulsividade inerentes e jamais se conseguiria – logicamente – fechar a conta.

Com os cinquenta metros quadrados bem preenchidos e sem labirintos estranhos para circulação – sem caixas mais à vista – a vida foi retomando o ritmo de sempre.

Acordava cedo. Muito cedo – para trabalhar. Entendeu que esta foi uma pirracinha do Universo. Toda a vida detestara acordar cedo. E agora se via prisioneira de um despertador – objeto que odiava tanto quanto o horário que ele alardeava aos quatro cantos dos cinquenta metros – centímetro por centímetro. Durante toda a semana – incluindo o sábado – trabalhava. Muito.

Mas inegável que estava feliz. Sentindo-se plena e sob a própria conta e autoria – sentia-se dona absoluta da própria vontade. Durante tantas décadas nunca se sentira tão independente. Das compras à música – selecionava o que queria. Dormia quando querida. Como queria. Jantava se quisesse e o que quisesse. Falava ao telefone ou se calava. Até as unhas decidiu pintar na hora que queria. Encerrou por um tempo as idas ao salão por conta desta sensação lúdica. Faço o que quero e quando quero. Estava se sentindo solta. Leve. Olhava até os pés – numa metáfora divertida. Agora eu comando.

Esse era o pensamento constante.

Estabeleceu algumas rotinas – também sob a própria voz de comando.

Deixava as janelas abertas – e cuidava das plantas. Esta uma novidade. Nunca fora atenta à plantas. Mas agora era. Cuidava com um carinho especial. Não havia dia que não as regasse com todo o cuidado. Quando uma delas ficou fraquinha – correu a uma floricultura perto e consultou a mocinha que se dizia entendedora e recomendou uma vitamininha especifica. Ameaçou – se algo de mal acontecer à minha plantinha vou procurar o conselho tutelar das plantas e lhe denunciar. A mocinha sorriu.

E a plantinha se recuperou verdinha de todo.

A outra das rotinas era sair de casa deixando tudo no lugar certo e perfumado. Organizava a cama. As roupas. Abria as tais janelas para as plantinhas receberam a luz do dia. Afastava as cortinas. A cozinha ficava impecável – sem paredes e sem objetos fora do lugar. Toalhinhas penduradinhas. Bancada organizada. Antes de fechar a porta para sair – mesmo tão cedinho – ainda dava uma última olhada para se certificar que deixava tudo na mais perfeita ordem. Ainda dava uma apertadinha no spray que colara numa das colunas sem paredes – para que o aroma de lavanda deixasse o ambiente saudável.

Quando voltasse – fingiria que uma fadinha fizera tudo isso – e encontraria a casa toda em ordem.

Fechava a porta e no caminho até o elevador – sentindo vontade de rir de si mesma. Nunca – jamais – em tempo algum – fora sequer parecida com o que era agora. Vai ver que a análise que fizera por dez anos causava os efeitos – dez anos depois. Nascera no lugar onde dizem que tudo é mais lento. Procedia.

Mas já deveria saber – quando tudo parece muito perfeito – uma falta tem que surgir.

Surgiu.

Nesta tarde a Leticia chegou mais cedo do trabalho. Nada a deixava mais em estado de euforia do que poder voltar logo para casa. Entrou. Tudo lindo e perfumado – pensou – esta fadinha é ótima.

Fez a outra parte da rotina. Deixou a pesada bolsa na cadeira da sala e foi à Padaria comprar o que seria o café da manhã do dia seguinte. Voltou. Preparou-se para o banho – ou ia se preparar.

Fazia parte do ritual separar as roupas do dia seguinte. Acordando tão cedo e tão revoltada com o despertador – seria um perigo estético deixar para escolher pela manhã. Corria o risco de sair com um sapato de cada par – no mínimo. A prudência foi uma boa conselheira.

Tudo resolvido – era entrar no chuveiro e depois se concentrar num filme. De repente – sempre é de repente – notou uma manchinha no chão que a fez olhar com mais atenção. Não vira antes e conhecia muito bem cada pedacinho do apartamento.

Mancha não seria o nome correto. Ela estava vendo mesmo. Não era sonho. Não era confusão óptica. Não era idealização de susto.

Era uma barata. Por certo entrara voando pela janela. Não se incomodara com a altura.

Uma barata sem neuroses – foi o que pensou enquanto tentava se acalmar. Um pouco de Freud quem sabe ajuda nestas situações. Mas não ajudou. A barata além de não ter neuroses de altura era muito bem resolvida. Ficou lá esparramada no meio da sala olhando as cores – vai lá saber. E tudo entre cinquenta metros quadrados. Quem sabe achou que estava diante de um castelo. Em tamanhos pequenos o mundo é vasto. Ou o mundo é vasto diante dos tamanhos pequenos.

Lembrou a viúva temerosa que lhe vendera os cinquenta metros quadrados. Sentiu-se quase uma alma gêmea. Deveria ter tido mais condescendência com aquela senhora.

Chega. Ordenou a si mesma. Está na hora de agir. Que Freud, por favor, se retire. Não. Que, por favor, Freud fique. Já era uma companhia. Pelo menos mais convincente do que a fadinha – que agora parecia completamente ausente. Deu até vontade de escrever um conto sobre A Fuga da Fadinha. Mas enfim – voltou à realidade.

Decididamente Leticia não sabia o que fazer. Estava parada por trás do balcão da cozinha olhando para uma barata esparramada na sala. Discorria em pensamento sobre uma inexistente fadinha e não se movia. Nem ela nem a barata – ainda bem. Se a barata desse um passinho que fosse – faltariam metros quadrados para a pobre da Leticia correr em desespero.

Com a invocação pela presença do Freud – o inconsciente trouxe à tona uma cena acontecida há muitos anos. Era parecida com a atual – embora com algumas grifadas diferenças. Ainda durante o primeiro casamento e num apartamento de muitos mais metros quadrados do que o atual. Muitos mais. Não se interessava por plantas. O andar do tal apartamento era ainda mais alto. Chegou do trabalho e se sentou no sofá da sala nomeada como sala da frente. Olhou para a cortina balançando com o vento suave do final do dia. E viu uma mancha na cortina. Entre a cortina e o forro da cortina. Estranho – pensou. E se aproximou. Aproximou-se com calma – mas veio de volta ao sofá da tal sala da frente com uma rapidez de maratonista medalhada. Foi uma correria só. Lá estava aquecida e tranquila – entre os tecidos – uma barata.

Daquela vez resolveu de uma forma simples. Pegou o telefone. Pediu a ele que viesse logo para casa. Estava sozinha e tinha uma pendência que somente ele resolveria. Explicou. Detalhou. Acrescentou a própria imobilização para evitar que o motivo do telefonema dali saísse para local desconhecido. E os tantos metros quadrados teriam que ser milimetricamente vasculhados.

Ele riu. Mas encerrou o que fazia e voltou. E retirou do conforto da maciez dos tecidos – a barata. Ela já em cima do sofá – sem nenhum tipo de elegância – comemorou feliz o final do dia. Ele riu e acrescentou – desta vez pude vir – e quando eu não puder não sei o que você fará.

Ali estava ela agora diante da frase – não sei o que você fará.

Se ele não sabia – imagina ela. Não sabia mesmo.

Não tinha para quem ligar. Até poderia ligar – mas o ligado não iria até lá. Os cinquenta metros pareceram de repente uma imensidão. Até questionou por um segundo a retirada das tais paredes. Poderiam ter alguma utilidade agora – ao menos portas poderiam ser fechadas. Mas de portas só restaram duas – a da saída e a do banheiro. Se a barata resolvesse passear ou dar uma corridinha – estaria perdida. Ela. Não a barata.

Era uma questão agora dela. Aliás – muito mais dela do que da tal barata. Ainda pensou – deve ser da espécie este desconhecimento das neuroses de altura. A outra subiu ainda mais alto para ficar fazendo da cortina edredom. Sorte delas que nada temem. Corajosas em profusão. Sem falar que de bomba atômica a era glacial – nada as extermina.

A esta altura – para repetir o termo – deveria estar mesmo assustada. Já estava elogiando barata.

Ainda tinha um outro detalhe. Espaço. Elas realmente não se interessam por arquitetura ou engenharia. São seres filosóficos. Restando algum cantinho – se espalham. E quem quiser que saia ou grite. Este mais um fato – elas não devem escutar. O que se grita em volta delas e elas nem se movem é de dar nos nervos. Algo como – quer gritar – pode gritar que daqui não sairei enquanto não me der vontade.

Agora estava invejando a barata. São históricas e não histéricas – pensou isso e quase sorriu. Quase. Não era situação para risos.

Olhou para as plantinhas. Verdes e saudáveis – que fantástico ser uma plantinha. Nem uma barata as faria correr. Só se viravam em direção ao Sol. Perfeito.

O que a Vida faz com as pessoas – pensou buscando recompor a sanidade.

Tentou lembrar as muitas formas de se livrar dela – a barata. Já haviam ensinado jogar álcool. Mas poderia tremer e a casa se inundar de álcool enquanto a barata corria feliz para outro cantinho. Poderia vaporizar com spray de inseticida. Este seria eficaz – caso ela tivesse algum em casa. Lógico – não tinha. O que não faltavam eram sprays – perfumadores. Não seria o caso de perfumar a barata. Podia chamar o zelador – mas até chegar ao interfone – ela poderia escolher outro metro quadrado além do que ela visualizava.  

Lembrou do maravilhoso senhor Elson – Evesio – Everdson. Mas até escolher o nome certo para pedir o tal socorro – a barata já teria aprendido tudo sobre metros quadrados.

Finalmente pareceu chegar a lembrança correta para a situação incorreta. Lembrou-se de uma amiga querida. Casara adolescente. Grávida. O casamento não deu certo. Numa noite o marido não tão adolescente quanto ela – avisou-lhe que havia se enganado. Não nascera para ser nem marido nem pai. Pegou os objetos que se considerava como proprietário – deixou as pessoas que considerava fora dos bens dele e saiu.

Ela foi morar sozinha num apartamentinho que o pai dela alugara avisando que era piedoso. A filha estava com quatro meses. Ela com dezesseis anos. Sozinhas e juntas. Numa manhã entrou no quarto da filha e encontrou uma barata. Telefonou para o pai pedindo ajuda. Falava com a filha num braço. A outra mão no telefone – e o olhar na barata. Ao ouvido chegou-lhe a resposta do pedido de ajuda. O pai dela foi lógico e específico – se você sabe fazer tantas coisas – deve saber o que fazer diante de uma barata. Resolva-se. Já aluguei o apartamento para você e já foi muito que fiz. Desligou. O olhar ficou encharcado. O telefone voltou silencioso para o devido lugar. A filha sorriu para ela. Ela deu-lhe um beijinho e a colocou com cuidado no berço. Com um sapato que estava caído num cantinho – matou a barata.

Nunca soube exatamente o que matara naquele dia. Mas nunca mais pediu ajuda a quem quer que fosse. Estudou. Formou-se em área de Ciências Humanas. Criou a filha que já tem vinte e oito anos. Casou mais uma vez. Nada teme – nem barata.   

Neste instante a Leticia jogou um beijo em direção ao nada. Mas pensava no Freud. Até sorriu. As lembranças realmente muito mais ajudam do que atrapalham.

Lá estava ela agora diante de si mesma. Os casamentos se foram. Os muitos numerosos metros com as cortinas ficaram para traz. Os médios numerosos metros também se desintegraram na posse. De quadrados sobraram apenas os tais cinquenta. Este – ela afirmava eufórica quando se referia ao apartamentinho – é todo meu.

É todo meu.

Por trás desta frase que acabou formulando em voz alta – repetiu para si mesma a que tinha escutado anos antes – quando eu não puder não sei o que você fará.

Igual às palavras mal saídas de dentro dela – Leticia saiu detrás do balcão da cozinha. Com uma vassoura dispensou para outro plano a barata invasora.

Voltou com calma. Limpou o piso com álcool. Tomou um banho como antes do fato havia planejado. Estava se sentindo bem. Muito bem. Deitou e dormiu.

Diferente da amiga que casara adolescente – ela sabia o que havia matado.

(DES)CONTO DE NATAL

 I

 

Com os desentendimentos frequentes eles decidiram por uma separação amadurecida. Não que exista algo sequer parecido – mas entenderam ou declararam que a separação poderia ajudar na união. Mais ou menos assim. Uma Filosofia encobridora. Aliás – exatamente a função da Filosofia – sair encobrindo algumas verdades não muito suportáveis. Mas enfim. Assim decidiram.  O que não traz alegria ou ao menos não mantem a alegria – deve ser repensado. Ambos já experientes – era o segundo divórcio de cada um – compreenderam que havia chegado o instante. E com chegada e com instantes não se brinca nem se menospreza. Em geral o preço fica mais alto.

Que repensemos distantes no cotidiano. Assim falou a Leticia. Assim concordou o Luciano.

E diante de decisões só restam mesmo os atos. E os atos se fizeram presentes no dia marcado e na hora agendada.

A tristeza da listinha de pertences ficou na sombra das atividades. O trabalho foi cedendo espaço à emoção e quando notaram – já estavam os objetos em caminhões separados e eles em carros separados seguindo o que de material ficou etiquetado com o nome do proprietário. Cada um em direção ao novo suposto lar.

Esta uma sinopse que faz jus à etimologia da palavra. Pouca descrição e muita formalidade.

Na etapa posterior da separação – um passinho à frente – eles descobriram – ou ela descobriu – que algo não fora etiquetado. O que fazer nas festividades de família. Eles já não faziam parte – em dupla – das famílias opostas. Nem ela frequentava a dele – nem ele frequentava a dela. Eram células estanques sob esta óptica.

A primeira festa que os surpreendeu sob a nova Situação Civil – foi a do Natal.

Já estavam separados há muitos meses e o Natal a fez lembrar – de um modo abrupto – o tempo que passavam juntos. Lembrava o último Natal. Havia sido comemorado com toda a intensidade justificada. Até os familiares habitantes do exterior vieram se unir ao festejo. Fora um Natal dos mais felizes. As fotos eram tiradas em sequencia e por todos que tinham uma maquininha à mão. Leticia nem sabia da última festa que ficara tão feliz quanto naquela noite.

Agora estava feita a diferença.

Sim. Natal.

Todos viriam para a festa na casa do filho mais velho – inclusive ele – o protagonista do primeiro divórcio – com a atual esposa. Viriam casais e casais. Simples assim.

Somente ela estaria no singular. E pior. Combinaram presentes de casal. Um presente para o par. Perfeito. Economia em tempos de consumo sempre é bem vinda. Mas não para ela.

Leticia ficou – dias e noites – imaginando todas as opções de viagem que poderia fazer. Nem a Turquia escapou. Das excursões excêntricas às pequenas vilas na praia – todas foram passando na fantasia de escape. Viu-se de casaco e bota caminhando sob o luar oculto de alguma cidade mediterrânea. Depois no estilo intelectual por entre os bancos da Universidade de Salamanca. Descalça numa vilazinha do nordeste sem pé nem cabeça. Ou talvez no próprio apartamento servindo-se de si mesma com champagne.

Nada.

Eles não permitiriam e ainda seria maldoso deixá-los preocupados com ela.

Não tinha opção. Era encarar os casais e o casal formado pelo fruto do primeiro divórcio.

A Leticia tinha um traço estrutural interessante. Um não – dois. Era imediatista e pragmática. Dois traços maravilhosos – ou perigosos – dependendo das situações.

Interessante – pensou ela. É época de consumo. Tudo se vende. Tudo se aluga. E silenciosa deu uns passinhos em direção à varanda da sala. Olhou para o Universo. Para a terra. Apropriou-se do ar e concluiu.

Vou alugar uma companhia. Perfeito. Um par.

Os pés e as mãos foram mais rápidos que qualquer bom senso seria – no caso de – o tal bom senso – querer se intrometer.

Foi o pensamento e o ato. Bom senso de fora e os dedos já dentro do teclado digitando a Agência.

Achou uma já na primeira teclada. Parecia elegante. Desde o nome até a localização. Ótimo. E ainda garantiam a integridade moral do contratado. Riu quando pensou qual a forma da garantia ou se ofereciam a mesma garantia em relação aos contratantes. Mas deixou a parte protocolar de segurança para um segundo momento. Este também outro tracinho estrutural da Leticia. Algo tipo – agir primeiro e refletir depois.

Telefonou ainda deixando que os dedos decidissem. Ia até pensar duas vezes quando escutou o alô – sim pode falar.

Já gostou. Maravilhoso o que se começa com o Sim.  

Ia explicar à atendente positivista os motivos da comunicação. Mas desistiu. Preferiu fazer logo as perguntas. As palavras também se adiantaram ao bom senso. Pelo visto – nesta maratona de final de ano – o bom senso iria perder. Era lento.

Bom senso é sempre lento. Vagaroso – ela diria num risinho irritado. A maioria até o invoca – mas ele sempre se atrasa. E o mais impressionante é que acaba levando os louros. Sempre haverá quem diga – se tivesse mais paciência o bom senso não permitiria. E o bom senso lento que deveria ser acusado – acaba elogiado e intitulado como – bom senso.

Enfim.

Afastando com a mão a tal espera pela chegada do lento bom senso – avisou o dia da contratação – ou melhor – a noite. O estilo. Até a roupa e o idioma ela pontuou. Não queria deixar dúvidas. Era um caso de vida ou desastre. Assim mesmo explicou para a atendente positivista.

Ela parecia tranquila do outro lado da linha. A cada pré requisito ela respondia o Sim. Não havia dúvidas. Ela receberia exatamente o que alugasse. E o pagamento seria em etapas. A primeira quando se decidisse. E a segunda no momento do encontro. Nada de sexual fazia parte da tal contratação – que esta observação ficasse bem assimilada. Era fundamental. Era uma Agência idônea – nesta palavra ela pareceu notar uma certa gagueira se antecipando à positividade – não sabia se pelo pouco uso desta palavra ou se pela pouca utilidade para a situação em questão.

Mas a atendente continuou com tom de voz objetivo.

Somos um grupo que entende que nem sempre a solidão é conveniente. E quando não for – temos a companhia intelectual correta. Assim. Claro como dois pontos. Sem reticências nem meias palavras. Ele será seu partner – e se despedirão tão logo os efeitos adequados estejam encerrados. Nada tem de ilícito. Muito menos de atentado à moral e pudor. São contratações de companhia e diálogos. Trabalhamos com pessoas sérias e de excelente passado e presente.

E acrescentou uma observação. Ainda bem que ligara tão antes da data. Nesta época as contratações se avolumam – e quem demora não consegue mais a companhia. Em datas de congraçamento a Agência tem o trabalho triplicado.

Por um segundo sentiu-se em Estado de Ambiguidade. Tanto se sentiu enturmada – como imensamente solitária. E pensou nas pessoas que fariam o mesmo que ela. Nem pode terminar o tal pensamento ou a tal sensação de se sentir nua na neve. Assim pareceu sentir. Nua na neve. Do outro lado da linha a mocinha positivista continuou a fala e a trouxe de volta da tal neve. Ou da tal nudez. Algo a mocinha positivista se empenhava em cobrir e aquecer. Devia ser antiga na função.

Já tinha o candidato que preenchia a solicitação. Enviaria a foto de corpo inteiro e de rosto. E os dados sobre idade e preferencias intelectuais. Assim fez. Assim Leticia concordou.

Um par. Perfeito.

Falaram pelo telefone. Depois pela webcam. Francesco era o nome dele. Além do Português – falava também Inglês e Italiano. Viera para esta cidade muito garoto ainda com os pais – de uma região da Itália que avistava o mar pela janelinha da casa. Era o que de mais forte ficara gravado na memória. Crescera e estudara nesta mesma cidade – distante do mar. Trabalhava fixo numa Empresa multinacional. Nas horas de folga fazia o serviço requisitado. Entendia de cidade grande e de gente solitária. Ou de gente grande e de cidade solitária. Fez ele este chiste mas sem muita convicção que estivesse agradando. Leticia optou por deixar de lado – tanto o chiste como a convicção ou falta dela.

Mas o achou decidido e verdadeiro. Nada de falinhas moles ou tons de sedução. Agia como contratado para um evento público. Ótimo. Ficou concluído – combinado e acertado.

A noite chegou.

O mês que antecedeu a chegada da tal noite foi de pura preparação. Inegável que estava ansiosa e insegura e não necessariamente nesta ordem. Escolher a roupa que usaria foi muito mais complicado que o ímpeto de ligar para a Agência. Não havia um só dia que não ficasse diante do próprio armário ou diante de alguma vitrine implorando por inspiração.

Isso era novo nela. Quando ia às festas com ele – o Luciano – pouco se preocupava com as roupas. Até riu diante de uma vitrine mais sofisticada. Vai ver me vestia dele – e era o suficiente para me sentir linda. Agora sim. Estou em busca da minha pele. Mais ou menos assim. Os pensamentos eram tão contraditórios que vez ou outra se preocupava mais com a sanidade da mente do que com a arrumação do corpo.

O encontro foi marcado na esquina do prédio. Ele avisou que iria de moto. Uma Harley. Ela sorriu. De onde saíra a Harley. Já deu vontade de aguardar com mais paciência o bom senso chegar. Mas nada. Tocou o plano.

Na hora certa e quase sincronicamente – os dois chegaram.

Ele desceu da Harley com ares de Apolo. Realmente era mais bonito do que na foto e na webcam. Bonito e com uma elegância que acentuava ora um lado forçado ora um lado displicente. Mas não era natural. Adquirida – pensou ela. Talvez num cursinho de médio padrão. Ele a cumprimentou. Fez um elogio e beijou—lhe a mão. Bom. Já não tinha mais como modificar a situação. Enfrentou.

Subiram um trechinho da ladeira de mãos dadas. Como um treino de última hora. Ou a última olhada no texto que poderá cair numa prova. Francesco era alto. Ombros largos deixavam a camisa preta em queda suave. Cabelos castanhos alternavam uns poucos fios brancos. Pele clara. Barba bem feita. Observou uma pequena tatuagem no punho direito. Uma chama. Gostou. Combinaram as apresentações.

Haviam se conhecido há alguns meses numa Livraria na disputa por um único livro. Ele gentil – cedera. Ela grata – lera e emprestara a ele. E assim nasceu um afeto especial. A família dele viajara e escolheram passar o Natal juntos com a família dela. Descreveu as pessoas que estariam presentes. Falou dos filhos e enfim revelou os motivos exatos da tal contratação. Francesco parecia achar tudo obviamente natural. Como se isso fosse o comum – o rotineiro em qualquer vivente. Diferente seria algo diferente. Foi o que comentou – numa segunda tentativa de chiste. Ela entregou a ele um presentinho enrolado num delicado papel prateado. Avisou – você me entrega como meu presente de Natal. Coloca na árvore e me entrega na troca de presentes. Combinadíssimo.

Ele a incentivou a relaxar. Esqueci de lhe contar – estudei teatro por três anos. Fica tranquila.

A porta do apartamento de Aline já estava aberta. Todos já haviam chegado. Renato – marido da Aline veio recebê-la e pareceu se divertir com a apresentação do Francesco. Deu um riso de bom entendedor que não precisa nem de meia palavra. Ela riu de volta. Roberto se aproximou com a Cecilia e pareceu menos entusiasmado. Mas nada comentou. Francesco ao ser apresentado disse a ele num tom de gracejo – pode me chamar de papai.

Neste exato instante todos que conversavam – calaram. Nunca vira algo tão imediato. Nem sabia explicar quem nascera primeiro. Se a palavra papai ou se o silêncio. Mas ecoou. O silêncio permitiu a palavra papai voar pela sala e se aproximar de todos. Não faltou um só par de olhos que não tivesse girado em direção ao Francesco e em seguida ao Roberto – que educadamente apertou-lhe a mão.

Neste instante a Leticia tremeu de leve. Lembrou de imediato da tal nudez na neve.

Mas Renato veio em seu auxílio e disse sorrindo – certo papai – vamos entrando. Desta vez um novo som – riram. E aos poucos os olhares foram – não sem pouco esforço – girando para outros contornos.

Clóvis estava sentado num sofá mais ao fundo da sala. Parecia – como de hábito – alheio ao ambiente. Talvez tenha sido o único que olhou sem ter escutado o tal papai. Virou como num coral. Seguiu os outros. E justo ele – a tal consequência do primeiro divórcio e causa da contratação do partner intelectual. Ao lado dele estava a atual esposa – a Carmem. Vestida num longo de tom roxo escuro e justo – recostava lânguida a cabeça no ombro dele a cada vez que se dirigia à Leticia. Mas abriu um pouco mais os olhos ao ser apresentada ao Francesco.

Em cadeiras unidas sentavam-se espigadinhos e algo tímidos os pais da Cecilia. Cumprimentaram o Francesco com uma pouco de interrogação. Não pareciam entender tão rápida reintegração de dupla da Leticia.

Os pais da Aline agiam como se o Francesco fosse um velho amigo da família. Convidaram a sentar e ficar à vontade. Lilian – a mãe da Aline – não se deteve em detalhes nem em generalidades. Álvaro o pai – sempre desatento – o tratou como acreditou ser a verdade – um amigo antigo da família.

Havia ainda a tia Luiza solteira e adaptada ao Estado Civil como se um sobrenome fosse. Ou um título. Pareceu mais surpresa do que recriminadora. E a prima Camila – que morando há pouco tempo na cidade – e sem os familiares próximos – fora convidada. Não tinha um cotidiano com aquela parte da família mas mesmo assim aceitara o convite.

Leticia entendeu – num fragmento de tempo. Estar só em datas festivas abre novas socializações. Cada um busca um agrupamento – seja adequado ou não. Como se o importante fosse muito mais a agregação do que o compartilhamento. Ou o afeto e suas incontáveis formas de demonstração. Mas dispensou as ideias conceituais. Não era momento para estabelecer conceitos novos nem repensar os velhos.

A Camila era de uma beleza especial. Morena. Alta. Altíssima. Magra. Cabelos e olhos negros. Destacou os contornos da anatomia com um longo preto – sem costas. Onde passava provocava alguns olhares – mas agia como se cega fosse. Não registrava. A expressão oscilava entre o tédio e o riso social. Não sabendo bem como agir já que não era habitual entre os participantes – se refugiava numa bandejinha de pequenos aperitivos e fazia da tacinha de champagne um convidado com quem conversava sem parar. Sim. A tacinha nunca se esvaziava – ou nunca se enchia – de todo. Havia sempre a complementação que ela permitia com prazer. Segurava a tacinha com um jeitinho especial – como se estivesse de mãos dadas com ela.

Enfim. Assim estava o ambiente. Ao aroma do banquete quase totêmico se misturavam o perfume das pessoas. Todos circulavam e vez ou outra um se aproximava de algum outro para uma suposta conversinha mais codificada.

A linda árvore de Natal acesa em todo o seu esplendor dava uma sensação de boa energia ao ambiente. Os filhos e as norinhas eram todos efetivamente alegres e bem humorados.

Francesco cumpria o papel a que fora requisitado com desenvoltura. A cada gentileza a Leticia agradecia – obrigada vida. Ele sorria e complementava com um forte sotaque italiano – prego Gioconda mia. E circulava com o estilo oposto ao da Camila – como se de lá ele nunca tivesse saído. Como se nascido e criado naquele ambiente e em convívio estreito com aquelas pessoas.

Se num minuto Francesco conversava com a tia solteira – no seguinte já estava com o Clóvis comentando a própria felicidade no relacionamento com a Leticia. La mia Gioconda é una principesa. Carmem com a cabeça sempre recostada no ombro do Clóvis – buscava entender as rápidas mudanças das cidades grandes. Clóvis parecia nem saber sobre quem ele falava. E vez ou outra repetia a pergunta – de onde ele viera e com quem viera. Até o confundiu com um parente que não via há muito tempo.

Assim estava a sala. Tudo em perfeita sintonia. Comidas. Aromas. Perfumes. Música. Roberto e Renato – sempre próximos. As meninas em torno deles e dos pais. Leticia bem servida e a esta altura já relaxada com a companhia contratada. Afinal não tinha compromisso com ninguém e era apenas uma forma de se sentir menos cobrada. Nada além de uma necessidade pueril de pouca explicação. E como tudo seguia como planejado – sentia-se bem à vontade. Os filhos a tratavam com o carinho de sempre e acabaram por se divertir com a nova companhia. Mas nada sabiam sobre alugueis e contratações. Achou desnecessário. A historinha do conhecimento na Livraria fora contada de forma tão enfática que já estava até acreditando ela mesma que assim acontecera.

Par. Perfeito. Perfeitamente – não fosse a prima Camila resolver separar as mãos dadas com a tacinha.

De repente a Leticia viu uma tacinha abandonada num cantinho da mesa. A chama do punho do Francesco desaparecida. E as costas da Camila fora de circulação.

Algo acontecera. Ou estava acontecendo.

Escutou um riso vindo do salão de entrada do prédio. Um riso não. Dois. Dois risos e um silêncio. Depois dois risos e outro silêncio – este já mais longo. E mais longo o próximo e já sem riso intercalando.

Lá se sentiu de novo nua na neve. Olhou em volta. Todos pareciam estar envoltos com a festa muito mais do que com os convidados. Não pareceram notar as ausências. Sentiu um mínimo alívio.

Mas não era mulher de meias palavras. Subiu um calor tão intenso no rosto que a neve – mesmo inexistente derreteu e ferveu. Por certo em algum lugar do Alasca teve uma geleira despencada. Aguardou. Continuou agindo dentro da festividade – embora grudada ao aparelho de ar condicionado. E quando olhava para a tacinha na borda da mesa abandonada – voltava flamejante o tal calorão.

Virou para a porta. Lá estavam. Camila sorria e acomodava os cabelos atrás da orelha. Puxou de volta uns fiozinhos rebeldes que estava por entre os olhos. A camisa preta do Francesco já não caia tão suave sobre os ombros largos como no começo da festa. Pareciam descompassados.

Leticia deslizou pela sala. Chegou junto deles. Avisou – que você prossiga com a segunda parte do pagamento.

Camila – que a esta altura estava ao lado do Clóvis e já de mãos dadas com a tacinha – avisou em bom som. Ele não é mesmo seu. É alugado para que este aqui – apontou para o Clóvis – não pense que você está só. Quem aluga não é proprietário. Nem pense em me dar lições de moral. Era o que faltava. Eu pelo menos não alugo companhia para fingir parceria diante de ex-marido. E apontou mais uma vez para o Clóvis.

Carmem ergueu de um golpe só a cabeça do ombro do Clóvis.

Clóvis – como de hábito alheio ao ambiente – virou-se assustado e repetiu algumas perguntas. Isso é comigo? Por que? Eu a conheço? Eu o conheço? Alugaram o que? Eu nem moro aqui. Ele não é o pai da Cecilia?

A esta altura o melhor era mesmo seguir com a festa. Aline – sábia – aumentou a música e vários tons se misturavam com a orquestra. A tia solteira avisou que estava no momento de troca dos presentes. A tacinha voltou a ser abandonada na mesa. Escutou-se um agradecimento e um beijo jogado a todos. Camila saiu deixando a imagem das costas nuas nas retinas que a olhavam. Avisou que recebera um comunicado do Hospital onde trabalhava e teria que sair. Que o Natal fosse feliz para todos. Olhou para o Francesco e arriscou uma piscadinha e um gratisima amore mio.

Francesco devia ser um bom entendedor de contas a pagar. Ainda bem. Viva os financiamentos bancários. Rápido e por certo relembrando a cara do gerente do próprio Banco e das prestações da tal Harley – Francesco fez-se de Clóvis. Não sei o que aquela moça falou. O sotaque dela é tão estranho. Deve ser devido a tantas doses do champagne. Pediu para ir até o carro dela porque iria pegar os óculos. Comentou algo sobre lentes de contato e queimor em olhos. Não entendi bem. Coitada. Tão nova.

Andiamo mia Gioconda. Vamos trocar os presentes. O seu está aqui comigo. Mas vou por na árvore. Assim você ficará surpresa ao lado de todos da famiglia.

Leticia fez-se de Carmem. Recostou a cabeça no ombro de Francesco e numa pose que tendia à própria Gioconda, cruzou os braços – e por entre os braços cruzados escaparam as unhas. As unhas.

As unhas se anteciparam e lá foram se enfiar em meio à chama tatuada no punho do Francesco.

A chama esquentou. Francesco suspirou um gemidinho. Mas nada fez. Sorriu para a Carmem que percebendo levantou mais uma vez a cabeça do ombro do Clovis – que nada notou. Controladamente Francesco comentou – ela adora aumentar minha chama. La mia Gioconda é uma regazza cheia de surpresas.

Novamente tudo parecia sob controle. Mas aquele jamais seria um Natal comum.

Quando todos sentaram em torno da Árvore para a entrega dos presentes – ouviu-se um barulhinho na maçaneta da porta. Era ele. Luciano. Contrariando qualquer possibilidade e expectativa. Viera para desejar um Feliz Natal a todos e a ela em especial. Entre um beijo e um olhar acrescentou que saíra da festa da própria família e viera até lá compartilhar o restante da noite. Com ela e com eles.

Que noite.

Francesco – experiente – foi se afastando como se lá nem estivesse. Carmem – ao ver o Luciano – de um pulo só ergueu a cabeça do ombro do Clóvis e gaguejou um boa noite segurando a nuca. Cumprimentado – Clóvis perguntou se estava tudo bem na Itália. Os pais da Cecilia se recusaram a dar continuidade a qualquer tipo de diálogo. O pai em especial se recolheu diante dos próprios pensamentos. Nada mais falou – já que nada mais entendeu.

Lilian e Álvaro se mantiveram como devem se manter numa festa de Natal – participantes e socialmente compartilhantes. O acolheram como de costume.

A tia solteira suspirou forte em direção ao Universo – comentou em seguida ao longo suspiro que o melhor presente de Natal foi descobrir como a vida pode ser sobressaltante – e foi-se para entre os braços que o Francesco abriu em direção a ela. Francesco a aconchegou e sussurrou algo no ouvido dela que a fez rir e apontar para a própria bolsa.

Quando os presentes eram abertos e a tia solteira recebeu das mãos quentes do Francesco a caixinha como se para ela tivesse sido comprada – a voz dela surgiu doce e rouca por entre o barulhinho dos papeis rasgados. Falou em suave tonalidade – foi preciso crescer para ter a certeza da existência do Papai Noel. E em seguida um estalido. Este o real comentário da tia agradecendo a bela correntinha de ouro com o pingentinho de brilhante que o Francesco sensualmente colocava no pescoço dela.

Desta vez foi a vez da Leticia olhar a própria bolsa. Quanta despesa. Mas enfim. Quem não tem paciência não aguarda o bom senso chegar. Pensou e olhou de ladinho para o Luciano que conversava com os meninos – há tempos não se viam. Desde que o caminhão levara a parte etiquetada de cada um.

Lembrou uma frase que escutava quando criança de alguma professora mal humorada. Aqui se faz – aqui se paga. Ou seria o contrário. Aqui se paga – aqui se faz. Enfim.

Em seguida ao barulho da porta se fechando – veio o barulho da moto roncando. A tia avisou que sairia mais cedo. Francesco se dispôs a acompanhá-la e não mais retornou. Do hall do elevador pareceu vir o som da voz dela – rouca – falando algo como lo sole mio.

O Clóvis levantou e foi em direção a um espelho. Parecia se sentir envaidecido por ter ocupado um lugar de tamanho destaque. A prima Camila antes de sair tinha sido bem clara quando avisou que o tal Francesco era alugado para ser exibido a ele. Não entendeu bem as razões nem os porquês – muito menos o alugado. Mas foi se olhar narcisicamente. Pena que no caminho até o espelho esqueceu o motivo. Apenas arrumou os cabelos enquanto Carmem o chamava para a sala e colocava a cabeça no ombro dele.

Depois das trocas de presentes e da muito alegre e afetuosa confraternização – foram se despedindo e saindo. Clóvis cumprimentou Luciano e comentou que iria a Itália em dois meses por uns dias de férias. Ofereceu-se para levar algo que quisesse para alguns parentes que porventura ele quisesse agradar. Uns livros talvez – já que ele gostava de ir a Livraria.

Luciano não entendeu muito bem – mas dispensou a gentileza avisando que era do Brasil – não tinha parentes na Itália. Clóvis nem piscou – mas observei que você fala todo o tempo em italiano. Que interessante.

Leticia ainda deu uma última olhada para a caixinha aveludada da joalheria – vazia – que ficara num canto. Comprara aquela correntinha que tanto queria e agora brilhava no pescoço da tia Luiza – que por certo percorria a cidade sobre a Harley.  

Os meninos felizes olhavam os presentes que deram e receberam e riam ainda das ideias da mãe. Só Roberto ainda fazia uma birra leve pelo – pode me chamar de papai. Renato somente ria. Aline foi reorganizar a mesa das comidinhas. Cecilia tentava explicar aos pais que o importante mesmo é deixar circular o amor que a noite de Natal reforça.

Depois do último brinde – Leticia voltou para a casa dela. Luciano para a casa dele. Ao abraço da saída ele acrescentou para ela – vamos seguir nos falando. Ela concordou sorrindo. E num gestual impetuoso – passou as mãos sobre si mesma – e gostou de começar a se vestir com a própria pele.  

Numa noite de muita chuva – a tia Luiza veio para uma visitinha rápida. Havia muitos meses que não aparecia. Desculpava-se por muita ocupação. Viera se despedir por motivo de uma viagem não planejada mas desejada.

Ao erguer o braço para um cumprimento mais afetivo – viu-se no punho dela uma tatuagem. Uma chama. E dentro da chama vermelha uma letra. F.

 

1

Uma noite tocou a campainha de casa.

Escutei o som e corri a atender dentro do que as minhas pernas entendiam – naquele momento – como corrida.

Eram os meus pais.

Eu mal havia chegado do Hospital depois de um duro dia de trabalho. Esperava apenas pelo momento do jantar e da abençoada hora de dormir. Dia seguinte tinha mais.

Era um período de muito esforço tanto físico quanto mental. Já com o Curso Médico concluído iniciei o primeiro ano da Residência na especialidade escolhida. E veio anexado um ritmo de rotina verdadeiramente extenuante.

Ia em casa apenas três vezes por semana à noite – para dormir. Fossem os dias úteis ou inúteis eram restritos ao Hospital. Registrava tantas Histórias Clínicas com riqueza de detalhes que meus dedos e olhos doíam sem trégua ao final dos plantões. Estes – os plantões – alternados também sem a mesma trégua entre diurnos e noturnos. A concentração era palavra e ato de ordem em meio aos exames complementares e a escolha de protocolos adequados. As inúmeras apresentações e discussões de casos e avaliações de prontuário requeriam uma ampla revisão detalhada da Literatura Científica. Toda prática era fundamentada na teoria com todo o rigor pertinente. E assim mais horas se faziam exigidas. Não era só de concentração que se alimentava o raciocínio – mas de absoluta necessi dade de confiança na memorização.

Toda a tensão que cabe a um iniciante – transbordava dentro de mim. Não havia uma só decisão que não fosse avaliada e concluída com o máximo de certeza do correto a fazer. E num mesmo turno muitas e muitas decisões eram colocadas sobre a mesa – para serem finalizadas acertadamente e acertadamente finalizadas. Mais ou menos amplo e mais ou menos restrito parecia girar com exclusividade – o Mundo.

Lembro de uma preceptora desta época. Era rigorosa e contundente – podia assim dizer. Nada de sorrisos a não ser em momentos escolhidos por ela e dirigidos a quem – também por ela – fosse escolhido. A tal escolha deveria ter razões e objetivos baseados em algum critério que nunca consegui decifrar. Enfim. Diante de tanto novo – esta decifração era o de menor importância. E muito mais valoroso – do que o interesse de decodificação na misteriosa escolha – foi um dos ensinamentos dela. Daria um excelente Manual sobre a Arte de Decidir.

As reuniões para as Discussões de Caso Clínico eram sempre na sexta à tarde – ou talvez na segunda. Como os dias corriam sem marcar diferenças entre úteis e inúteis – o que menos importava era o calendário em relação ao dia. Importava o Dia da Reunião. E o calendário formal se fazia oculto diante dos Residentes temerosos agarrados às pranchetas e anotações. Todos se viam diante de um Tribunal particular – o erro não incluía somente uma sentença. A cada erro toda uma explanação sobre a Ciência e a Inteligência – para ser minimamente delicada – se fazia num contexto único. Não raro algumas lágrimas se solidarizavam à expressão desorientada do penitente.

Em uma destas Reuniões brotou de imediato o tal ensinamento sobre a Arte de Decidir – diante de uma análise errada.

Da ponta da mesa ela escutava atenta. O Residente discorria com expressão de altivez sobre o Diagnóstico e a Conduta. Talvez com exceção do míope leitor altivo – todos já sabíamos que algo estava caindo em total desagrado. O gestual dela – a caneta entre os dedos batendo suave sobre o papel em frente – denunciava que o Tribunal estava em plena ação.

Quando ele silenciou – ela falou.

E qual uma gangorra com pesos desiguais – ele caiu. Lá do alto da suposta gangorra ela avisou em lento e bom som o que ficou para sempre em minha memória. Errar o Diagnóstico era possível e até aceitável. O impossível e inaceitável era não combinar o Diagnóstico com a Conduta. Se a escolha é errada e se repete o erro escolhendo o tratamento também errado para a tal escolha errada – não há fundamentação que possibilite uma discussão. Não há discussão que qualifique qualquer fundamentação.

E diante da repetição incessante das palavras erro e errada – ficou a escolha como uma espécie de ponte pênsil por onde basculavam o saber – o dever – o poder e o raciocínio.

Durante anos e anos e sob determinadas situações as palavras dela e a voz plena de autoridade superficializavam em minha memória. Muito mais do que uma lição de Residência foi esta uma orientação objetiva e pragmática para a Vida. Vinculei-me a este quase axioma como uma carta dentro da manga. Guardei como uma espécie de colinha diante das escolhas ou um amparo ao Consciente sobrecarregado de códigos vindos do Inconsciente – sempre tão difíceis de serem decifrados.

Enfim. Assim corriam os dias à minha frente – e eu atrás deles para alcançar os projetos em perfeita sincronia e boa sintonia. E aprender sobre erros e erros.

Naquela época a primeira decisão fortemente objetiva foi retirar os sinônimos das minhas articulações. O mundo era feito só de antônimos – mesmo que não se percebesse num primeiro olhar ou numa primeira escuta. Havia na realidade dos conceitos vigentes uma outra Gramática – que não se ensina em nenhum currículo formal.

Mas ainda me restava muito mais aprendizado sobre as ausências na Gramática formal.

Tanto me restava quanto me faltava – e eu caminhava em total e irrestrita cegueira de completude inabalável – sem bengalas.

Eis a juventude em todo o seu esplendor.

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