Archive for the ‘ Blog de LÍda Rezende ’ Category

Tempo Observador

Como é difícil lidar com o Tempo.
Tanta ansiedade. Tanta espera. E o Tempo l√°.

Ainda faltavam seis semanas.  

Pensou – qualquer um diria que
passa r√°pido. Respondeu a si mesma em tom ir√īnico – qualquer um inexperiente ou
comprometido no racional e emocional. Porque o tempo só passa rápido quando
ninguém se importa com ele. Aí ele acelera. Mas se alguém passa a medi-lo Рele
se diverte. E quando chega o durante Рele se prepara para correr. O antes é
sempre lento. Eis uma relação verdadeira quando vista de frente para trás. Teve
uma s√ļbita compreens√£o do pensamento do mestre franc√™s. Ele que falava em todos
os semin√°rios da quest√£o do – logo depois. Procedia. Foi o que concluiu numa
tarde de temporal.

E o que não faltava neste período
era tarde de temporal. Se as conclus√Ķes dependessem do temporal ¬Ė teria muito
em breve um livro publicado s√≥ sobre conclus√Ķes. Todos os dias ao final do dia
o c√©u escurecia. Os raios cruzavam com intimidade de um lado ao outro ¬Ė qual um
passeio familiar dominical. Os trov√Ķes pareciam sempre a postos – amontoados e espremidos
em fila de espera. Apressados Рnem davam o devido respeito à lei do som e da
luz. 

E numa tarde de forte temporal ¬Ė
sob raios e trov√Ķes ¬Ė discorreu sobre o Tempo. Criou at√© uma nova terminologia.
Com nome e sobrenome. Há o Tempo Preguiçoso. O Tempo Maratonista. O Tempo Indiferente.
E o pior de todos – o Tempo S√°dico.

Inventava e recriava com uma
facilidade impressionante em situa√ß√Ķes de ansiedade ou de temor. N√£o que
tivesse algum valor as tais inven√ß√Ķes ou recria√ß√Ķes. Era um estilo de defesa. E
desta vez usava para suportar a espera da viagem com toda a fleuma possível. Fingia-se
de desentendida consigo mesma. Eis uma guerra que tentava vencer batalha a
batalha. Nem deixava a memória se espalhar. Ficasse pensando o quanto teria de
prazer quando l√° chegasse diante do mar ¬Ė entraria em estado let√°rgico. E a
rotina dela exigia concentração. Só nas idas e vindas é que inventava as tais
terminologias. Sobre trilhos e sob temporal.

E assim apontava uma despreocupação
com o Tempo. Talvez uma vingancinha no estilo esquizofrênico. Vá lá que fosse. Mas
persistia. Cada um sabe por onde ¬Ė e como ¬Ė se defende.

A parte do batismo do Tempo foi
numa manh√£ de afli√ß√£o. Em meio ao percurso os trilhos pareceram segurar os vag√Ķes.
E tudo parou. Nomeou de Tempo Torturador. O relógio não se fazia solidário e o
risco do problema técnico aumentava a tensão de quem ficara retido dentro das
portas lacradas. E l√° estava ela. Fisicamente lacrada – mas ainda bem –
mentalmente dispersa. Ainda bem. Decidiu que pensar em nomear o Tempo podia
acalmar. E entre a Gram√°tica e a pris√£o met√°lica ¬Ė ficou confundindo o Tempo.

Quando finalmente foi liberada dos
tais trilhos naquela manhã Рtodo um novo roteiro Linguístico havia sido
criado. Descobriu aliviada que não há medo ou solidão que vença o poder da
imagina√ß√£o. Eis o Tempo Privatizado. Deve ter sido a √ļnica que desceu sorrindo
quando as portas foram abertas e o aprisionamento desfeito.

Enfim. Nada a fazer.  E muito a fazer. Eis a ambiguidades do tempo
de espera. Se fosse imediato Рa liberdade seria lida de forma até precária.
Vai l√° saber.

Optou por prosseguir com o cotidiano
de forma ass√©ptica. Sem permitir muitos del√≠rios. Se tudo j√° estava acertado ¬Ė
agora era apenas o caso de aguardar. Esta decis√£o surgiu enquanto caminhava de
volta. J√° se despira dos trilhos. Agora descia caminhando por uma pequena
ladeira no sentido de casa. Com as nuvens escuras sombreando os prédios
coloridos.

Simples. Concluiu enquanto descia
mais pulando do que andando.

Mas
era a fase de muito pensar. E um pensamento sempre arrasta outro. Sem d√ļvida. Este
também tinha um nome e sobrenome. Pensamento Encobridor. E era o que mais tinha
como alternativa para n√£o se angustiar muito. Evitava contar as tais seis
semanas que a separavam do prazer garantido.

E
a palavra ¬Ė simples ¬Ė veio em aux√≠lio do prop√≥sito. A palavra ¬Ė simples ¬Ė
remeteu a um amigo antigo. Nunca mais o vira. Uma noite ele brigara com ela e
se despedira. Foi objetivo. Você simplifica tudo. E simplificar nada tem que
ver com a realidade da Vida. Não combinamos. A princípio acreditou ser uma
observação filosófica. Depois viu que era verdadeira e material. Ele disse adeus.
Ela disse ¬Ė que seja. E nunca mais se viram. Lembrava que ele era muito tenso. Fumava.
Reclamava tanto do tr√Ęnsito que um dia deixou de dirigir. Contratou um servi√ßo
de taxi para atendê-lo a qualquer hora e em qualquer dia. Quando o taxi
demorava ¬Ė ele se irritava. Riu. Ele tinha raz√£o – n√£o parecia t√£o simples.

Enfim.
Retomou de onde parou. Simples ou n√£o ¬Ė era o que tinha a fazer. Aguardar.

Quando
entrou em casa o telefone tocou. Era a amiga de l√°. Queria saber se ela
gostaria de passar o Ano Novo l√°. Viajaria para o velho e bom continente e o apartamento
estaria à disposição deles. Ficaria feliz se aceitassem.

Deve
ter feito um instante de silêncio. Deveria agora ser o Tempo Iluminador. Em toda
esta etapa de decisão e passagens Рesquecera de contatar os hotéis. Mesmo com
uma dist√Ęncia de seis semanas – na √©poca que iriam seria bem complicado
hospedagem.

Ela
continuou falando de l√° ¬Ė j√° que n√£o tinha resposta de c√°. Ofereceu. Confirmou.
Avisou das facilidades. Convidou a todos que estivessem com ela. Espaço não faltava.
E ficariam tranquilos quanto à locomoção. O carro também ficaria à disposição
deles.

Desta
vez foi um Tempo Santo.

Só
n√£o se beliscou porque odiava sentir dor. Mas custou a crer que tudo estivesse
t√£o bem selecionado. Como se um destino uma vez estabelecido ¬Ė o resto funcionasse
sozinho. Independente. Destino com piloto autom√°tico. Parecia coisa de novela. De
opereta. De ¬Ė sabia mais l√° o que. Mas era uma m√°gica favor√°vel.

Ela
de c√° – aceitou. Agradeceu. Adorou.

Ela
de l√° respondeu ¬Ė √≥timo.  Estamos combinadas.
N√£o nos encontraremos fisicamente. Quando voc√™s chegarem ¬Ė eu j√° fui. Quando eu
voltar ¬Ė voc√™s j√° foram. Mas estaremos presentes de uma outra forma..E fico
muito feliz por recebê-los em casa.

Desligou.
Parecia a manhã que conseguira as passagens. Só que desta vez estava sozinha em
casa. Caminhou para todos os lados. Sorrindo. E com uma m√£o apertando a outra. Desta
vez não foi o habitual auto abraço. Desta vez se deu as mãos. Estava se
sentindo acolhida. Esta era a sensação mais forte. Acolhida.

Telefonou
para eles e contou. Riram. Concordaram com a sensação de acolhimento dela. Do mais
m√≠stico deles ao mais pragm√°tico ¬Ė acharam uma comunh√£o de coincid√™ncias. E ratificaram
a positividade da escolha. Entenderam como o momento certo no Lugar certo. Perfeito.

Ainda
caminhando e organizando a rotina para o dia seguinte ¬Ė fez mais uma nomea√ß√£o. A
do nome e sobrenome. Desta vez riu leve e sentou-se no sof√° da sala. Soltou as
m√£os e os ombros relaxaram simult√Ęneos.

Era
um Tempo Altruísta.


Advertisements

Coqueiros à vista

Quando todos combinaram ir para l√° para o
Ano Novo ¬Ė apenas escutou. Desta vez n√£o iria. Quest√Ķes de ordem pr√°tica e
funcional. Assim explicou.

A reclamação foi ampla e geral. Todos se
amotinaram. Como assim n√£o iria. Todos estariam l√°. E justo ela que amava a
festa e forma de festejo dos de lá. Ela estaria lá também. A amiga d’além mar.
Viria para o Natal e depois todos viajariam para a cidade de origem ¬Ė onde dizem
até que é doce morrer no mar. Ou cantada em versos lentos a beleza de passar
uma tarde ao som do mar. Insistiram. Mas ela confirmava. Desta vez n√£o irei.

Estava firme na decisão. De inicio até optou
pelos opostos. Iria para o Sul. Todos se espantaram mais uma vez ¬Ė mas ajudaram.
Se era o que desejava ¬Ė que assim fosse. Indicaram ag√™ncias confi√°veis. Ela telefonou.
Explicou. Sugeriu. Avisou. E de consulta a agente de viagem a consulta a agente
de viagem ¬Ė o Sul ficou rapidamente para tr√°s.

Concluiu carregada de nova suposta
sabedoria. Ficarei em casa. Aqui mesmo onde moro.  Ou quem sabe em algum restaurante de hotel. Vou
me cercar de urbanidade. Gosto do que √© concreto. E deu o assunto ¬Ė por encerrado.

Descobriu que h√° nada melhor do que uma
manh√£ chuvosa de domingo cercada pela referida urbanidade ¬Ė para que uma
decisão se faça totalmente desperdiçada.

Acordou e viu nuvens. Muitas nuvens. O céu acinzentado
sugeria que o dia já estava avançado. Confirmou a hora com o relógio. Nada. Era
meio de uma manhã de domingo. O dia mal começara e as nuvens já quase o davam
por finalizado. Uma chuva forte complementava a paisagem.

A cortina natural que oscilava entre o
branco e o cinza Рa fez virar-se para ele de um golpe só.

Ele ¬Ė calmo lia as noticias do dia. Recostado
na poltrona digitava as p√°ginas dos jornais e escutava m√ļsica. Uma tranquilidade
serena ¬Ė para ser bem enf√°tica. O dia parecia seguir uma rotina sem maiores
novidades. A chuva se servia do terraço como posseira. O barulhinho das gotas
volumosas no vidro da escada fazia um eco com a sala. E parecia só aumentar. Uma
m√ļsica invasiva desafinada que n√£o atendia a controles remotos. Ela se aproximou
da porta da varanda. Olhou a chuva. Ficou um pouco na pontinha dos pés para ver
algo mais adiante. Olhou o céu. A rua deserta. Os prédios mais distantes
ficaram com os contornos apagados. Tudo parecia uma massa só. E um ventinho
mais frio entrou pelas frestas das portas e janelas que a fez sentir um s√ļbito
arrepio. Abra√ßou a si mesma ¬Ė percorrendo os bra√ßos dos ombros at√© os dedos e
refazendo o trajeto no corpo. Talvez em busca de algum calor mais externo do
que interno.

Quem a visse e a conhecesse saberia que
algo mudara. Cada vez que surgia este auto-abra√ßo – podia-se assim denominar ¬Ė
uma mudança interna se operava. E muito mais intensa do que quando apertava
apenas uma m√£o contra a outra. Mas enfim. N√£o estava sob an√°lise – fez o gestual.
E deve ter se compreendido. Ou incompreendido. Vai l√° saber as leituras que um
domingo de chuva possibilita.

Foi assim que a cortina natural que oscilava
entre o branco e o cinza Рa fez virar-se para ele de um golpe só.

Caminhou até ele sem formalidades ou pisar
sorrateiro. Olhou para a varanda mais uma vez e virou-se para dentro da sala. De
costas para a chuva. Sob o barulho das gotas volumosas no vidro da escada. De pé
– falou em alto e claro som. Teria que vencer o tal barulho do vidro da escada.
N√£o queria equ√≠vocos ¬Ė desta vez. J√° bastava o inicial da decis√£o entre o Sul e
o urbano.  N√£o que desgostasse de um ou
de outro. Mas era ver√£o. Festas de final de ano. Era sobre o mar de l√° que
falavam. E todos estariam l√°.

Com o uso pleno e resgatado – na √≠ntegra –
do sotaque do destino a ser solicitado falou objetiva. Fina como um estilete cortou
o barulho na escada e a chuva com a frase Рtodos vão para lá menos nós dois. Gostaria
de ir. Muito. √Č onde quero mudar o Ano.

Habituado ao estilo dela ¬Ė ele riu. S√≥ questionou
superficialmente o por quê de não ter falado antes. Mas não aguardou a
resposta. Não considerou mais necessário. E os dedos já trocaram notícias por
companhias aéreas.

Ela aguardou. Silenciosa. Ia e vinha de
sala a quarto. De varanda a cozinha. De livros a filmes. A exposição máxima da
ansiedade quase pueril. Temeu por n√£o conseguir. Estava j√° em cima da alta
temporada. Deixou que ele resolvesse. E cuidou de se acalmar olhando a chuva. Mas
só piorava. Alinhou e realinhou até os enfeites da mesinha de centro. Mais um
pouco e teria pintado a sala. Ou escovado os tapetes.   

Riu quando ele ergueu os olhos da tela para
ela. Disfar√ßou um desinteresse. Um tanto faz. Uma precau√ß√£o ¬Ė talvez.

Ele rindo confirmou – fica tranquila. J√° temos
nossas passagens. Vamos logo depois do Natal.

Ficou feliz. Exultante talvez fosse o termo
mais coerente com a express√£o dela. Deu pulinhos. Beijinhos. Organizou hor√°rios.
Reviu a agenda profissional. Fez e refez o calend√°rio muito mais vezes do que
deve ter feito o gregoriano criador da divis√£o dos meses e ano.

Telefonou para todos. Avisou que também
iriam. Que j√° estava com passagens compradas e datas fixadas. Tudo resolvido. Comemoraram.
Avisaram imediatamente à amiga d’além mar que de lá riu numa surpresa não muito
convincente. Conhecia bem o funcionamento dela. N√£o negava que se surpreendera apenas
pela demora na retirada de uma decisão e na tomada da outra. Até brincou. Deve ser
o resultado dos anos passando.

 S√≥ conseguiu
dormir muito tarde. A emoção estava maior que a razão. Desconsiderou a rígida hora
de despertar Рna manhã da segunda. Quando por fim o cansaço venceu Рdormiu e
sonhou com o mar. Com a areia. Com o sol quente na pele. Com letras de m√ļsica. Com
o dourado das comidas. Sonolenta Рafastou na madrugada lençóis e edredons. Jurou
sentir o calor de um vento morno com cheiro de maresia durante a noite ¬Ė mesmo com
a insistência da chuva ainda batendo no vidro da escada.

Acordou com o toque do despertador. Chovia.
Estava escuro.  Foi logo refazendo a v√©spera.
Estava tudo correto. N√£o fora um sonho. Iria logo depois do Natal. Desceu as
escadas cantarolando sobre coqueiros e pescadores ¬Ė e seguiu o ritmo habitual.

Ainda
faltavam seis semanas.


Tempo & Contratempo


J√°
estava ficando até interessante. Não sabia se este era um termo pertinente. Mas
não encontrava outro por absoluta falta de raciocínio. Estava em Estado de
Abstraída. Vai lá saber se existe este recém criado estado Рmas estava se
sentindo assim.

Tudo
começou quando recebeu um recadinho dele Рassista ao vídeo da Mensagem de
Natal da Empresa.

Ele
criara o estilo. O texto. Escolhera a m√ļsica. A sequ√™ncia. Os escritores. Uma
homenagem a quem se dedica ao ato da escrita. A lembrança dos caminhos que
constroem a imortalidade. Quando ele explicou de forma sint√©tica ¬Ė ela entendeu
de forma anal√≠tica. Quando ele explicou de forma anal√≠tica ¬Ė ela entendeu de
forma sintética. Riram.

Voltou
para casa ¬Ė foi imediatamente assistir ao v√≠deo. Deixou bolsas e chaves em
qualquer lugar e se preparou para opinar. Assim pensou. Como s√£o perversos os
pensamentos desobrigados de convic√ß√£o. Sentadinha ¬Ė como quem assiste a um
v√≠deo sem maiores euforias ou menores obst√°culos ¬Ė recostou-se no sof√° da sala.
Com a simplicidade exata que o ato em si requer e permite. E com a frívola curiosidade
que o domínio do controle sequer questiona. Percorreu os caminhos indicados e
com o cansa√ßo do dia se fazendo vencedor ¬Ė colocou uma almofadinha nas costas para
aguardar o início.

Quando
a tela abriu – achou maravilhoso. Narcisicamente inflou-se de orgulho dele.- e
por ele.

O
cansaço de vencedor passou a perdedor. A almofada foi a primeira a ser
dispensada. Levantou-se reta ¬Ė quase como diante de um hino. Ou diante de um
chamado interior. Este sim ¬Ė muito mais forte do que um hino. Recordou uma frase
da avó de uma amiga. Se a captura não for mais interna do que externa não há
emoção, menina, se a captura não for mais interna do que externa não há emoção.
Procedia.  Quando esta ordem √© invertida
¬Ė √© tarefa ou instinto.

O
v√≠deo compunha-se de m√ļsica e imagens. E um texto percorria as imagens ao som
da m√ļsica. A escolha fora perfeita. A letra falava da falta absoluta de arrependimento
diante do bem feito ou mal feito na Vida. A voz dela ¬Ė como um pardal – ia al√©m
dos decibéis ou da afinação correta. Era a voz de quem sabe o que canta muito
mais do que por que canta. E era envolto pelas belas frases do texto que ele
criara ¬Ė uma celebra√ß√£o √† comunica√ß√£o escrita que dispensa e anula a v√£
temporalidade. Eis por onde se delineava a Imortalidade.

Chorou.
A emoção foi maior do que a compreensão. Não entendia com racionalização o
motivo das l√°grimas. Mesmo que tantas vezes tivesse repetido que l√°grimas e
motivos fogem a qualquer coer√™ncia. E finalizasse esta frase sempre com um –
ainda bem. Desta vez se interessou por um motivo. Uma causa. Uma conseq√ľ√™ncia.
Um intermezzo. 

Nada.

Escutou
repetidas vezes. Chorou na mesma propor√ß√£o. A cada vez que assistia ¬Ė chorava.
N√£o um pranto. Mas um lacrimejar fino – espont√Ęneo. Mais invasor do que
dominador.

O
Natal passou mais esta vez. Os festejos se encerraram. Aromas e sabores restantes
ensacados e congelados. Enfeites retirados e enviados para o local de sempre. Papéis
e laços de presentes amontoados e dispensados. A casa voltou à decoração
cotidiana. Pouco depois os que vieram ¬Ė voltaram. Os que ficaram ¬Ė retomaram a
rotina. Novos arquivos empurraram para tr√°s a Mensagem de Natal da Empresa.

Num
momento de rara desocupação resolveu ver os arquivos do computador. Faria uma
espécie de faxina. Ao menos esta era a intenção consciente. Foi aí que apertou
uma tecla e surgiu l√° o caminho de acesso virtual ¬Ė ao tal v√≠deo.

Arriscou.
Vou assistir. Está tudo calmo e ordenado. Os pensamentos alinhados. A emoção
navegando em águas doces. Vai ver fora o período. Ninguém passa incólume aos
apelos da confraterniza√ß√£o. Era uma explica√ß√£o – sen√£o objetiva ¬Ė l√≥gica. Ou o
contr√°rio.

Desta
vez riu de si própria. Nada de cura. As lágrimas vieram desde a primeira
imagem. Desde o primeiro acorde. E antes do canto começar.

Sentiu
uma necessidade exagerada de compreender. Precisava saber o por quê. Entendia a
letra da m√ļsica ¬Ė mesmo que o idioma fosse alheio. Reconhecia as imagens.
Deteve-se no tal texto. Vai ver a resposta do mistério estava na leitura Рe
não na audição. Releu com calma toda a mensagem. Repetiu. Claro que com uma mão
nas teclas e outra no rosto. Uma secava e outra apontava. Uma dança de mãos em
meio a uma outra dan√ßa ¬Ė qual uma sombra chinesa. Sabia que estava ali. Mas n√£o
conseguia ver a realidade. Sentia o que se passava ¬Ė mas n√£o conseguia
contornar ou preencher o contorno.

Assim
devem ser as des-orienta√ß√Ķes do inconsciente.

Telefonou
para ele e contou. Até hoje choro com aquele vídeo e tanto tempo já se passou.
Sei bem que só se chora pelas faltas despertadas em si mesmo. Tudo isso é
óbvio. Nada de novo sob o céu. Mas a que falta remetia a choradeira diante do
v√≠deo ¬Ė eis a quest√£o filos√≥fica particular do momento. At√© o ingl√™s surgiu
como poss√≠vel ajudante. Entre o ser e o n√£o ser ¬Ė sempre repousa qualquer obscura
quest√£o.

Ele
riu. Comentou sobre a reação analítica e a sintética. Sobre as trocas e os
opostos. Sobre os muitos tempos que se misturam quando – uma m√ļsica ou um texto
Рcolocam as lembranças e a memória em Estado de Presença.

E
entre o conflito do Ser ou N√£o Ser ¬Ė optou decididamente pelo Ter.

Sem
quest√£o. Tinha o absoluto direito de chorar e se descabelar diante do tal
vídeo. Quando quisesse se emocionar Рou discutir os contrários e os mistérios
consigo mesma ¬Ė tocaria na seta de iniciar. E que a mem√≥ria ou a lembran√ßa
fizessem a parte delas. Por certo uma impede o que a outra n√£o suporta
enfrentar. Mais ou menos assim.

No
final de tanto pensar e pesquisar a conclus√£o veio mais f√°cil. √Č assim que a
Vida se faz demonstrativa. Muito mais pelo nada saber do que pelo saber. Muito
mais ainda pelo esquecer do que pelo lembrar. Ou pelo excesso de mistérios em
rela√ß√£o √† escassez de solu√ß√Ķes. S√≥ o Tempo se diverte ¬Ė sem marcas. Eis a Vida.

Despediu-se
da fase inicial de abstraída. Com tranquilidade assistiu mais uma vez o vídeo.

Secou as
l√°grimas e deu continuidade ao dia. 


Nas intermitências…

Enfim vencera mais uma etapa. Ali√°s – mais
parecia uma corrida de obst√°culos. Planejava. Planejava. Planejava. Desistia.
Nem fazia rima ¬Ė mas j√° parecia uma poesia. N√£o saia do papel. N√£o progredia.
N√£o podia negar que em parte – ou melhor 
dizendo no todo ¬Ė ela mesma recorria ao tal obst√°culo. E desistia.
Ficara mais temerosa com o passar dos anos. 
Arriscava ¬Ė mas com um controle. Vai ver os acontecimentos se somaram e
deram em novas divis√Ķes posturais. Dizem os que fazem aqueles estudos que o
significado desta atitude chama-se maturidade. Vai l√° saber. Os estudos se
multiplicam e diminuem as conclus√Ķes. Qual uma matem√°tica. E justo ela que
sempre detestara n√ļmeros ¬Ė agora se cercava deles e das tais opera√ß√Ķes. Enfim.

H√° sempre uma manh√£. H√° sempre um despertar
criativo. Muito mais do que a ignor√Ęncia √© o efeito impulsionador da criatividade.
No momento criativo a coragem se faz c√ļmplice ¬Ėdesconsidera os fatores
negativos ou os racionais agudos. E assim aconteceu.

Acordou mais cedo do que o desejado para um
sábado Foi logo avisando a ele. Vou querer. Desta vez é uma decisão sem volta.
Vamos escolher. Mas já sei também o que me fará confortável. Digamos que um
objeto de desejo me convocou. Riu. Riram.

No primeiro dia que sentou na dire√ß√£o ¬Ė
sorriu como criança. Há muito não trocava o carro. Já até esquecera o prazer
l√ļdico que uma compra assim provoca ¬Ė no corpo e na emo√ß√£o. O carro era lindo.
Ao menos assim considerou. Todos os acessórios se fizeram presentes. Sobrava
espa√ßo. Sobrava qualidade. Sobrava seguran√ßa. Esbanjava eleg√Ęncia. Adorou.

Se houve um tempo de indecis√£o e temor ¬Ė j√°
fora apagado da lembrança dela. Agora tão logo diante de um fragmento de Tempo
dispon√≠vel ¬Ė e l√° se ia carro adentro rua a fora. Todos os dias ela organizava
uma tarefa externa. Nem parecia a mesma de sempre que chegava da atividade
profissional e ficava em casa. Nem pensar ¬Ė falava de si para si. Vamos
passear.

E nesta noite surgira um programa especial.
Qual um presente divino. Numa √ļnica sess√£o e num √ļnico lugar. E quase ao lado
da casa dela. Falariam do escritor preferido dela.  J√° n√£o fazia ele mais parte presencial ¬Ė mas fazia
parte histórica pelos símbolos e pensamentos que deixara em livros e
entrevistas. Seria uma homenagem póstuma. Fragmentos dos textos seriam lidos. Até
o compositor famoso leria também alguns trechos. Conseguira o ingresso por sorte
e perseverança. Mas não nesta ordem. Perfeito.

 Combinaram
se encontrar j√° no local do evento. Ela iria depois da atividade. Ele iria
depois da atividade. E lá se encontrariam para esse prêmio auditivo e visual.

Chegou mais cedo. A fila para estacionar
estava longa. Muito longa. Bendisse o adiantamento que escolhera. Afinal ¬Ė por
mais que demorasse estava garantida quanto ao hor√°rio. E l√° ficou na fila. Com
o tempo diante da espera obrigat√≥ria ¬Ė descobria os itens do carro novo que
ainda não tivera oportunidade de investigar. Investigou. Confirmou. Até se surpreendeu
com uma ou outra possibilidade oferecida. A cada descoberta ¬Ė um ar de festa. A
m√ļsica era a adequada √† ocasi√£o e situa√ß√£o. Cantarolou.

Estava se sentindo dona de tantos bens ¬Ė que
se balançava vez ou outra para se identificar como possuidora Рnão posseira.
Pode parecer semelhante ¬Ė mas tem l√° suas diferen√ßas bem pragm√°ticas. Era a
feliz propriet√°ria. Esta nomea√ß√£o com direito ao adjetivo a fez rir ¬Ė mas com
descrição. Nada de sugerir que estava fora de si. Ao contrário. Estava se
sentindo extremamente l√ļcida e confort√°vel dentro de si ¬Ė e dentro do carro
novo. Qual uma simbiose. Uma graça.

Enfim chegou a vez dela estacionar. Desceu
uma pequena rampa. Indicaram uma vaga disponível mais para diante. E lá se foi.
Algu√©m avisou ¬Ė uma vaga excelente e de f√°cil manobra. Escutou e seguiu. A
m√ļsica ainda tocava com os decib√©is convenientes  a quem est√° s√≥. Sem incomodar ao vizinho de
assento ¬Ė diga-se assim.

Olhou. Delimitou. Manobrou.

Não sabia de onde havia saído aquela coluna.
N√£o poderia ter sido dali. Mas fora. Com o adiantamento da coluna at√© ele ¬Ė o
carro – este ficou indefeso. E a metade do outro lado fez um rangido alto diante
do ferimento severo. Por um segundo lembrou de um termo diagnóstico. Lácero
contuso. Procedia.

Parou. Desceu. Verificou.  Fora um ferimento l√°cero contuso que se
estendeu do início ao término do que se denomina lateral. As portas. As duas. A
pobre tampinha da gasolina foi parar deitadinha no ch√£o. Humilhada e sem
função. Identificou-se a ela. Assim se sentia.

Uma senhora passou e comentou. Que
lament√°vel ¬Ė um carro novinho. Um senhor arriscou ¬Ė n√£o entendo como n√£o notou
a coluna pintada de amarelo. Neste momento lhe ocorreu um outro termo diagnóstico
– ferimento profundo com objeto pontiagudo.

Nada respondeu. Nada compartilhou.

Foi até o local onde a tampinha da gasolina
estava e a recolheu. Colocou-a com delicadeza no banco do carro. Finalmente
estacionou. Subiu. N√£o p√īde deixar de se auto-analisar. Sa√≠ra de casa com uma
intenção. Estragara o carro por falta de atenção. Subia agora para assistir a
homenagem ao autor preferido ¬Ė com amb√≠gua emo√ß√£o.

Ele j√° a encontrou na entrada de acesso ao
Teatro. Conhecedor das express√Ķes faciais dela foi logo afirmando – conta o que
aconteceu. Ela at√© se assustou. Achou que estava bem disfar√ßada ¬Ė que engano.  

Contou em r√°pidas pinceladas ¬Ė e este termo
a incomodou. Tanto o r√°pidas quanto as pinceladas. Ele a acalmou. Confirmou as
medidas cabíveis. Outro termo que a incomodou. Cabíveis e não cabíveis seriam
de agora em diante palavras banidas do vocabul√°rio dela ¬Ė pensou.

Mas quando o cen√°rio deflagrou a homenagem
da noite ¬Ė o carro ficou para um pouco depois. A escuta dos textos apagou a
escuta do som do tal rangido na coluna. Serviu-se das letras muito mais do que
das cores. Compreendeu as raz√Ķes muito mais do que as contradi√ß√Ķes. A cada
frase ¬Ė a emo√ß√£o ia retomando a lucidez ¬Ė diga-se assim.

E o que era um ferimento num metal ¬Ė foi substitu√≠do
por um carinho na emoção.

Quando sa√≠ram ¬Ė ratificaram o ocorrido. Ele
avisou ¬Ė em dois dias estar√° resolvido. Acontece ¬Ė foi uma adapta√ß√£o. Por certo
n√£o mais se repetir√°. Deu um beijo nele. Ela ainda pensou num assomo de
quietude. Se era para ser ¬Ė que bom que foi numa noite como esta. Os valores
muitas vezes precisam ser marcados como cicatriz ou tatuagem ¬Ė no c√©rebro. E
n√£o numa placa de funilaria. Riu com alguma sobriedade. Voltaram para casa j√°
com uma parte resolvida. E outra acrescida



 

A Palavra é…

A chegada dela foi uma festa só. Uma
alegria que dava para sentir na atmosfera. As condi√ß√Ķes de press√£o e umidade devem
ter se modificado quando o avi√£o aterrissou.

Desta vez eram sete. Sete em subdivis√Ķes.
Uma parte a esperava no sagu√£o do aeroporto. Outra parte a aguardava na sala de
casa. Uma equipe cuidava da arrumação. Outra da degustação. Ao calor do forno
ligado se somava o calor da espera da chegada.

Quando ela entrou em casa ¬Ė j√° se tornaram
oito a falar e rir. Sacolas pareciam levitar de um lado para o outro. Valises
eram abertas e acomodadas em sof√°s e cadeiras. Presentinhos surgiam como se uma
magia fosse. Pequenas transgress√Ķes gustativas se acomodaram tranquilas nas
prateleiras da geladeira. O bacalhau de congelado quase se fez de vivo. A
cozinha toda enfeitada estava digna de um banquete grego.

Parecia a repetição do primeiro imigrante
ao novo mundo. Com a diferença de que não havia lutas precedentes. Só paz e
graças. Um dia especialmente metafórico. Em se sorrindo Рtudo procede.

Passados os primeiros instantes ¬Ė um respirar
mais calmo se fez aparente. Dos oito. Ela conferiu hor√°rio. Local. Regi√£o.
Bairro. Sotaque. Era o que parecia pelo sil√™ncio moment√Ęneo que fez e pelo
olhar apressadinho que percorria de um lado ao outro o ambiente. A diferença de
fuso e de temperatura fazia a cobrança imediata. Entre a neve precoce de lá de
onde sa√≠ra e o calor tropical cotidiano aqui aonde chegara ¬Ė a pele expunha
lacrimosa a própria revolta.

Passados os primeiros e segundos momentos ¬Ė
um terceiro se instalou. Todos sentados em volta do balc√£o da cozinha. Assuntos
pendentes eram recuperados. Temas ausentes eram resgatados.  Risos percorriam bandejas e tacinhas.

Vai l√° saber em que momento entrou a
Gram√°tica porta adentro. Mas entrou e foi servida por todos – e de todos se
servindo. As novas leis da Gramática. As antigas leis da Gramática Рe da Fonética.
Assim. Um assunto inesperado para a ocasi√£o. Mas deve ser assim na troca de
fuso e de cidade.

E l√° se foram os tais fonemas convidados de
√ļltima hora e celebrados como se familiares fossem.

A quest√£o foi o X. A letra X.  Ela avisou ¬Ė de acordo com as letras vizinhas
da tal letra a sonoridade se modifica. Ela assume o papel de ss ou de qsi.  E ainda pode ser falada como ch. Assim ¬Ė uma
verdadeira aula de interesses m√ļltiplos. 
Informa√ß√£o a n√≠vel elevado ¬Ė de ordem cient√≠fica cultural. E prosseguiu acrescentando
uma den√ļncia ¬Ė publicamente. Voc√™ pronuncia errado. Voc√™ diz ¬ďm√°qsimo¬Ē e √©
¬ďm√°ssimo¬Ē.  Sempre cometeu este erro
fonético. Ela até olhou para trás. Quem seria a culpada de tal desmando.

Na virada brusca ¬Ė deu de frente com um
espelho. Quase estranhou a imagem. Era ela. A do espelho. E a da pron√ļncia errada.
Ela mesma.

A cozinha se encheu de letras. Os aromas se
fizeram retic√™ncias.  As tacinhas brindaram
a interrogação. O calor aumentou Рmas a pele desta vez ficou hirta e
absorvida. Talvez um pouco mais de observação e poderia se notar um certo rubor
contornando todo o perfil. Saltava aos olhos ¬Ė podia-se dizer assim.

Surpresa – ela fez uma enquete. Perguntou aos
sete. Reconfirmou. Sim. Sempre pronunciara errado. Que vergonha. E justo ela
que se auto-acrescentava tantos títulos e sabedorias. Viu tudo se perder por um
fonema. Algo inimagin√°vel. De grandes dimens√Ķes. De grande porte. Afinal ¬Ė com
qsi ou ss ¬Ė a palavra se fazia volumosa.

At√© ai tudo bem.  Ao menos era o que parecia. Tudo
perfeitamente bem.

Mas o pior ainda estava por vir. Deu-se
conta de que n√£o sabia mais o que fazer com o X.  E o mundo todo pareceu ser feito com esta
letra. N√£o havia uma s√≥ frase que n√£o fosse requisitado ¬Ė o X.

Havia as intoxica√ß√Ķes. Os axiomas. Os
exageros. As execu√ß√Ķes. Os ex√≠lios. As exig√™ncias. Os exames. As exiguidades. O
reflexo. Até palavras mais sofisticadas se apresentaram. A taxidermia. A
taxação. Quase faltou o oxigênio. Descobriu alarmada que no mundo somente o X
trabalhava. E ela assim ¬Ė sem saber pronunciar. Uma letra de tamanha
import√Ęncia tratada de qualquer jeito. Como se nada fosse.  Teria que resolver todo o futuro. O dito e o
feito j√° n√£o se podia mais consertar. O presente acendera um alerta vermelho.
Agora era cuidar do futuro para que novos erros e descasos n√£o fossem
cometidos. Ou ao menos fossem mais comedidos. Marcou um X na resposta certa ¬Ė
aten√ß√£o com o que fala. 

Virou-se de volta ainda segurando a
tacinha. Sorriu. E ergueu um brinde. Vocês são o mássssimo. Assim. Com logo quatro
esses para evitar confusão. Ou repetição do erro. E concluiu. De agora em
diante s√≥ os excessos. E com pron√ļncia correta.

Eis uma noite rica e enriquecedora. Jamais esquecerei
o aprendizado. E como dizia a av√≥ de uma amiga ¬Ė a palavra como a Vida tem que
ser bem falada menina, a palavra como a Vida tem que ser bem falada. Pela primeira
vez entendi o que a avó da amiga falava.

E por ai foi. Repetiu que agradecia o que a
amiga recém chegada ensinava. Até pensou rapidamente todo o poder filosófico de
um X. Mas também rapidamente interrompeu a sequência do tal pensamento.

E com um sorriso exposto – ergueu um brinde
a todos e ao Espaço. Em alto e bom som acrescentou uma fala ao gestual: estarmos
todos juntos mais uma vez – n√£o √© o ¬ďm√°qsimo¬Ē? 


Parlez-moi de…

Decidiu retomar de onde parara. Acordou um
dia e avisou a si mesma ¬Ė vou resgatar o Franc√™s. Riu. At√© parecia frase de filme
de conspira√ß√£o. E vai ver era. N√£o o filme ¬Ė mas a conspira√ß√£o.

Levantou ¬Ė procurou as informa√ß√Ķes. Telefonou
para ela. Confirmou. Agendou. Certo. Na quarta final da tarde vamos reiniciar em
estilo conversação. Perfeito. Já se sentia uma estudante de pós-graduação de
uma daquelas Universidades sofisticadas.

Mas partiu para preservar a parte um da realidade imut√°vel – e foi
cumprir a rotina habitual. Desta vez mais ansiosa. Na volta faria algo
diferente. Falaria um idioma diferente. Quem sabe era um sinal de mudança próxima.
Vai ver o inconsciente avisava alguma viagem que ainda n√£o se dera por
consciente.

E entre sinais e rotina ¬Ė estava de volta
em casa. Ainda sobrava um tempo para organizar a mesa da sala para receber a
professora do idioma distante. Separou canetinhas e caderninhos. Até um livro
antigo saiu da prateleira da estante e foi ficar parceiro do tal caderninho. Preparou
um ch√° quentinho para combinar com o proposto. Considerou tudo adequado.

Tinha ele. O cachorrinho. Fosse qual fosse
o idioma ¬Ė ele n√£o se interessava. Tinha os pr√≥prios c√≥digos e os pr√≥prios
leitores de códigos. Compartilhava o que interessava no momento. Assim. Um mundo
regido por regras e vontades especiais. Domesticado só mesmo na ideia Рnos
atos nem tanto. Enfim. Deixou que ele circulasse pela sala.

Chegou o futuro ¬Ė ou melhor – a professora.
Era uma jovem de aspecto mais senhoril. Engordara um pouco mais do que a pele
gostaria. Mas estava bem arrumada e tinha uma express√£o de suavidade e um gestual
de delicadeza.

Sentaram. Começaram a conversa. Erres e
esses foram desencaixotados. Dobras na língua fizeram as vezes de mademoiselle.
Tudo seguindo conforme o programado e esperado ¬Ė pensou entre um erre e um esse
dobrado.  E perfumado pelo doce aroma do
chá nas xícaras brancas com florzinhas cor-de-rosa.

Pensou muito cedo.  Precoce ¬Ė poderia se dizer.

O cachorrinho. Vai l√° saber o motivo ¬Ė
agitou-se. Subiu e desceu do sof√°. Latiu. Pulou. Latiu. Rodopiou. Latiu. De um salto
só foi até a janela e se engalfinhou com a gradinha. Latiu. Voltou. Repetiu tudo
de novo. Latiu. Identificada a causa ¬Ė ocorreu o que sempre ocorre. Surge a conseq√ľ√™ncia.
Um colega da escala zoológica Рmas não de raça se exibia caminhando pela calçada.
E provocava o coitado que – contido por entre grades ¬Ė n√£o oferecia temor. Eis
o resumo do momento tenso.  

Ela se sentiu constrangida. Preocupada. Afinal
a jovem de aspecto senhoril poderia ficar desconfort√°vel com os latidos e pulos
¬Ė e os erres e os esses ficarem num plano secund√°rio. Parecia que ¬Ė de repente
– tudo fugia ao tal proposto.

Levantou-se. Pegou ele ¬Ė o cachorrinho que na
grade se pendurava e latia – pelas costas. Colocou de volta no sof√°. Deu um tapinha
daqueles educativos e ordenou- n√£o saia da√≠. E fica calado. Entendeu bem ¬Ė espero.
Calado e ai.

Foi-se virando já com um dos erres em posição
de dobra quando se assustou. Quase que ela sim que atravessava a grade da
janela com o susto. Diante dela ¬Ė em p√© – estava a jovem de aspecto senhoril. O
dedo erguido. O tom da voz mais erguido ainda. E em bom e acessível idioma
local foi avisando. Est√ļpida. Grosseira. Impaciente. Deveria contratar um
encantador de c√£es j√° que n√£o sabe lidar com o c√£ozinho.

Assim. Em excelente e objetiva linguagem. Sem
necessidade alguma de tradução. Muito menos de caderninhos e canetinhas. Explícito.

Olhou para ela. Confundiu gestos e falas. Caras
e bocas. Torres e arcos. E nada disse. O cachorrinho deitou sossegado. Vai ver
pensou nos riscos internos muito mais imponentes do que os externos. O colega
de escala parecia agora talvez menos interessante. S√°bio.

O tempo de aula foi completado. A jovem de
aspecto senhoril saiu. Ela olhou para a mesa com os caderninhos e canetinhas. Sentou
numa poltroninha. Tentou se localizar e organizar os idiomas vigentes e ausentes
¬Ė e impertinentes.

Acalmada enfim ¬Ė optou por dar por
encerrado o resgate do idioma. Quase riu lembrando o filme de conspiração que
imaginara pela manh√£. Pegadinha do inconsciente ¬Ė concluiu. E de conclus√£o em conclus√£o
¬Ė veio a decis√£o mais recente. E a retomada – desta vez – da parte dois da
realidade mut√°vel.

Arrumou a mesa como habitual. Guardou os caderninhos
e as canetinhas. O livro antigo voltou para a estante. As xícaras brancas de
florzinhas cor-de-rosa foram para o arm√°rio. A noite chegou. E com ela mais uma
decis√£o. Sentou desta vez diante do computador. Mensagem virtual.

Informou com objetiva cordialidade.

Vamos suspender as aulas. Fiquei muito grata pelo seu gentil
conselho Рe obedeci. Consegui contratar um encantador de cães. Ele começará na
segunda feira. Mesmo esta despesa estando fora da previs√£o do or√ßamento ¬Ė
compreendi a necessidade pelo estilo contundente como você apontou. E você nem imagina
o quanto lhe estou agradecida. Minha querida Рpermita-me lhe chamar assim Рvocê
não avalia a sorte que a sua doce sugestão me trouxe. O encantador de cães é um
senhor franc√™s. Franc√™s. Olha s√≥ como voc√™ √© uma pessoa de bons aug√ļrios e
cuidadosa. Agora al√©m de me ensinar a lidar com o cachorrinho ¬Ė ele vai me ensinar
a conversar em franc√™s. Eis a perfei√ß√£o de uma situa√ß√£o que gra√ßas a voc√™ ¬Ė
minha querida ¬Ė ficou duplamente resolvida. Queria saber mais idiomas para me expressar
em todos eles. Mas vou usar o nacional corriqueiro para evitar possíveis equívocos Рadeus.

Clicou na tecla enviar com a pontinha de uma
unha afiada. Desligou o computador. Sorriu. Riu. N√£o dobrou os erres e esses ¬Ė
dobrou a risada. Acariciou o cachorrinho que ao lado parecia também sorrir. Imitou
um latidinho. Ele olhou desconfiado. Conferiu a hora. Ça va bien. Falou alto e ainda
sorrindo. Imaginou o que uma determinada amiga diria quando escutasse este
relato.

Fez um brinde ao encantador pensamento criativo
que tivera ¬Ė isso sim.


Nostalgia

Acordar todos os dias na
mesma prematura hora ¬Ė era um ato que j√° beirava e ultrapassava a cota dela de sobreviv√™ncia
¬Ė h√° muito tempo. Mas respons√°vel aceitava – o que tem que ser feito ¬Ė que
seja. O atendimento era preciso e pontual. Não faltava um só agendado. E se começava
t√£o deliberadamente cedo – se encerrava sempre objetivamente tarde.

Os anos passaram como as p√°ginas
do calend√°rio ¬Ė sem interfer√™ncia da vontade.   

Mas neste dia foi diferente.
O amanhecer se fez diferente. O relógio não despertou. Vai lá saber onde estava
o erro ¬Ė mas n√£o despertou. N√£o fosse uma for√ßa rec√©m conhecida – a For√ßa do
H√°bito – e teria ocorrido um confronto de alto risco entre o hor√°rio e a
rotina. Enfim. J√° se foi pulando cama afora. Escada abaixo. Arm√°rio a dentro.

Nem sabe bem como se vestiu.
Estava tão assustada que conferiu os pés de sapatos já no elevador. Sim. Eram gêmeos
na cor e no estilo. Ainda bem.

Quando pisou na rua ¬Ė olhou
para o c√©u. Nem acreditou. Com toda aquela correria ¬Ė olhou para o c√©u. Mas olhou
como quem olha para um outro céu. Foi o que pareceu Рporque foi em outro céu
que foi parar.

Assim recriou o mar de l√° de
onde viera. H√° muito tempo.

Morava de frente para o mar.
Acordava diante das muitas cores. Escolhia as roupas sob as mil nuances da
água. Azul Рmais próximo. Esverdeada Рmais para longe. Azul escuro Рmais no
horizonte. A luminosidade era tanta que desde cedo Рjá era dia avançado.
Seguia para a atividade profissional margeando ¬Ė ou sendo margeada – por ondas quebrando
na areia. O olhar pulava entre o asfalto – os barcos e as pedras. Abria o vidro
do carro e servia-se do vento morno e do aroma – para aquecer com suavidade os
sentidos.

Assim recordou o mar de l√°
de onde viera. H√° muito tempo.

Subiu a ladeira que ainda se
sentindo nem l√° nem c√°. Tentou fazer contas. Nunca fora boa nisso em outra
situação Рquanto mais diante desta nostalgia aguda que fora acometida de
repente. Mas fez e refez as contas. Muitos anos. Muitos.

Tentou lembrar o cheiro do
mar. Um carro apressado que passou por ela cortou de imediato o aceno para a
Memória. Tentou sentir o calor na pele. O vento frio da esquina por pouco não
levou a pele tremulada. Tentou recompor a imagem dos pontinhos de luz dançando
nas ondinhas. Uma garoa fina a fez cobrir a cabeça.

Assim despediu-se do mar de
l√° de onde viera. H√° muito tempo.

Mas antes de descer as
escadas para o percurso sobre os trilhos ¬Ė parou. Deu uma piscadinha para cima.
Para o céu de cá que estava encoberto. Para as gotinhas finas que caiam sobre o
rosto. Acomodou com delicadeza a bolsa pesada sobre os ombros – e concluiu.

Como eu gostaria de
caminhar na praia – pisar na areia.

Olhou para os sapatos gêmeos na cor e no
estilo ¬Ė merecem descansar um pouco. Riu. Preciso sentir o gosto salgado na
pele depois do mergulho. Preciso renovar ¬Ė para continuar. Preciso de fantasia
para que a realidade se mantenha. Até ousou arriscar se não seria o contrário.
Mas afastou o pensamento controverso. J√° fora muito para uma manh√£ de atraso e
correria. Quase falou isso alto em direção aos sapatos.

Deixou o pedido aos cuidados
do Universo. Correndo ¬Ė desceu para os tais trilhos e seguiu em dire√ß√£o ao j√°
cotidiano ¬Ė h√° muito tempo.

Mas repetiu. Como eu
gostaria de caminhar na praia – pisar na areia.