MOVENDO A IMOBILIDADE

                                                         I

Durante muitos anos levei comigo os móveis que foram de meu inicio de vida como dona de alguma casa. Muitas casas mudaram. Muitos estilos se somaram. Muitas vezes fui apenas meia dona. Outras nem dona nem meia. 

Mas os móveis sempre ali – aguardando sabe-se lá o que. Subiram em transportadoras elegantes. Caminhões sem requintes. Novamente transportadoras elegantes. Novamente caminhões sem requintes.

Em sentindo poético – vez ou outra se espalhavam em espaços amplos. Depois se amontoavam em espaços pequenos. E lá se vinham provocando hematomas em joelhos e pernas. Qual uma vingança material explicitada em roxos e ais diários.

Numa destas – mais uma mudança – eis que todos se foram. Todos. Nada mais restou – além de fotos onde eles se enquadravam como pano de fundo.

Fácil não foi a despedida. Mas se foram de uma vez para nem sei mais onde e desta ultima vez em colos nem tão elegantes e muito menos requintados. Foram levados por quem os quis. Somente isso.

O  motivo foi pragmático como todo motivo que gera despedida.  O que não coube no espaço ainda menor onde teriam a função desnecessária de andaimes – não havia espaço para causar hematomas e em consequência teriam que ser pisados – foi doado.  Evitaria desta forma uma bizarra vingança que doeria mais em quem pisasse do que no objeto de pisada.

E se foram todos. Viraram memória – e como memória pouco eram solicitados pela lembrança. Não há lembrança que não anexe a nostalgia – e a memória serve de defensor. Melhor respeitar.

Eis como num certo dia – assim todos se foram. Os móveis. A demora em concluir o desaparecimento deles deve ter sido equivalente à compreensão de que realmente tudo mudara.

Lá um dia qualquer – numa noite qualquer – compreendi que lugar de Passado é Presente. E sorri tristemente. Como uma daquelas sensações de que o que não muda – também não existe.

Mas não há ciclo que não se repita. Nada é completamente esgotado. No cotidiano de uma Vida inteira não cabe a plaquinha sold out. Há o depósito nomeado de uma forma simples e aceitável que corretamente se traduz como estrutura. Nada mais fiel e leal. Ninguém foge à estrutura. Muito menos a estrutura abandona o portador. Qual um signo de Zodíaco – não se troca. Não se cancela.  Pode-se fazer revisão analítica. Pode-se beber aquelas gotas fitoterápicas ditas eficientes. Pode-se negar. Denegar. O que de mais positivo se consegue é tapar o Sol com uma peneira. Ou como se diz de onde vim – carregar água em cesto. Ditos comuns e repetidos – mas com a força que somente as denúncias possuem.  

Lá está enraizada até o centro da emoção – a Estrutura.

Mas como alertam sábios os estudiosos franceses – só se apreende seja o que for no logo depois. O que esqueceram de alertar foi que muito pior é que o tal depois não é tão logo. Mas que seja assim – coisas do Tempo que em tudo e para tudo rege com absoluta arbitrariedade. E em nada e sobre nada pode haver a interferência mesmo que seja de sábios tão qualificados quanto os franceses. Mas vale como um cupom de refeição – meio alerta é sempre melhor do que nenhum alerta. Há sempre um preço etiquetado e um valor calculado de acordo com a fome.

E a fome sempre chega numa bandeja suavemente levada pela Estrutura.

Eis o alimento.

E pelo preço estipulado. Certo dia me surge um chamado. Os móveis da minha avó seriam possíveis de virem morar comigo. Era simples. Pagando – leva. Regateando – perde. Uma herança com preço e prazo.

Não eram da casa que fui dona – nem meia-dona nem sem-dona. Mas eram da avó. Um mundo também meu – esta uma herança sem preço e sem prazo.

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