ENQUADRANDO METROS

Nao foi fácil.
 
A reforma por minima que foi consumiu, ocupou, empoeirou – desgastou!
O silêncio das palavras foi ocupado pelo barulho diário de um aspirador…. de pó!
 
Nada de intelectualidades ou crises existenciais mal informadas! O trabalho braçal ganhou de longe!
 
A faxineira faltou – desmarcou – remarcou – faltou de novo.
 
Entrava – em casa e no espelho – formando e conformando uma dupla eficaz sem lero-lero nem quero mais. Só fez falta desta vez uma Rainha (benevolente) para gritar cortem-lhe a cabeça!
 
Desconhecia o poder absoluto da força muscular. As Docas passaram a ser uma possibilidade de ganha-pão. Cadeiras foram erguidas. Mesas foram levantadas. Tampo de mármore foi tratado como se de papier marché fosse.
 
Os braços aprendem mais rápido do que a mente ou os olhos e ouvidos. Aprenderam numa certa ocasiao – já até distante – às custas de uma televisão. Olhos, ouvidos e mente até esqueceram. Mas os braços não. Lá se viram dispostos e a postos carregando pesos sem fraquejos.
 
E em meio a toda esta esbornia solitária/compulsiva/obsessiva – havia o social necessário e real: a visita do amigo americano/batizado/Natal/trabalho profissional…sensacional. Era a unica expressão que vinha à mente diante de tanto operacional. Desligava o aspirador – uma renovada rápida na aparência e lá seguia como se recém saída de uma massagem. Fingia muito bem. Aprendera com um russo que preparava atores. Eis o que a mente nao esqueceu. Sensacional.
 
O apartamentinho ficou lindo, branquinho e cheio de luz! O oposto total da conta bancária chafurdando em meio ao feio, vermelho e escuro!
 
Mas Felicidade nada entende de juros ou de negativos. Muito menos de Gerências ou poupanças. Felicidade entende de totalidade. Felicidade entende de inspiração e de expiração. E assim se apoderou da situação. Feliz.
Ao tal sensacional somou uma frase – solidão também é sinônimo de decisão e algumas (bem poucas) vezes de comemoração.
 
Na noite que encerrou a arrumação – desligou pela última vez o aspirador de pó e as palavras invadiram o ambiente felizes e quase tartamudas pelo alvoroço de sairem.
 
Enviou para um amigo um recadinho e acrescentou uma foto. A mesinha que ganhara um novo espaço sustentava duas tacinhas de vinho para expor a si mesmo e ao alter ego – dentro e fora do espelho – em plena satisfação.
 
O amigo nunca respondeu. Concluiu brindando – vai ver nao gosta da safra ou da procedência do vinho compartilhado. Ou é amigo do Rei.
 
Quando as palavras se fartaram dela – foi dormir suave – como devem ser as noites após qualquer que seja a – missão cumprida.
 

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