(DES)FAZENDO TRATOS

IX

 Leticia acordou cedo no domingo. Abriu os olhos – e sentiu como se estivesse dentro de uma aquarela. Parecia um quadro. Um lindo céu azul turquesa enfeitava o vidro da janela. Por uma fresta um ventinho suave provocava uma dança festiva com as folhas verde escuro das plantinhas. Do frágil galhinho – o ramo da orquídea rosa se balançava com cuidado.

Teve até a impressão de sentir o cheiro do mar.

A brisa da manhã sempre a remetia ao lugar de onde viera. Cada vez que abria a janela – lá no apartamento de muitos e muitos metros quadrados – a maresia entrava para anunciar o dia. Era uma forma maravilhosa de acordar – isso era inegável. E nos dias que não trabalhava lá descia de carro para a praia quase em frente onde morava. Eis uma das poucas nostalgias que cultivava – a saudade do mar.

E a esta nostalgia se somava um detalhe em especial – pisar na areia morna remexida do final da tarde. Eis o que denominaria sem nenhum exagero de verdadeira saudade. Saudade do ventinho morno em volta da pele bronzeada pelo dia de sol. Do cheiro do mar mais forte ao final do dia do que no começo da manhã. Da água mais quentinha e mais calma. Da praia sempre vazia neste horário. Da escuta das ondinhas finais quebrando na areia. Do marulhinho que dava prazer aos ouvidos.

Pensou tudo isso enquanto olhava os prédios pela janela do quarto. Até fechou um pouco os olhos para que as imagens se servissem e se constituíssem pelas lembranças impostas.

Ficara ali por um ou dois minutos – mas sentiu como se tivesse viajado. Até deu uma balançadinha na cabeça para se obrigar a retomar a concreta realidade. E retomou.

Mas a sensação ficou. Leticia sempre dizia que a sensação é uma produção interna consistente e contundente que a realidade aponta – mas não a traduz como abstrata. Depois das tantas mudanças e adaptações necessárias às tais tantas mudanças – Leticia aprendera de uma vez por todas que as sensações muito mais ajudam do que maltratam. Apontam para as faltas – mas preenchem a emoção sob a saudade – complementando no tempo presente a experiência do tempo passado.

Voltou para a cama e ficou recostada nas almofadas – abraçada a si mesma – como se assim também abraçasse o mar – a areia – a maresia.

Até riu com ela mesma – deveria ter passado um protetor solar. Riu.

Olhou para os braços. Andavam tão requisitados ultimamente. Passou a mão pela pele – quando lá morava o tom da pele era outro. Nem parecia a mesma. Era bronzeada o ano todo. Nem entendia como a pele não estava sofrida. Acordava em tempos de férias já se arrumando para a praia. E não havia dia de folga ou de final de semana que não começasse pelo quente caminho da areia.

Colocava uma toalha na areia e ali ficava deitada sobre a toalha – entre o que observava e o que pensava.

Quando eles eram crianças – ia com eles. Quando cresceram – ia sozinha. Ele sempre ocupado – acabava por não poder compartilhar. Compreendia. Ia só.

Muitas vozes complementavam o cenário. Crianças davam gritinhos ao fugir das ondas. Pais alertavam sobre os riscos. Homens fortes de corpos seminus queimados pelo sol diário anunciavam cocos verdinhos e pesados de água. Sempre tinha alguém vendendo óleos para o bronzeado perfeito em saquinhos coloridos e pendurados em hastes de madeira.

Vez ou outra cansada do sol entrava na água. Sentia um arrepio delicioso e logo depois já estava mergulhada com a segurança e tranquilidade de quem já conhece – como se em casa estivesse. Os cabelos longos e soltos escorriam felizes e salgados durante toda a manhã.

O cheiro das comidas feitas em barraquinhas na orla se misturava aos muitos aromas que o mar trazia – sabe-se lá de onde. Qual um trançado de aromas – a cidade toda era percorrida por este perfume múltiplo. Em determinadas horas do dia ou da noite – parecia que se estava em meio a um navio. E tudo sempre muito azul.

Mas eis o que se repetiu e veio em auxílio – o pragmatismo.

Leticia se levantou e se desabraçou. Foi falando para si mesma. Pois é – o mar está lá e eu aqui. Bem longe. E mais uma vez parodiou o Álvaro – já fui muito à praia no século passado. Riu. Já estou ate suando. Chega de mar por hoje.

Não iria gastar todo o domingo de sol e céu azul com os braços cruzados e recostada numa almofada – lembrando o mar de lá.

Voltou para a janela. Muitos caminhavam com os cachorros. Outros com sacolinhas da feira ou da Padaria. Havia uma alegria percorrendo as Alamedas. Por certo a desobrigação de horários e trânsito deixava as pessoas mais livres e disponíveis aos próprios comandos e vontades.

Verificou a hora. Voltou para a janela e decidiu – vou almoçar naquele Restaurante que há tempos não vou.

Até pensou em convidar alguns dos amigos – mas desistiu. Deveriam ter já a agenda do domingo preenchida e vinculada a algum compromisso social.

Vou sozinha.

E meio sem querer olhou para o espelho da sala. Lembrou o pensamento que banira da valise carregada com uma mão só – quando viajara para Buenos Aires. Lembrou os braços avisando que eram apenas eles – dois – diante do peso da Televisão nova. Lembrou quando fora ao Hospital com o coração madrugador aos saltos. Mais uma vez sorriu ao lembrar o café derramado – num dia de muito imprevisto – sobre a bata branca.

E de lembrança em lembrança – da decisão ao ato – foi somente uma questão operacional da vaidade.

Sentindo-se bem – desceu para seguir o caminho até o Restaurante.

Estava com muitas mesas ocupadas mas ainda tinha lugares disponíveis. Escolheu uma mesa que se localizava na varanda – próxima à calçada. Uma árvore deixava o lugar bem ventilado e com uma sombra confortável. Uma meia muradinha de concreto deitada sobre colunas finas separava o que era de público do que era de privado. E podia – sentada – colocar o braço sobre a muradinha. Sempre o braço. Mas agora ele teria um privilégio. Adorou isso.

Um garçom muito elegante e sorridente perguntou se seria somente ela. Ao escutar o Sim – retirou os pratos e talheres da cadeira em frente. Trouxe a carta de vinhos e o cardápio. Quando se decidisse pelo pedido – poderia chama-lo.

O ventinho balançou os cabelos. Ainda bem que não fiquei em casa pensando que poderia estar lá – podendo estar tão bem cá. E como se fizesse um trato consigo mesma concluiu – que a Memória traga o passado é maravilhoso. Afinal – é a minha história. Mas que nunca seja a Memória – sob qualquer que seja o viés – impedimento para que a história continue. Trato feito.

Até se acomodou melhor na cadeira.

Na mesa próxima algumas pessoas riam e falavam num tom de voz mais alto. Numa outra um casal em absoluto silêncio observava quem entrava e quem saia. Duas amigas pareciam se amparar uma na outra – mas sem prazer ou compartilhamento. Um outro casal se tocava pelos dedos um em frente ao outro – mas não se olhavam.

Pessoas caminhavam pela calçada e uma ou outra olhava para dentro do Restaurante.

Cores – estilos – aromas davam um nonsense perfeito ao ambiente de dentro e de fora.

Leticia escolheu as bebidas. A comida. Estava assim se servindo de si mesma e do que o elegante e sorridente garçom lhe atendia – quando alguém se aproximou.

Era uma das pessoas da mesa próxima onde todos riam e falavam em tom de voz mais alto. Uma moça muito gentil e sorridente comentou – notamos que você está sozinha – se quiser compartilhar da nossa mesa e nos apresentarmos seria ótimo. Mas fique à vontade para o Sim ou para o Não.

Após um segundo de dúvida – Leticia aceitou. As mesas se uniram. Eram oito pessoas e as idades variavam entre quatro a cinco décadas ou pouco mais. Moravam na região.

Satisfeitas as curiosidades de praxe – local de origem e profissão – a conversa se fez agradável. Quando disse de onde viera – não faltaram elogios e comentários positivos.

Leticia riu com os relatos de indecisão de um deles. Com a mania de perseguição de uma delas. Das cumplicidades de trabalho em três deles. Somente um casal era casado. Riram quando contou sobre os braços. E assim foi. Era apenas um grupo de amigos a sair num domingo de sol. Uma delas era maratonista e um outro ciclista. Riram mais uma vez quando Leticia falou que praticava levantamento de livro e de material de trabalho.

Mas foi elogiada pela coragem de sair e se sentar sozinha num Restaurante. Foi o que chamou a atenção deles – a serena solidão. Parecia uma pessoa de boa energia. Este o motivo de ter sido convidada a partilhar o grupo.

Leticia agradeceu. Falou para um deles – mas todos se viraram para ela. Ficou até ruborizada – o que foi apontado mas não criticado. Numa cidade de vinte milhões de habitantes – toda a solidão é relativa. E completou – há pouco tempo que aprendi que se pode se ficar só em casa – pode-se ficar só em público.

Foi cognominada de Sartra. E os brindes a Sartra se sucederam.

O garçom elegante e sorridente passava por eles e sorria. Leticia percebeu um leve sinal de cumplicidade entre o garçom e um deles. Algumas pulguinhas saltaram do mundo e se encaminharam rápidas para detrás da orelha dela – mas desconsiderou.

Fosse como fosse – se espontâneo ou sugerido pelo Garçom – a tarde estava ótima. Eram pessoas educadas e alegres.

Todos falavam e todos se expunham dentro de uma dose adequada de recato. A tarde chegou sem controle do relógio. Despediram-se com trocas de cartões e telefones – mas sem a obrigatoriedade de um possível reencontro.

Voltou caminhando para casa. No céu surgiam as nuvens e a possibilidade de chuva.

Começara a manhã pela nostalgia do mar. Encerrara a tarde não com a areia morna sob os pés descalços como lembrara com saudade. Mas com risos desconhecidos compartilhados e celebrados e pés bem calçados – mas pisando em terreno aquecido.

De volta em casa foi cuidar da rotina da segunda-feira. Separar as roupas e deixar o café da manhã em ponto de ser consumido. Como ainda era cedo – cuidou um pouco mais das plantinhas.

Colocou uma música – mas não a Casta Diva. Colocou uma música sob o som do Trio Elétrico e seguiu uma outra do Caetano – quase um hino à esquina da cidade escolhida.

Passando pelo espelho da sala – lembrou uma conversinha que tivera com ele quando voltou do Hospital naquela madrugada.

Ao espelho agradeceria. A ele contaria sobre muitos dias e muitas noites.

Agradeceu – e deixou que a Memória fizesse a parte dela.

 

 

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