(DES)CARREGANDO PESO

 

 

Numa noite em que arrumava a estante e bem no estilo impetuoso – Leticia tomou a decisão.

Estava ordenando os muitos livros por título e por autor. Desde que mudara – planejava. Mas neste dia colocou o plano em execução. Tivesse um organograma – agora este item seria riscado. Mas claro que não tinha. Leticia e um organograma eram mais distantes que fantasias e ilusões em pessoas idosas.

O ambiente estava em silêncio. Só o arrastar das capas dos livros nas prateleiras da estante fazia uma musicalidade de arranjo de orquestra. Umas mais fortes. Outras mais fracas – tudo dependia do peso do volume a ser ordenado. E sem analogias – o peso pelo peso.

Nunca fora muito interessada em Televisão – mas neste instante se interessara. Sim. Vai lá saber o porque mas quando colocou um dos livros na prateleira pensou objetivamente – vou comprar uma Televisão. Até foi verificar o título e o autor para ver se justificavam a súbita necessidade – mas nem o título nem o autor continham algo que a tivesse induzido a esta vontade repentina. Enfim. Coisas do inconsciente. Aceitou. E continuou planejando e arrumando os livros. Agora com mais pressa e – portanto – com menos Metodologia. Eis de novo mais um aspecto estrutural da Leticia. A desconcentração imediata.

A cada intenção de decoração – parava com os livros e ia se postar em frente ao suposto local do novo objeto. Já estava com os pensamentos fora da estante.

Mas enfim. Compraria uma nova Televisão com tudo que tinha de atual. E grande. Enorme. Caberia sobre a cômoda e ficaria de frente para a cama. Não. Colocaria pendurada na parede da sala. Seria mais democrático e não ocuparia espaço. Não. Melhor deixar sobre a cômoda – sem pendurar. Evitaria a imobilidade.

Atualmente a Leticia estava com um novo olhar sobre o que não podia ser movido. Desde que destituíra paredes e portas – tudo passara a ter um novo conceito dentro de casa. E dentro dela. Ficara grata à noite de insônia que a fez compreender o que realmente dispensara além de tijolos e madeira. Numa outra noite também de insônia – pensou sobre a retirada das paredes como consequência e não como causa. Naquela noite o sono voltou mais rápido.

Enquanto escolhia com mais pressa a ordem dos livros e já desistindo de continuar com a outra estante – pensou nos filmes. Poderia assistir a todos os filmes que gostava. Tinha uma coleção de filmes antigos que o Luciano lhe dera num aniversário – mas poucos deles ela assistira. Apenas um ou outro num dia que não trabalhou por doença ou folga extra e ficara sozinha. Somente ela gostava dos tais filmes antigos – o que significava que não os assistia. Agora iria por em dia todo o presente. E olhando para as caixinhas dos filmes – sorriu pelo pleonasmo da metáfora.

Lá ficaram os livros do jeito que estavam. Foi cuidar dos filmes.

Organizou as caixinhas. Colocou por ordem de preferência. Separou os fios do aparelho de DVD. Até paninho de limpeza passou nas capas. Um carinho só. Riu de novo. Estava rica em metáforas. Ou as metáforas ricas dela.

Com a divisão de alguns objetos na organização da Transportadora – a Televisão do quarto de cima já fora direto para o lado de caixas do Luciano. Era dele. Podia levar. E ele levou. Ficara para ela uma antiga – mas como não se interessava por Televisão – deu de ombros e deu de presente à mocinha da Portaria do novo prédio.

Como os dias estavam tão cansativos ao retornar do trabalho – cumprimentava plantinhas e elogiava a Fadinha – e dormia cedo. Na maioria das vezes não jantava. Um copo de leite e uma torrada qualquer – e estava encerrado o assunto. Quando agia assim lembrava-se do Álvaro. Quando alguém reclamava e apontava que ele não deveria pular refeição alguma – ele ia saindo e avisando – já comi demais no século passado. Sábio amigo.

Mas o novo horário de sono – este realmente era novo. Em período algum da vida dormira tão cedo. Vai ver que talvez quando criança. E mesmo assim sob o comando da mãe brigando e a obrigando a ir para a cama. Ia zangada e torcendo para que o tempo voasse junto com a infância submissa. Agora estava na contramão do pedido. A infância submissa se fora – e ela ia dormir cedo. Um dia até comentou para um amigo – nem adiantou crescer já que tenho que dormir cedo. Ele riu.

Ao deitar – abria um livro – e durante muitas noites seguintes tinha a sensação de dejà vu. Estava sempre na mesma página. O ritmo profissional era intenso. Somava a mudança e todo o envolvimento emocional que a mudança causara e só restava mesmo ler todas as noites a página número um. Acordava no meio da noite – e lá estava o coitado do autor desprezado num canto da cama sob a luz acesa da mesinha de cabeceira. Ao se olhar via um certo desalinho no estilo de dormir. Mas sem muita perda de tempo – recolhia o livro e já dormia. Parecia que estava recuperando um cansaço ancestral. Quem sabe estava mesmo.

Mesmo possuída pelo tal cansaço ancestral – nunca deixara de organizar a roupa do dia seguinte ou o café da manhã já ficar em ponto de ser aquecido. Havia rotinas e precauções que não poderiam ser descuidadas. E acrescentava uma boa noite para as plantinhas e um pouco de água na terrinha para que a noite delas também fosse confortável.

E – lógico – cuidava de fechar janelas e cortinas. Nada mais de engatinhar. Ou de ficar atrás do balcão temendo tournée de barata. Agora já era a etapa de andar e resolver. Ao menos assim acreditava ou tentava acreditar.

Já estava numa fase que aprendera – nem tudo é matemático e nem tudo é transformado em saber. A parte que sobra de muitas somas sempre se perde num cantinho qualquer do traço. E muito saber fica por aí – sabe-se lá onde – desaproveitado porque não conseguimos alcançar.

Deu por encerradas as tarefas da noite. Com a manhã do amanhã em ordem – dormiu pensando na Televisão nova.

Acordou no horário de sempre – cedo. Mas desta vez nem reclamou com o espelho – a nova compra a deixara mais animada. Organizou todo o apartamentinho antes de sair. Certa da atitude na sequência – deixou um espaço aberto para a Televisão nova. Quem sabe poderiam ter alguma disponível na loja e entregariam no ato da compra.

Já saiu para o trabalho com todo o roteiro feito. Voltou do trabalho direto para o shopping – encontrou a que queria.

Tela enorme. Maior do que os cinquenta metros quadrados. Riu com o vendedor que nada entendeu com este comentário dela meio entre os dentes. E ainda era um daqueles aparelhos novos de terceira dimensão. Tudo de maravilhoso. Deixaria em cima da cômoda. De frente para a cama. E se sentiria dormindo em meio ao mundo real. Riu. De real o mundo tem nada. O vendedor escutou e mais uma vez não entendeu. Mas ciente de que ela estava decidida na compra – dizia sim a tudo. Entender é para quem compra – não para quem vende. O verbo vender dispensa entendimentos. Só lê números. Procede. Cada um com seu quadrado. Riu mas desta vez discreta e consigo mesma. Cansara da expressão de concordância surda do tal vendedor.

Tudo acertado. Dados. Pagamentos. Endereço de entrega. Impossível a entrega ainda hoje. Receberia num prazo de cinco dias úteis – após a finalização da compra. Que deixasse a portaria avisada – ou voltariam com o produto e demoraria mais cinco dias úteis para repetir a entrega.

Pensou – autoritário este vendedor. Nem terminou o pensamento e ele foi avisando – ordens da Empresa – desculpe – mas tenho que seguir e informar.

Que seja feita a santa vontade da Empresa. Agradeceu e saiu.

E cuidou de esperar que a utilidade – dos dias – passasse apressada.

Numa sexta feira – obviamente exausta – chegou de volta em casa. O porteiro sorriu para ela e avisou – tem uma encomenda para a senhora. Está atrás da coluna – é grande e bem pesada.

O grande até ela já concluíra desde a decisão até a finalização do processo. A questão foi o tal – bem pesada.

Mais uma vez os braços avisaram – estava sozinha. Até olhou para eles – os braços – e calculou o valor dos músculos e das articulações. Olhando assim – não pareciam grande coisa. Grande mesmo só a televisão numa imensa caixa bege.

O porteiro olhou para ela – e ela jurava que ele também olhara para os braços dela. Mas devia ser uma impressão fruto de algum Complexo de Inferioridade mal curado. Ela mesma já olhara o suficiente. Mas não pode deixar de perceber que ele estava com um risinho de canto de lábio – quando falou sobre o peso.

Leticia formalizou – eu comprei – eu resolvo. Subirei com a minha Televisão de terceira dimensão. E põe dimensão nisso – outra conclusão invasiva.

Avisou ao porteiro – desço já.

Subiu. Colocou bolsa e material de trabalho na bancada. Organizou mais uma vez o espaço escolhido para colocar a Televisão. Até passou um paninho com o álcool que sobrara da noite da barata. Olhou mais uma vez para os braços – e quase imponente – desceu.

O porteiro ficou observando. Ela deu um abraço na caixa. E respirou fundo. E semi-abraçada a ergueu e a caixa obedeceu. Ficou erguida por entre os braços dela. Quase um momento amoroso. A Leticia caminhou em direção ao elevador. Palavra correta e adequada. Eleva-dor. Pensou isso enquanto – carregada de orgulho próprio fingia descontração aos olhos do porteiro.

Enfim. Deu os passos necessários. Talvez não os necessários – mas os possíveis. Dois passos. Todo aquele esforço rendera dois mínimos passos. E a Televisão dentro da caixa de cor bege – escorrera solene – dela até o chão. Mas de pé. Nada de cair deitada. Uma elegância tem sempre que ser requisitada.  Depois de dois ou três passinhos com parada – chegou finalmente diante da porta do elevador. Apertou o botão do eleva-dor abraçada à caixa. Ou tentando fazer com que aquele gestual fosse mesmo um abraço. Lá estava ela carregando um peso por certo maior do que o dela própria. Os braços apontadores de faltas e perdas pagavam o preço da denúncia não solicitada. Já estava se sentindo quase uma esquizofrênica. Conversava com Televisão e discutia punição com os braços. 

O elevador chegou. Ela abraçou de novo a caixa – e conseguiu. Conseguiu entrar e apertar o número do andar onde desceria. Ficou orgulhosa – até fez uma carícia nos braços.

Nova batalha até dentro do apartamentinho – e a guerra foi finalmente vencida. Ao menos a parte do front. Faltava agora a parte das trincheiras – ou seja – colocar em funcionamento em cima da cômoda que escolhera como lugar possível e conveniente.

Encostou a caixa na parede. Ainda bem que sobrara alguma – mesmo sendo a divisória do apartamento vizinho. Cuidou para que a caixa não escorregasse e se sentou no sofá com os braços caídos qual uma pintura de retirante. Diziam os entendidos em dores que a dor muscular surge apenas algumas horas depois do exercício intenso. Contrariou a assertiva. A dor muscular que sentiu dos ombros até os dedos a fez saber e lembrar todos os feixes musculares que compõem a anatomia. Ao menos a dela. E nela. Nada de horas. Foi apoiando a caixa na parede e a dor foi se instalando nos braços. Eis uma rapidez de dar inveja.

Lá estava a caixa ocupando a metade da sala – o que é compreensível sabendo-se das dimensões internas da habitação – e ela com os braços caídos tentando se ajustar à ideia da compra. Quase se recriminou por não atender as opiniões carregadas de logística do Roberto. Quando contou a ideia que tivera a ele no trajeto para a compra ele foi objetivo – aquelas polegadas desejadas eram bem maiores que o espaço ao qual supostamente pertenceriam. Lembrava que ele fizera um chiste – põe de frente para a janela que os vizinhos vão pensar – da varanda deles – que estão num cinema. E riram. Ambos.  Agora não sentiu vontade de rir.

Mas deixou as trincheiras para outro momento. Foi prática – se até agora fiquei sem televisão mais uma noite não faz mal algum. E diante da caixa fez um aceno de despedida e falou sorrindo – até qualquer momento.

Mas em algum momento o qualquer momento chega. Nova onda filosófica a invadiu. E concordou. Era já chegado o momento. Afinal estava realmente ridículo e desconfortável ficar pulando a caixa encostada na parede já há cinco dias. Até riu quando fez as contas. Mais novos cinco dias úteis – inúteis.

Criou um espaço no tapete da sala – afastou as cadeirinhas dos séculos passados e deitou no tapete a tecnologia do século bem atual.

Com um estilete cortou as defesas da caixa. Com fingida calma e sincera vontade de ganhar tempo – mesmo sabendo que faria diferença alguma no contexto este ganho de tempo – foi primeiro jogando num saquinho todas aquelas fitas adesivas que dariam para envolver qualquer araucária gigante. Eram metros e metros de fita adesiva. Mas foi retirando e finalmente – a caixa estava liberta.

Abriu. Olhou para dentro dela como se fosse um conteúdo surpresa. Olhou sentadinha do lado da caixa e verificou o que dela – da caixa – seria retirado em ordem de prioridade. Tinha uma enorme e preta base e um cilindro transparente. Entendeu – porém não muito rápido. Mais um pedacinho daquele tempo que jurava estar ganhando foi consumido. O cilindro se acoplaria à base e a base assim composta aguardaria o encaixe da tela. Nada mais elementar. Brincadeira de criança – ela pensou. Retirou a tal base. Pesada. Muito. Colocou na cômoda que havia limpado. Acoplou o pequeno cilindro – enfim algo leve – e voltou em direção à caixa.

Tentou – verbo correto – retirar a tela. Estava envolvida por uma fina camada de papel endurecido e folhas finas de um material que lembrava um isopor. Algo bem moderno – pensou. Digno de terceira dimensão. Sorriu. Do que não sabia – mas sorriu.

E lá se foi a Leticia e os braços retirar de dentro da caixa a tela. Puxou duas ou três vezes. Já quase esquizofrênica – começou a discutir com os braços. Lembrou até das sessões de Análise com o Ronaldo. Quantas horas foram remuneradas a ele sob o assunto de força e de braços. Sem falar no que rendera o dia que ficara com as duas mãos grudadas e ele a perguntar os motivos dela estar com as mãos grudadas. A pergunta era – o que fazia ela de mãos dadas consigo própria.

Recordou o quanto era tranquila naquela época. Deu saudade imediata. Fosse agora e o Ronaldo iria preferir as mãos grudadas do que soltas na bochecha dele. Riu. Riu como habitual – com a baixa de oxigênio cerebral. Mas não deixa de ser um riso. Coitado do Ronaldo. Tinha o cabelo comprido e preso em rabo de cavalo. Por certo ia ficar descabelado depois que ela desgrudasse as mãos e grudasse na bochecha dele. Riu de novo.

Entendeu. Estava tentando ganhar aquele tempo. Até o Ronaldo – coitado – fora espancado.

Mas a tela continuava no mesmo lugar. De diferente só a base solitária com o cilindro em cima da cômoda. Inúteis mas já postados.

A memória foi-se sofisticando. Lembrou as telas do Jeronimus Bosch. Nunca ele vira uma televisão – nem de uma dimensão quanto mais de três – e compunha telas tão ricamente povoadas. Imagens e distorções de imagens – como uma quarta dimensão da alma humana.

Lá estava de novo tentando ganhar tempo. Mas perdoou a Memória – eis uma aliada solidária e amigável. Ultimamente estava bem amiga da Memória e das lembranças.

Recostou-se na cama diante da cômoda. Olhou os objetos que colocara. Refez o caminho até ali. Não da vida dela – seria gastar tempo demais sem finalidade alguma. Pensou no percurso da compra – mas dispensou o vendedor. Comprara a Televisão que desejara. Escolhera o tamanho e a modernidade tecnológica. Desobedecera conselhos. Separara um local adequado e até higienizara o tal local. Subira com ela até o apartamento qual uma música nordestina – entre abraços e escorregos. Encostara à parede divisória. Aguardara mais cinco dias. Retirara a base e o cilindro. Colocara na tal cômoda higienizada.

Não seria justo ceder a um pensamentozinho safado que se enfiava por entre a retrospectiva. Um anúncio na Internet – vendo televisão com muitas polegadas e muitas dimensões pela bagatela da metade do custo e ainda na caixa. O comprador terá que retirar no local.

Em absoluto.

Voltou para a frase já conquistada mudando apenas a conjugação. É minha. Toda minha.

Levantou-se da cama. Sacudiu braços e mãos. Quase acenou um pedido de desculpas ao Ronaldo descabelado e esbofeteado. Fez uma reverência ao Bosch. Foi no espelho – quase deu um grito de susto – estava mais descabelada que o coitado do Ronaldo teria ficado. Nos dedos ainda sentia o pegajoso da cola das fitas adesivas. A pele do rosto em total descompasso com a temperatura ambiente – suada sob um frio de quinze graus.

Aprendeu rápido.

Melhorou a aparência – prendeu os cabelos – acalmou a pele do rosto. Interfonou para a Portaria do prédio e solicitou a presença do Zelador. O senhor Romildo subiria em vinte minutos.

E lá chegou o senhor Romildo. Simpático. Atencioso. Sorridente. Disponível. Escutou a explicação e a demanda anexada. Olhou para a caixa deitada no tapete. Passou um rápido olhar no saquinho das fitas adesivas. Caminhou até o local onde seria colocada a tela. Olhou para Leticia.

Imagino como foi difícil carregar este peso – deveria ter me pedido. Por certo é magrinha – porém forte. Parabéns. Mas vamos lá. Deixa colocar aqui em cima do cilindro. Que bela Televisão. Enorme. Quase maior do que o apartamento. Sorriu – sem eco.

Quando o senhor Romildo colocou tudo certo no local certo completou. Entendo destas conexões. Vou organizar os fios e fazer as ligações. Deixo tudo pronto. Fios e ligações são comigo mesmo. E sorriu enquanto colocava cabinhos e tomadas nas entradas corretas.

Pronto. Sempre que precisar pode chamar.

Lá se foi o senhor Romildo repetindo pelo corredor enquanto juntava uma parte da caixa dispensada no hall de Serviço – se precisar é só chamar.

Leticia deu os retoques na cômoda. Tomou uma chuveirada. Levou uma tacinha de vinho tinto para a mesinha de cabeceira. Ligou a Televisão. O quarto se encheu de luz e som. As imagens circulavam absolutamente e perfeitamente nítidas – escolheu um filme na prateleira dos filmes antigos. Estava feliz. Muitas conquistas além da tal terceira dimensão se fizeram efetivas por conta de um impulso. Gostou.

Dormiu e sonhou com a cineasta descabelada e o filósofo de rabo de cavalo. Ronaldo parecia girar numa cadeira segurando um clarinete – mas ela não entendia bem o que ele falava. Sonhou que havia muita luz acesa na casa e um ruído forte e repetido.

Acordou – era o despertador tocando. Era cedo.

A Televisão estava ligada desde a noite. Por certo o sono viera forte com estilo comatoso. Assim ela dormira e não desligara. Sorriu para a tela imensa – e desligou. Esticou os braços. As mãos percorreram o colchão. Esticou as pernas. Tudo parecia perfeito.

Abriu mais ainda os olhos. Dormira muito tarde – bem diferente do horário infantil que há muito seguia. Dormira no horário adulto – se tivesse tempo até sorriria disso. Mas não tinha. O tempo inútil que tentara gastar quando não sabia como fazer para erguer a televisão – fora realmente todo gasto. A palavra certa agora era – emergência.

Pela primeira vez esquecera de separar a roupa do dia seguinte e o material de trabalho. O pulo que deu da cama deve ter despertado vários vizinhos. Vinte milhões de pessoas pareciam estar correndo de um lado ao outro dos tais cinquenta metros quadrados. Conseguiu se entender. Lógico que no modo acelerado – mas venceu. Fez toda a rotina. Regou as plantinhas. Arrumou a cama e a cozinha. Passou pela Televisão e caminhou com os dedos pelo contorno da tela.

Foi trabalhar. Quando voltasse a Fadinha teria feito o que tinha que ser feito. Desceu sorrindo o elevador e pensando sobre qual filme assistiria antes de dormir. Estava feliz com as novas diretrizes – podia assim denominar – que incorporava à maturidade. Pedir ajuda não é coisa de solitários – é de quem faz parte do mundo real. Que bobagem. Teria economizado cinco dias de espera – sabe-se lá do que – com a caixa encostadinha à parede. Tem uma parte que se faz sozinho e outra parte que se faz com ajuda. A parte que era dela – tinha cumprido. Simples assim.

E o riso lúdico se fez de cúmplice deste súbito item recém adquirido de maturidade. Sorriu e pensou enquanto subia rápida a ladeirinha.

É minha. Toda minha. Sorriu.

 

 

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