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Uma noite tocou a campainha de casa.

Escutei o som e corri a atender dentro do que as minhas pernas entendiam – naquele momento – como corrida.

Eram os meus pais.

Eu mal havia chegado do Hospital depois de um duro dia de trabalho. Esperava apenas pelo momento do jantar e da abençoada hora de dormir. Dia seguinte tinha mais.

Era um período de muito esforço tanto físico quanto mental. Já com o Curso Médico concluído iniciei o primeiro ano da Residência na especialidade escolhida. E veio anexado um ritmo de rotina verdadeiramente extenuante.

Ia em casa apenas três vezes por semana à noite – para dormir. Fossem os dias úteis ou inúteis eram restritos ao Hospital. Registrava tantas Histórias Clínicas com riqueza de detalhes que meus dedos e olhos doíam sem trégua ao final dos plantões. Estes – os plantões – alternados também sem a mesma trégua entre diurnos e noturnos. A concentração era palavra e ato de ordem em meio aos exames complementares e a escolha de protocolos adequados. As inúmeras apresentações e discussões de casos e avaliações de prontuário requeriam uma ampla revisão detalhada da Literatura Científica. Toda prática era fundamentada na teoria com todo o rigor pertinente. E assim mais horas se faziam exigidas. Não era só de concentração que se alimentava o raciocínio – mas de absoluta necessi dade de confiança na memorização.

Toda a tensão que cabe a um iniciante – transbordava dentro de mim. Não havia uma só decisão que não fosse avaliada e concluída com o máximo de certeza do correto a fazer. E num mesmo turno muitas e muitas decisões eram colocadas sobre a mesa – para serem finalizadas acertadamente e acertadamente finalizadas. Mais ou menos amplo e mais ou menos restrito parecia girar com exclusividade – o Mundo.

Lembro de uma preceptora desta época. Era rigorosa e contundente – podia assim dizer. Nada de sorrisos a não ser em momentos escolhidos por ela e dirigidos a quem – também por ela – fosse escolhido. A tal escolha deveria ter razões e objetivos baseados em algum critério que nunca consegui decifrar. Enfim. Diante de tanto novo – esta decifração era o de menor importância. E muito mais valoroso – do que o interesse de decodificação na misteriosa escolha – foi um dos ensinamentos dela. Daria um excelente Manual sobre a Arte de Decidir.

As reuniões para as Discussões de Caso Clínico eram sempre na sexta à tarde – ou talvez na segunda. Como os dias corriam sem marcar diferenças entre úteis e inúteis – o que menos importava era o calendário em relação ao dia. Importava o Dia da Reunião. E o calendário formal se fazia oculto diante dos Residentes temerosos agarrados às pranchetas e anotações. Todos se viam diante de um Tribunal particular – o erro não incluía somente uma sentença. A cada erro toda uma explanação sobre a Ciência e a Inteligência – para ser minimamente delicada – se fazia num contexto único. Não raro algumas lágrimas se solidarizavam à expressão desorientada do penitente.

Em uma destas Reuniões brotou de imediato o tal ensinamento sobre a Arte de Decidir – diante de uma análise errada.

Da ponta da mesa ela escutava atenta. O Residente discorria com expressão de altivez sobre o Diagnóstico e a Conduta. Talvez com exceção do míope leitor altivo – todos já sabíamos que algo estava caindo em total desagrado. O gestual dela – a caneta entre os dedos batendo suave sobre o papel em frente – denunciava que o Tribunal estava em plena ação.

Quando ele silenciou – ela falou.

E qual uma gangorra com pesos desiguais – ele caiu. Lá do alto da suposta gangorra ela avisou em lento e bom som o que ficou para sempre em minha memória. Errar o Diagnóstico era possível e até aceitável. O impossível e inaceitável era não combinar o Diagnóstico com a Conduta. Se a escolha é errada e se repete o erro escolhendo o tratamento também errado para a tal escolha errada – não há fundamentação que possibilite uma discussão. Não há discussão que qualifique qualquer fundamentação.

E diante da repetição incessante das palavras erro e errada – ficou a escolha como uma espécie de ponte pênsil por onde basculavam o saber – o dever – o poder e o raciocínio.

Durante anos e anos e sob determinadas situações as palavras dela e a voz plena de autoridade superficializavam em minha memória. Muito mais do que uma lição de Residência foi esta uma orientação objetiva e pragmática para a Vida. Vinculei-me a este quase axioma como uma carta dentro da manga. Guardei como uma espécie de colinha diante das escolhas ou um amparo ao Consciente sobrecarregado de códigos vindos do Inconsciente – sempre tão difíceis de serem decifrados.

Enfim. Assim corriam os dias à minha frente – e eu atrás deles para alcançar os projetos em perfeita sincronia e boa sintonia. E aprender sobre erros e erros.

Naquela época a primeira decisão fortemente objetiva foi retirar os sinônimos das minhas articulações. O mundo era feito só de antônimos – mesmo que não se percebesse num primeiro olhar ou numa primeira escuta. Havia na realidade dos conceitos vigentes uma outra Gramática – que não se ensina em nenhum currículo formal.

Mas ainda me restava muito mais aprendizado sobre as ausências na Gramática formal.

Tanto me restava quanto me faltava – e eu caminhava em total e irrestrita cegueira de completude inabalável – sem bengalas.

Eis a juventude em todo o seu esplendor.

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