Tempo Observador

Como é difícil lidar com o Tempo.
Tanta ansiedade. Tanta espera. E o Tempo lá.

Ainda faltavam seis semanas.  

Pensou – qualquer um diria que
passa rápido. Respondeu a si mesma em tom irônico – qualquer um inexperiente ou
comprometido no racional e emocional. Porque o tempo só passa rápido quando
ninguém se importa com ele. Aí ele acelera. Mas se alguém passa a medi-lo – ele
se diverte. E quando chega o durante – ele se prepara para correr. O antes é
sempre lento. Eis uma relação verdadeira quando vista de frente para trás. Teve
uma súbita compreensão do pensamento do mestre francês. Ele que falava em todos
os seminários da questão do – logo depois. Procedia. Foi o que concluiu numa
tarde de temporal.

E o que não faltava neste período
era tarde de temporal. Se as conclusões dependessem do temporal – teria muito
em breve um livro publicado só sobre conclusões. Todos os dias ao final do dia
o céu escurecia. Os raios cruzavam com intimidade de um lado ao outro – qual um
passeio familiar dominical. Os trovões pareciam sempre a postos – amontoados e espremidos
em fila de espera. Apressados – nem davam o devido respeito à lei do som e da
luz. 

E numa tarde de forte temporal –
sob raios e trovões – discorreu sobre o Tempo. Criou até uma nova terminologia.
Com nome e sobrenome. Há o Tempo Preguiçoso. O Tempo Maratonista. O Tempo Indiferente.
E o pior de todos – o Tempo Sádico.

Inventava e recriava com uma
facilidade impressionante em situações de ansiedade ou de temor. Não que
tivesse algum valor as tais invenções ou recriações. Era um estilo de defesa. E
desta vez usava para suportar a espera da viagem com toda a fleuma possível. Fingia-se
de desentendida consigo mesma. Eis uma guerra que tentava vencer batalha a
batalha. Nem deixava a memória se espalhar. Ficasse pensando o quanto teria de
prazer quando lá chegasse diante do mar – entraria em estado letárgico. E a
rotina dela exigia concentração. Só nas idas e vindas é que inventava as tais
terminologias. Sobre trilhos e sob temporal.

E assim apontava uma despreocupação
com o Tempo. Talvez uma vingancinha no estilo esquizofrênico. Vá lá que fosse. Mas
persistia. Cada um sabe por onde – e como – se defende.

A parte do batismo do Tempo foi
numa manhã de aflição. Em meio ao percurso os trilhos pareceram segurar os vagões.
E tudo parou. Nomeou de Tempo Torturador. O relógio não se fazia solidário e o
risco do problema técnico aumentava a tensão de quem ficara retido dentro das
portas lacradas. E lá estava ela. Fisicamente lacrada – mas ainda bem –
mentalmente dispersa. Ainda bem. Decidiu que pensar em nomear o Tempo podia
acalmar. E entre a Gramática e a prisão metálica – ficou confundindo o Tempo.

Quando finalmente foi liberada dos
tais trilhos naquela manhã – todo um novo roteiro Linguístico havia sido
criado. Descobriu aliviada que não há medo ou solidão que vença o poder da
imaginação. Eis o Tempo Privatizado. Deve ter sido a única que desceu sorrindo
quando as portas foram abertas e o aprisionamento desfeito.

Enfim. Nada a fazer.  E muito a fazer. Eis a ambiguidades do tempo
de espera. Se fosse imediato – a liberdade seria lida de forma até precária.
Vai lá saber.

Optou por prosseguir com o cotidiano
de forma asséptica. Sem permitir muitos delírios. Se tudo já estava acertado –
agora era apenas o caso de aguardar. Esta decisão surgiu enquanto caminhava de
volta. Já se despira dos trilhos. Agora descia caminhando por uma pequena
ladeira no sentido de casa. Com as nuvens escuras sombreando os prédios
coloridos.

Simples. Concluiu enquanto descia
mais pulando do que andando.

Mas
era a fase de muito pensar. E um pensamento sempre arrasta outro. Sem dúvida. Este
também tinha um nome e sobrenome. Pensamento Encobridor. E era o que mais tinha
como alternativa para não se angustiar muito. Evitava contar as tais seis
semanas que a separavam do prazer garantido.

E
a palavra – simples – veio em auxílio do propósito. A palavra – simples –
remeteu a um amigo antigo. Nunca mais o vira. Uma noite ele brigara com ela e
se despedira. Foi objetivo. Você simplifica tudo. E simplificar nada tem que
ver com a realidade da Vida. Não combinamos. A princípio acreditou ser uma
observação filosófica. Depois viu que era verdadeira e material. Ele disse adeus.
Ela disse – que seja. E nunca mais se viram. Lembrava que ele era muito tenso. Fumava.
Reclamava tanto do trânsito que um dia deixou de dirigir. Contratou um serviço
de taxi para atendê-lo a qualquer hora e em qualquer dia. Quando o taxi
demorava – ele se irritava. Riu. Ele tinha razão – não parecia tão simples.

Enfim.
Retomou de onde parou. Simples ou não – era o que tinha a fazer. Aguardar.

Quando
entrou em casa o telefone tocou. Era a amiga de lá. Queria saber se ela
gostaria de passar o Ano Novo lá. Viajaria para o velho e bom continente e o apartamento
estaria à disposição deles. Ficaria feliz se aceitassem.

Deve
ter feito um instante de silêncio. Deveria agora ser o Tempo Iluminador. Em toda
esta etapa de decisão e passagens – esquecera de contatar os hotéis. Mesmo com
uma distância de seis semanas – na época que iriam seria bem complicado
hospedagem.

Ela
continuou falando de lá – já que não tinha resposta de cá. Ofereceu. Confirmou.
Avisou das facilidades. Convidou a todos que estivessem com ela. Espaço não faltava.
E ficariam tranquilos quanto à locomoção. O carro também ficaria à disposição
deles.

Desta
vez foi um Tempo Santo.


não se beliscou porque odiava sentir dor. Mas custou a crer que tudo estivesse
tão bem selecionado. Como se um destino uma vez estabelecido – o resto funcionasse
sozinho. Independente. Destino com piloto automático. Parecia coisa de novela. De
opereta. De – sabia mais lá o que. Mas era uma mágica favorável.

Ela
de cá – aceitou. Agradeceu. Adorou.

Ela
de lá respondeu – ótimo.  Estamos combinadas.
Não nos encontraremos fisicamente. Quando vocês chegarem – eu já fui. Quando eu
voltar – vocês já foram. Mas estaremos presentes de uma outra forma..E fico
muito feliz por recebê-los em casa.

Desligou.
Parecia a manhã que conseguira as passagens. Só que desta vez estava sozinha em
casa. Caminhou para todos os lados. Sorrindo. E com uma mão apertando a outra. Desta
vez não foi o habitual auto abraço. Desta vez se deu as mãos. Estava se
sentindo acolhida. Esta era a sensação mais forte. Acolhida.

Telefonou
para eles e contou. Riram. Concordaram com a sensação de acolhimento dela. Do mais
místico deles ao mais pragmático – acharam uma comunhão de coincidências. E ratificaram
a positividade da escolha. Entenderam como o momento certo no Lugar certo. Perfeito.

Ainda
caminhando e organizando a rotina para o dia seguinte – fez mais uma nomeação. A
do nome e sobrenome. Desta vez riu leve e sentou-se no sofá da sala. Soltou as
mãos e os ombros relaxaram simultâneos.

Era
um Tempo Altruísta.


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    • Cris
    • January 31st, 2011

    Ah Ledoca, andei matando as saudades lendo seus posts. Apenas 9 dias de férias e quanta diferença faz… Há muito tempo eu não parava um pouco para fazer as coisas que eu gosto, como passear pelas suas histórias… E se não for muita pretensão minha, um dia quero escrever assim. Um grande abraço!

    • Marcia
    • April 17th, 2011

    Lêda, querida, sentimento de “Tempo Perdido” em só tomar conhecimento de seu blog agora… nada que não possa ser recuperado. Parabéns pelo novo livo que saboreei, doce amostra, sentindo gosto de “quero mais”. Lerei. Indicarei. Com firmeza. Parabéns e sucesso! Beijinho carinhoso. Marcia

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