Tempo & Contratempo



estava ficando até interessante. Não sabia se este era um termo pertinente. Mas
não encontrava outro por absoluta falta de raciocínio. Estava em Estado de
Abstraída. Vai lá saber se existe este recém criado estado – mas estava se
sentindo assim.

Tudo
começou quando recebeu um recadinho dele – assista ao vídeo da Mensagem de
Natal da Empresa.

Ele
criara o estilo. O texto. Escolhera a música. A sequência. Os escritores. Uma
homenagem a quem se dedica ao ato da escrita. A lembrança dos caminhos que
constroem a imortalidade. Quando ele explicou de forma sintética – ela entendeu
de forma analítica. Quando ele explicou de forma analítica – ela entendeu de
forma sintética. Riram.

Voltou
para casa – foi imediatamente assistir ao vídeo. Deixou bolsas e chaves em
qualquer lugar e se preparou para opinar. Assim pensou. Como são perversos os
pensamentos desobrigados de convicção. Sentadinha – como quem assiste a um
vídeo sem maiores euforias ou menores obstáculos – recostou-se no sofá da sala.
Com a simplicidade exata que o ato em si requer e permite. E com a frívola curiosidade
que o domínio do controle sequer questiona. Percorreu os caminhos indicados e
com o cansaço do dia se fazendo vencedor – colocou uma almofadinha nas costas para
aguardar o início.

Quando
a tela abriu – achou maravilhoso. Narcisicamente inflou-se de orgulho dele.- e
por ele.

O
cansaço de vencedor passou a perdedor. A almofada foi a primeira a ser
dispensada. Levantou-se reta – quase como diante de um hino. Ou diante de um
chamado interior. Este sim – muito mais forte do que um hino. Recordou uma frase
da avó de uma amiga. Se a captura não for mais interna do que externa não há
emoção, menina, se a captura não for mais interna do que externa não há emoção.
Procedia.  Quando esta ordem é invertida
– é tarefa ou instinto.

O
vídeo compunha-se de música e imagens. E um texto percorria as imagens ao som
da música. A escolha fora perfeita. A letra falava da falta absoluta de arrependimento
diante do bem feito ou mal feito na Vida. A voz dela – como um pardal – ia além
dos decibéis ou da afinação correta. Era a voz de quem sabe o que canta muito
mais do que por que canta. E era envolto pelas belas frases do texto que ele
criara – uma celebração à comunicação escrita que dispensa e anula a vã
temporalidade. Eis por onde se delineava a Imortalidade.

Chorou.
A emoção foi maior do que a compreensão. Não entendia com racionalização o
motivo das lágrimas. Mesmo que tantas vezes tivesse repetido que lágrimas e
motivos fogem a qualquer coerência. E finalizasse esta frase sempre com um –
ainda bem. Desta vez se interessou por um motivo. Uma causa. Uma conseqüência.
Um intermezzo. 

Nada.

Escutou
repetidas vezes. Chorou na mesma proporção. A cada vez que assistia – chorava.
Não um pranto. Mas um lacrimejar fino – espontâneo. Mais invasor do que
dominador.

O
Natal passou mais esta vez. Os festejos se encerraram. Aromas e sabores restantes
ensacados e congelados. Enfeites retirados e enviados para o local de sempre. Papéis
e laços de presentes amontoados e dispensados. A casa voltou à decoração
cotidiana. Pouco depois os que vieram – voltaram. Os que ficaram – retomaram a
rotina. Novos arquivos empurraram para trás a Mensagem de Natal da Empresa.

Num
momento de rara desocupação resolveu ver os arquivos do computador. Faria uma
espécie de faxina. Ao menos esta era a intenção consciente. Foi aí que apertou
uma tecla e surgiu lá o caminho de acesso virtual – ao tal vídeo.

Arriscou.
Vou assistir. Está tudo calmo e ordenado. Os pensamentos alinhados. A emoção
navegando em águas doces. Vai ver fora o período. Ninguém passa incólume aos
apelos da confraternização. Era uma explicação – senão objetiva – lógica. Ou o
contrário.

Desta
vez riu de si própria. Nada de cura. As lágrimas vieram desde a primeira
imagem. Desde o primeiro acorde. E antes do canto começar.

Sentiu
uma necessidade exagerada de compreender. Precisava saber o por quê. Entendia a
letra da música – mesmo que o idioma fosse alheio. Reconhecia as imagens.
Deteve-se no tal texto. Vai ver a resposta do mistério estava na leitura – e
não na audição. Releu com calma toda a mensagem. Repetiu. Claro que com uma mão
nas teclas e outra no rosto. Uma secava e outra apontava. Uma dança de mãos em
meio a uma outra dança – qual uma sombra chinesa. Sabia que estava ali. Mas não
conseguia ver a realidade. Sentia o que se passava – mas não conseguia
contornar ou preencher o contorno.

Assim
devem ser as des-orientações do inconsciente.

Telefonou
para ele e contou. Até hoje choro com aquele vídeo e tanto tempo já se passou.
Sei bem que só se chora pelas faltas despertadas em si mesmo. Tudo isso é
óbvio. Nada de novo sob o céu. Mas a que falta remetia a choradeira diante do
vídeo – eis a questão filosófica particular do momento. Até o inglês surgiu
como possível ajudante. Entre o ser e o não ser – sempre repousa qualquer obscura
questão.

Ele
riu. Comentou sobre a reação analítica e a sintética. Sobre as trocas e os
opostos. Sobre os muitos tempos que se misturam quando – uma música ou um texto
– colocam as lembranças e a memória em Estado de Presença.

E
entre o conflito do Ser ou Não Ser – optou decididamente pelo Ter.

Sem
questão. Tinha o absoluto direito de chorar e se descabelar diante do tal
vídeo. Quando quisesse se emocionar – ou discutir os contrários e os mistérios
consigo mesma – tocaria na seta de iniciar. E que a memória ou a lembrança
fizessem a parte delas. Por certo uma impede o que a outra não suporta
enfrentar. Mais ou menos assim.

No
final de tanto pensar e pesquisar a conclusão veio mais fácil. É assim que a
Vida se faz demonstrativa. Muito mais pelo nada saber do que pelo saber. Muito
mais ainda pelo esquecer do que pelo lembrar. Ou pelo excesso de mistérios em
relação à escassez de soluções. Só o Tempo se diverte – sem marcas. Eis a Vida.

Despediu-se
da fase inicial de abstraída. Com tranquilidade assistiu mais uma vez o vídeo.

Secou as
lágrimas e deu continuidade ao dia. 


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    • ana amelia m lourenção
    • January 16th, 2011

    LedaFinalmente resolveu escrever para suas leitoras fiéis.Acho que o texto se refere ao video do seu filhão ,que tb está guardado no meu arquivo, pois é muito lindo.Continue escrevendo, e o novo livro quando vai ser publicado?BeijosAna Amelia

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