Nas intermitências…

Enfim vencera mais uma etapa. Aliás – mais
parecia uma corrida de obstáculos. Planejava. Planejava. Planejava. Desistia.
Nem fazia rima – mas já parecia uma poesia. Não saia do papel. Não progredia.
Não podia negar que em parte – ou melhor 
dizendo no todo – ela mesma recorria ao tal obstáculo. E desistia.
Ficara mais temerosa com o passar dos anos. 
Arriscava – mas com um controle. Vai ver os acontecimentos se somaram e
deram em novas divisões posturais. Dizem os que fazem aqueles estudos que o
significado desta atitude chama-se maturidade. Vai lá saber. Os estudos se
multiplicam e diminuem as conclusões. Qual uma matemática. E justo ela que
sempre detestara números – agora se cercava deles e das tais operações. Enfim.

Há sempre uma manhã. Há sempre um despertar
criativo. Muito mais do que a ignorância é o efeito impulsionador da criatividade.
No momento criativo a coragem se faz cúmplice –desconsidera os fatores
negativos ou os racionais agudos. E assim aconteceu.

Acordou mais cedo do que o desejado para um
sábado Foi logo avisando a ele. Vou querer. Desta vez é uma decisão sem volta.
Vamos escolher. Mas já sei também o que me fará confortável. Digamos que um
objeto de desejo me convocou. Riu. Riram.

No primeiro dia que sentou na direção –
sorriu como criança. Há muito não trocava o carro. Já até esquecera o prazer
lúdico que uma compra assim provoca – no corpo e na emoção. O carro era lindo.
Ao menos assim considerou. Todos os acessórios se fizeram presentes. Sobrava
espaço. Sobrava qualidade. Sobrava segurança. Esbanjava elegância. Adorou.

Se houve um tempo de indecisão e temor – já
fora apagado da lembrança dela. Agora tão logo diante de um fragmento de Tempo
disponível – e lá se ia carro adentro rua a fora. Todos os dias ela organizava
uma tarefa externa. Nem parecia a mesma de sempre que chegava da atividade
profissional e ficava em casa. Nem pensar – falava de si para si. Vamos
passear.

E nesta noite surgira um programa especial.
Qual um presente divino. Numa única sessão e num único lugar. E quase ao lado
da casa dela. Falariam do escritor preferido dela.  Já não fazia ele mais parte presencial – mas fazia
parte histórica pelos símbolos e pensamentos que deixara em livros e
entrevistas. Seria uma homenagem póstuma. Fragmentos dos textos seriam lidos. Até
o compositor famoso leria também alguns trechos. Conseguira o ingresso por sorte
e perseverança. Mas não nesta ordem. Perfeito.

 Combinaram
se encontrar já no local do evento. Ela iria depois da atividade. Ele iria
depois da atividade. E lá se encontrariam para esse prêmio auditivo e visual.

Chegou mais cedo. A fila para estacionar
estava longa. Muito longa. Bendisse o adiantamento que escolhera. Afinal – por
mais que demorasse estava garantida quanto ao horário. E lá ficou na fila. Com
o tempo diante da espera obrigatória – descobria os itens do carro novo que
ainda não tivera oportunidade de investigar. Investigou. Confirmou. Até se surpreendeu
com uma ou outra possibilidade oferecida. A cada descoberta – um ar de festa. A
música era a adequada à ocasião e situação. Cantarolou.

Estava se sentindo dona de tantos bens – que
se balançava vez ou outra para se identificar como possuidora – não posseira.
Pode parecer semelhante – mas tem lá suas diferenças bem pragmáticas. Era a
feliz proprietária. Esta nomeação com direito ao adjetivo a fez rir – mas com
descrição. Nada de sugerir que estava fora de si. Ao contrário. Estava se
sentindo extremamente lúcida e confortável dentro de si – e dentro do carro
novo. Qual uma simbiose. Uma graça.

Enfim chegou a vez dela estacionar. Desceu
uma pequena rampa. Indicaram uma vaga disponível mais para diante. E lá se foi.
Alguém avisou – uma vaga excelente e de fácil manobra. Escutou e seguiu. A
música ainda tocava com os decibéis convenientes  a quem está só. Sem incomodar ao vizinho de
assento – diga-se assim.

Olhou. Delimitou. Manobrou.

Não sabia de onde havia saído aquela coluna.
Não poderia ter sido dali. Mas fora. Com o adiantamento da coluna até ele – o
carro – este ficou indefeso. E a metade do outro lado fez um rangido alto diante
do ferimento severo. Por um segundo lembrou de um termo diagnóstico. Lácero
contuso. Procedia.

Parou. Desceu. Verificou.  Fora um ferimento lácero contuso que se
estendeu do início ao término do que se denomina lateral. As portas. As duas. A
pobre tampinha da gasolina foi parar deitadinha no chão. Humilhada e sem
função. Identificou-se a ela. Assim se sentia.

Uma senhora passou e comentou. Que
lamentável – um carro novinho. Um senhor arriscou – não entendo como não notou
a coluna pintada de amarelo. Neste momento lhe ocorreu um outro termo diagnóstico
– ferimento profundo com objeto pontiagudo.

Nada respondeu. Nada compartilhou.

Foi até o local onde a tampinha da gasolina
estava e a recolheu. Colocou-a com delicadeza no banco do carro. Finalmente
estacionou. Subiu. Não pôde deixar de se auto-analisar. Saíra de casa com uma
intenção. Estragara o carro por falta de atenção. Subia agora para assistir a
homenagem ao autor preferido – com ambígua emoção.

Ele já a encontrou na entrada de acesso ao
Teatro. Conhecedor das expressões faciais dela foi logo afirmando – conta o que
aconteceu. Ela até se assustou. Achou que estava bem disfarçada – que engano.  

Contou em rápidas pinceladas – e este termo
a incomodou. Tanto o rápidas quanto as pinceladas. Ele a acalmou. Confirmou as
medidas cabíveis. Outro termo que a incomodou. Cabíveis e não cabíveis seriam
de agora em diante palavras banidas do vocabulário dela – pensou.

Mas quando o cenário deflagrou a homenagem
da noite – o carro ficou para um pouco depois. A escuta dos textos apagou a
escuta do som do tal rangido na coluna. Serviu-se das letras muito mais do que
das cores. Compreendeu as razões muito mais do que as contradições. A cada
frase – a emoção ia retomando a lucidez – diga-se assim.

E o que era um ferimento num metal – foi substituído
por um carinho na emoção.

Quando saíram – ratificaram o ocorrido. Ele
avisou – em dois dias estará resolvido. Acontece – foi uma adaptação. Por certo
não mais se repetirá. Deu um beijo nele. Ela ainda pensou num assomo de
quietude. Se era para ser – que bom que foi numa noite como esta. Os valores
muitas vezes precisam ser marcados como cicatriz ou tatuagem – no cérebro. E
não numa placa de funilaria. Riu com alguma sobriedade. Voltaram para casa já
com uma parte resolvida. E outra acrescida



 

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    • Vivi
    • December 19th, 2010

    Oi Leda,
    Adoro seus textos!!!Seu jeito de narrar…os detalhes que escolhe enfatizar.., enfim adoro!!!
    Dizem que toda forma de amar vale a pena. Mas, certamente aqueles que são dotados de tanta sensibilidade como o do casal, conseguem ser mais cúmplices e alcançar a essencia do amor.

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