A Palavra é…

A chegada dela foi uma festa só. Uma
alegria que dava para sentir na atmosfera. As condições de pressão e umidade devem
ter se modificado quando o avião aterrissou.

Desta vez eram sete. Sete em subdivisões.
Uma parte a esperava no saguão do aeroporto. Outra parte a aguardava na sala de
casa. Uma equipe cuidava da arrumação. Outra da degustação. Ao calor do forno
ligado se somava o calor da espera da chegada.

Quando ela entrou em casa – já se tornaram
oito a falar e rir. Sacolas pareciam levitar de um lado para o outro. Valises
eram abertas e acomodadas em sofás e cadeiras. Presentinhos surgiam como se uma
magia fosse. Pequenas transgressões gustativas se acomodaram tranquilas nas
prateleiras da geladeira. O bacalhau de congelado quase se fez de vivo. A
cozinha toda enfeitada estava digna de um banquete grego.

Parecia a repetição do primeiro imigrante
ao novo mundo. Com a diferença de que não havia lutas precedentes. Só paz e
graças. Um dia especialmente metafórico. Em se sorrindo – tudo procede.

Passados os primeiros instantes – um respirar
mais calmo se fez aparente. Dos oito. Ela conferiu horário. Local. Região.
Bairro. Sotaque. Era o que parecia pelo silêncio momentâneo que fez e pelo
olhar apressadinho que percorria de um lado ao outro o ambiente. A diferença de
fuso e de temperatura fazia a cobrança imediata. Entre a neve precoce de lá de
onde saíra e o calor tropical cotidiano aqui aonde chegara – a pele expunha
lacrimosa a própria revolta.

Passados os primeiros e segundos momentos –
um terceiro se instalou. Todos sentados em volta do balcão da cozinha. Assuntos
pendentes eram recuperados. Temas ausentes eram resgatados.  Risos percorriam bandejas e tacinhas.

Vai lá saber em que momento entrou a
Gramática porta adentro. Mas entrou e foi servida por todos – e de todos se
servindo. As novas leis da Gramática. As antigas leis da Gramática – e da Fonética.
Assim. Um assunto inesperado para a ocasião. Mas deve ser assim na troca de
fuso e de cidade.

E lá se foram os tais fonemas convidados de
última hora e celebrados como se familiares fossem.

A questão foi o X. A letra X.  Ela avisou – de acordo com as letras vizinhas
da tal letra a sonoridade se modifica. Ela assume o papel de ss ou de qsi.  E ainda pode ser falada como ch. Assim – uma
verdadeira aula de interesses múltiplos. 
Informação a nível elevado – de ordem científica cultural. E prosseguiu acrescentando
uma denúncia – publicamente. Você pronuncia errado. Você diz “máqsimo” e é
“mássimo”.  Sempre cometeu este erro
fonético. Ela até olhou para trás. Quem seria a culpada de tal desmando.

Na virada brusca – deu de frente com um
espelho. Quase estranhou a imagem. Era ela. A do espelho. E a da pronúncia errada.
Ela mesma.

A cozinha se encheu de letras. Os aromas se
fizeram reticências.  As tacinhas brindaram
a interrogação. O calor aumentou – mas a pele desta vez ficou hirta e
absorvida. Talvez um pouco mais de observação e poderia se notar um certo rubor
contornando todo o perfil. Saltava aos olhos – podia-se dizer assim.

Surpresa – ela fez uma enquete. Perguntou aos
sete. Reconfirmou. Sim. Sempre pronunciara errado. Que vergonha. E justo ela
que se auto-acrescentava tantos títulos e sabedorias. Viu tudo se perder por um
fonema. Algo inimaginável. De grandes dimensões. De grande porte. Afinal – com
qsi ou ss – a palavra se fazia volumosa.

Até ai tudo bem.  Ao menos era o que parecia. Tudo
perfeitamente bem.

Mas o pior ainda estava por vir. Deu-se
conta de que não sabia mais o que fazer com o X.  E o mundo todo pareceu ser feito com esta
letra. Não havia uma só frase que não fosse requisitado – o X.

Havia as intoxicações. Os axiomas. Os
exageros. As execuções. Os exílios. As exigências. Os exames. As exiguidades. O
reflexo. Até palavras mais sofisticadas se apresentaram. A taxidermia. A
taxação. Quase faltou o oxigênio. Descobriu alarmada que no mundo somente o X
trabalhava. E ela assim – sem saber pronunciar. Uma letra de tamanha
importância tratada de qualquer jeito. Como se nada fosse.  Teria que resolver todo o futuro. O dito e o
feito já não se podia mais consertar. O presente acendera um alerta vermelho.
Agora era cuidar do futuro para que novos erros e descasos não fossem
cometidos. Ou ao menos fossem mais comedidos. Marcou um X na resposta certa –
atenção com o que fala. 

Virou-se de volta ainda segurando a
tacinha. Sorriu. E ergueu um brinde. Vocês são o mássssimo. Assim. Com logo quatro
esses para evitar confusão. Ou repetição do erro. E concluiu. De agora em
diante só os excessos. E com pronúncia correta.

Eis uma noite rica e enriquecedora. Jamais esquecerei
o aprendizado. E como dizia a avó de uma amiga – a palavra como a Vida tem que
ser bem falada menina, a palavra como a Vida tem que ser bem falada. Pela primeira
vez entendi o que a avó da amiga falava.

E por ai foi. Repetiu que agradecia o que a
amiga recém chegada ensinava. Até pensou rapidamente todo o poder filosófico de
um X. Mas também rapidamente interrompeu a sequência do tal pensamento.

E com um sorriso exposto – ergueu um brinde
a todos e ao Espaço. Em alto e bom som acrescentou uma fala ao gestual: estarmos
todos juntos mais uma vez – não é o “máqsimo”? 


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