Parlez-moi de…

Decidiu retomar de onde parara. Acordou um
dia e avisou a si mesma – vou resgatar o Francês. Riu. Até parecia frase de filme
de conspiração. E vai ver era. Não o filme – mas a conspiração.

Levantou – procurou as informações. Telefonou
para ela. Confirmou. Agendou. Certo. Na quarta final da tarde vamos reiniciar em
estilo conversação. Perfeito. Já se sentia uma estudante de pós-graduação de
uma daquelas Universidades sofisticadas.

Mas partiu para preservar a parte um da realidade imutável – e foi
cumprir a rotina habitual. Desta vez mais ansiosa. Na volta faria algo
diferente. Falaria um idioma diferente. Quem sabe era um sinal de mudança próxima.
Vai ver o inconsciente avisava alguma viagem que ainda não se dera por
consciente.

E entre sinais e rotina – estava de volta
em casa. Ainda sobrava um tempo para organizar a mesa da sala para receber a
professora do idioma distante. Separou canetinhas e caderninhos. Até um livro
antigo saiu da prateleira da estante e foi ficar parceiro do tal caderninho. Preparou
um chá quentinho para combinar com o proposto. Considerou tudo adequado.

Tinha ele. O cachorrinho. Fosse qual fosse
o idioma – ele não se interessava. Tinha os próprios códigos e os próprios
leitores de códigos. Compartilhava o que interessava no momento. Assim. Um mundo
regido por regras e vontades especiais. Domesticado só mesmo na ideia – nos
atos nem tanto. Enfim. Deixou que ele circulasse pela sala.

Chegou o futuro – ou melhor – a professora.
Era uma jovem de aspecto mais senhoril. Engordara um pouco mais do que a pele
gostaria. Mas estava bem arrumada e tinha uma expressão de suavidade e um gestual
de delicadeza.

Sentaram. Começaram a conversa. Erres e
esses foram desencaixotados. Dobras na língua fizeram as vezes de mademoiselle.
Tudo seguindo conforme o programado e esperado – pensou entre um erre e um esse
dobrado.  E perfumado pelo doce aroma do
chá nas xícaras brancas com florzinhas cor-de-rosa.

Pensou muito cedo.  Precoce – poderia se dizer.

O cachorrinho. Vai lá saber o motivo –
agitou-se. Subiu e desceu do sofá. Latiu. Pulou. Latiu. Rodopiou. Latiu. De um salto
só foi até a janela e se engalfinhou com a gradinha. Latiu. Voltou. Repetiu tudo
de novo. Latiu. Identificada a causa – ocorreu o que sempre ocorre. Surge a conseqüência.
Um colega da escala zoológica – mas não de raça se exibia caminhando pela calçada.
E provocava o coitado que – contido por entre grades – não oferecia temor. Eis
o resumo do momento tenso.  

Ela se sentiu constrangida. Preocupada. Afinal
a jovem de aspecto senhoril poderia ficar desconfortável com os latidos e pulos
– e os erres e os esses ficarem num plano secundário. Parecia que – de repente
– tudo fugia ao tal proposto.

Levantou-se. Pegou ele – o cachorrinho que na
grade se pendurava e latia – pelas costas. Colocou de volta no sofá. Deu um tapinha
daqueles educativos e ordenou- não saia daí. E fica calado. Entendeu bem – espero.
Calado e ai.

Foi-se virando já com um dos erres em posição
de dobra quando se assustou. Quase que ela sim que atravessava a grade da
janela com o susto. Diante dela – em pé – estava a jovem de aspecto senhoril. O
dedo erguido. O tom da voz mais erguido ainda. E em bom e acessível idioma
local foi avisando. Estúpida. Grosseira. Impaciente. Deveria contratar um
encantador de cães já que não sabe lidar com o cãozinho.

Assim. Em excelente e objetiva linguagem. Sem
necessidade alguma de tradução. Muito menos de caderninhos e canetinhas. Explícito.

Olhou para ela. Confundiu gestos e falas. Caras
e bocas. Torres e arcos. E nada disse. O cachorrinho deitou sossegado. Vai ver
pensou nos riscos internos muito mais imponentes do que os externos. O colega
de escala parecia agora talvez menos interessante. Sábio.

O tempo de aula foi completado. A jovem de
aspecto senhoril saiu. Ela olhou para a mesa com os caderninhos e canetinhas. Sentou
numa poltroninha. Tentou se localizar e organizar os idiomas vigentes e ausentes
– e impertinentes.

Acalmada enfim – optou por dar por
encerrado o resgate do idioma. Quase riu lembrando o filme de conspiração que
imaginara pela manhã. Pegadinha do inconsciente – concluiu. E de conclusão em conclusão
– veio a decisão mais recente. E a retomada – desta vez – da parte dois da
realidade mutável.

Arrumou a mesa como habitual. Guardou os caderninhos
e as canetinhas. O livro antigo voltou para a estante. As xícaras brancas de
florzinhas cor-de-rosa foram para o armário. A noite chegou. E com ela mais uma
decisão. Sentou desta vez diante do computador. Mensagem virtual.

Informou com objetiva cordialidade.

Vamos suspender as aulas. Fiquei muito grata pelo seu gentil
conselho – e obedeci. Consegui contratar um encantador de cães. Ele começará na
segunda feira. Mesmo esta despesa estando fora da previsão do orçamento –
compreendi a necessidade pelo estilo contundente como você apontou. E você nem imagina
o quanto lhe estou agradecida. Minha querida – permita-me lhe chamar assim – você
não avalia a sorte que a sua doce sugestão me trouxe. O encantador de cães é um
senhor francês. Francês. Olha só como você é uma pessoa de bons augúrios e
cuidadosa. Agora além de me ensinar a lidar com o cachorrinho – ele vai me ensinar
a conversar em francês. Eis a perfeição de uma situação que graças a você –
minha querida – ficou duplamente resolvida. Queria saber mais idiomas para me expressar
em todos eles. Mas vou usar o nacional corriqueiro para evitar possíveis equívocos – adeus.

Clicou na tecla enviar com a pontinha de uma
unha afiada. Desligou o computador. Sorriu. Riu. Não dobrou os erres e esses –
dobrou a risada. Acariciou o cachorrinho que ao lado parecia também sorrir. Imitou
um latidinho. Ele olhou desconfiado. Conferiu a hora. Ça va bien. Falou alto e ainda
sorrindo. Imaginou o que uma determinada amiga diria quando escutasse este
relato.

Fez um brinde ao encantador pensamento criativo
que tivera – isso sim.


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