SETEMBRO VERDE

Texto vencedor do Primeiro Concurso Cultural da Folha/UOL- Catraca Livre
http://catracalivre.folha.uol.com.br/2010/10/vencedores-da-primeira-edicao-do-concurso-cultural-da-rede-catraca-livre/

A noite estava calma. Dentro do que se consegue de calma – numa noite
em meio a tanta urbanidade. Passara o dia entre carros e metrôs. O
clima estava seco. Muito seco. Lacrimejava com facilidade. De onde viera
isso era um acontecimento da ordem do impossível. Até do
inacreditável. Mas não era momento para saudosismos ou comparações.
Afinal mudara-se para onde escolhera bem lúcida e orientada – caso
algum curioso Legal a questionasse.

Enfim. Prosseguiu o dia da rotina do jeito que a rotina se
estabelecera – nem lembrava mais desde quando. E assim ficara. Apressada
e lacrimejando. Já estava tão habituada que – por onde quer que
colocasse a mão – já encontrava um lencinho descartável. Nomeara de
“lágrimas químicas”. Sempre falava de si para si – melhor estas do que
as emocionais. Deixa estar. E seguia o proposto.

A sala do atendimento onde trabalhava não tinha janelas. Não tinha
janelas. Simples. Mas fora outra escolha lúcida. Ele avisara. Ou fica em
sala com janelas e calor – ou sem janelas e ar condicionado. Não
houve espera na decisão. Foi logo respondendo. Acho melhor sem
janelas. E passava as horas funcionais dos dias ditos úteis – sem
calor – envolvida por quatro assépticas paredes brancas. Muitas vezes
fazia chistes consigo mesma. Lá vou eu para o meu lençol de concreto.

Era o oposto de lá de onde viera. A sala onde trabalhara por tantos
anos – tinha uma janela imensa. A vidraça expunha a ausência da parede.
Olhava para um azul sem tamanho. Do céu. Do mar. Sentia-se como num
convés de um navio. Sentada para o atendimento – se girasse um pouco
que fosse olhar – já via a água azul enfeitando mundo afora e mundo a
dentro. Era lindo.

Em meio aos insistentes apelos da Memória – chegou em casa. Já no
final do dia. Pingando o colírio. Os olhos estavam uma lástima. Lembrou a
amiga de lá. Quase escutou a voz dela com o sotaque lento. Diria em
explícito tom dramático – você está uma lástima. Falaria isso colocando
com delicadeza os cabelos por trás da orelha. Até riu. Não tinha como
discutir. Estava mesmo uma lástima. Ainda bem que era só a lembrança –
a amiga estava bem longe. Dispensava àquela altura qualquer
comentário de fundo negativo. Mesmo que compatível com a realidade.

Cansada – dormiu mais cedo. Dia seguinte era o tal dia mal falado como inútil.

Acrescentou um novo aprendizado. Começou a acreditar numa determinada
força – sempre citada. A Força do Hábito. Assim. Merecidamente com
destaque em maiúscula. A tal Força a fez levantar cedo – bem diferente
do planejado.

O sono se foi de um golpe só. Nem acreditou quando viu o mostrador do
relógio. Sacudiu. Olhou de novo. Quase se revoltou. Mas – obediente –
levantou.

Abriu a porta do quarto com especial sensação saudosista. Vai ver
sonhara com mar e navios. Ou com janelas e vidraças. Vai lá saber.
Estava sem o registro exato do que se passara com uma parte dela –
enquanto a outra parte dela dormia.

Abriu a porta.

O passo seguinte – não foi um passo. Foi uma espécie de parada. E um
gritinho. Mão na boca. Olhar de criança. Sorriso feliz – disfarçado
pelos dedinhos.

Na varandinha da sala estava uma flor. Uma flor. Nascera na noite.
Uma linda flor brilhava toda sedutora num galhinho verde. Até o vasinho
parecia exibido. Falou alto – a primeira flor da Primavera. Aqui na
minha varanda.

Dispensou janelas. Desprezou paredes. Saudosismos. Tocou os navios
Porto a fora. Abandonou o Colírio. Já foi respondendo à amiga – de lá
totalmente inocente – estou muito bem obrigada. Olhou para a ladeira em
frente à varanda e viu – surpresa – as árvores pesadas de tantas
folhinhas verdes.

É Setembro. Nem lembrava.

Jogou um beijo em direção ao relógio. Regou a plantinha. Elogiou a florzinha. Agradeceu à Força do Hábito. Arrumou-se. Saiu.

O Parque estava cheio – mesmo tão cedo. As pessoas caminhavam de todo
jeito. Crianças corriam livres. Vozes e risinhos davam uma sonoridade
de prazer por onde se passasse.

Não resistiu. Dirigiu-se para um espaço ainda vazio – sob uma árvore.
Sentou-se. Sentou-se com vagar. Como que pedindo licença. Primeiro
olhou. Depois foi descendo a mão com suavidade. Expôs a  palma das mãos.
Assim. Como um toque assintótico. Sentiu a proximidade. Depois
repetiu o mesmo com a pontinha dos dedos. E com a mesma suavidade –
acariciou o verde da grama ainda úmida da noite. Sentiu as gotinhas
nas folhinhas já mornas pelo sol – que aquecia e iluminava com
generosa cumplicidade.

Sentiu a beleza. Sorriu para o calendário. Sim. Setembro. Primavera.
Parecia a primeira Primavera que assistia. Lembrou do compositor das
Estações do Ano. Sentiu-se tão universalmente pequena. Ele sim. Um
sábio. Festejava com acordes de violinos. Perfeito. Perfeito.

Acima os galhos das árvores balançavam com as folhas frescas e
juvenis. Havia flores para todo lado que virasse. Havia cheiro de festa.
Havia cor de alegria. Uma emoção só.

Em torno do lago o verde – fortalecido – o emoldurava. O gramado e as
árvores pareciam se utilizar da água como um espelho. Fosse feita
aquela perguntinha do existir alguém mais belo – a resposta seria fácil
desta vez. E plural. Não. Existe nada mais belo do que vocês.

Em mil formas a água – ondulando com o vento – desenhava galhos e
cores. Um ballet no ar e um ballet na água. Alguns gansos deslizavam com
total intimidade – compondo mais imagens com as ondinhas provocadas
pela passagem deles. Todos branquinhos. Pareciam tão altaneiros.
Vaidosos. Dava gosto olhar para eles.

Sentiu o cheiro. Desta vez nem respirou forte. Com toda a delicadeza
deixou aquele aroma bom de terra e árvores entrar pelo corpo. Escolheu
fechar os olhos por um instante. Não como se numa economia de
sentidos – mas para que se multiplicassem numa ordenação espontânea.
Sentiu até um festejar nas veias e artérias.

Passou o dia assim. Pelo verde. Com o verde. Através do verde.

Voltou para casa já no final da tarde. E foi óbvia. Correu para
colocar a música dos tais violinos do sábio compositor. Assim regou a
flor. Sob os lindos acordes. A primeira flor da Primavera. Assim falou
para ela enquanto molhava com respeitosa alegria as pétalas – e as
folhas do pequeno galhinho onde ela se amparava. Você é a mais linda e a
primeira flor desta Primavera.

Lembrou por um momento da sala sem janelas. Deu de ombros. Já não
importava tanto. Tudo tem o valor que cada um gradua. Enxergou – sem o
colírio. Riu. Havia mais do que paredes brancas dentro dela – e no
mundo lá fora. Estivesse onde estivesse. Há um eterno que não se pode
interferir – como a beleza de um Setembro verde.

Organizou a rotina do dia seguinte.

Advertisements
  1. No trackbacks yet.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: