Em Tempos de Colméia…

O
despertar fora da ordem do pós-folga. Nem bem sabia por onde começar. Não
decidira se reclamava ou se agradecia. Parecia uma questão fácil de resolver –
à primeira vista. Ou ao primeiro des-piscar de olhos. Mas não era.

Os
quatro dias passaram. Assim. Passaram. Como o Tempo é sádico. Só demora no que
não interessa. Lembrou o dia da banheira. O dia que chegou cedo em casa e foi imergir
na água quente. Fez uma brincadeira – Tempo de fora. Aqui só será aceito o
espaço. E quando saiu da banheira a água não tinha descido pelo ralinho. Tinha
saído para o piso do banheiro. E correu para secar e salvar toda a decoração
que fizera de mesinhas e música e velas e incensos. Correu apressada antes que
a inundação se fosse escada abaixo. E o Tempo comandou – destituindo o espaço.

A
avó da amiga não cansava de repetir. O espaço é de todos e o Tempo é dono dele
mesmo, menina, o espaço é de todos e o Tempo é dono dele mesmo.

Aprendeu
como sempre se aprende – no logo depois.

Mas
fora cautelosa. Desta vez absteve-se de comparações ou deliberações.

Quando
a noite chegou e trouxe com ela a véspera da rotina – obedeceu.

Colocou
todos os ponteiros em dia. Despertador ativado. Roupas escolhidas. Bolsa
arrumada. Material revisado. Tickets e chaves em locais visíveis. Até o
pãozinho já ficara espremido no espaço exíguo da torradeira. Tudo facilitado
para que a volta do tal pós-folga se fizesse sem transtornos. Uma metodologia
que beirava já – a insanidade. Sim. Só possuída pela insanidade seria alguém tão
detalhista de véspera. Mas se conhecia. Sabia que seria adequada esta facilitação.
E fez o que o coração mandou. Pensou esta frase e recusou. Fez o que a razão
mandou. Recusou de novo. Fez o que tinha que ser feito. Deixou.

Acordou
com o aviso do despertador. Passeou a mão pelo rosto. Sim. A pele continuava
lá. Macia. Leve. Ainda estava dentro da validade. Ela. A pele. A massagem com
desincrustação.

Torceu
para que assim continuasse depois da volta. Depois da retomada do cotidiano sem
tréguas. Nada de bandeira branca nem de – daqui a pouco. Era retomar e retomar.
Simples assim.

Enfim
desceu as escadas para por em prática – o teorizado na noite anterior. Desceu. Ligou
a torradeira. Fez o café da manhã. Em seguida deu uma passadinha na varanda –
olhou para a ladeirinha. Talvez em busca de alguma interdição. Sempre há uma
esperança em algum cantinho da fantasia. Mas nada. Algumas pessoas subiam
abraçadas a si mesmas na tentativa de aquecer o corpo. Outros mais displicentes
deixavam os braços nadarem no vai e vem do caminhar rápido. E como se num
espelho – virou-se para si mesma.

Até
ai nada de inesperado.

Olhou
para a toalha do banheiro. Vai lá saber por que – olhou. E lá estava – o
inesperado. Descansando feliz nas malhas da toalha estava uma abelha. Listinha
quase dourada no corpo encurvadinho. Anteninhas. Asinhas. Lindinha. Uma
abelhinha por inteiro. No banheiro dela. Na toalha dela. E no horário dela.

O
tempo é dono dele mesmo. Falou alto – já enxergando o relógio e o aviso de –
anda logo.

Não
fosse ela absolutamente alérgica a picada de abelha – e não haveria um problema.
Até faria uma saudação à madrugadora abelhinha. Mas ela era. Absolutamente e perigosamente
alérgica a picada de abelha. E vai lá saber o humor da abelha. Vai lá saber se
voltava de alguns dias de folga. Afinal – operárias são operárias. Não importa
a escala zoológica. E nem sempre é aconselhável intervenções bruscas em quem
retorna de um pós-folga.

Escolheu
– cautela.

Não
sabia o que fazer. Ideias não faltavam. Vieram – em auxilio – aos borbotões.

Foi
até perto dela. Vai ver era tímida e sairia. Não deu certo. Ela continuou na
toalha. Voltou. Acendeu a luz. Abriu mais a janela. Vai ver – a abelhinha – usava
algum creme facial que a luz artificial era contra indicada. Nada. Também sem
resultado.

Teve
a mais brilhante das ideias. Ao menos assim considerou. Foi em passos rápidos
até a varandinha. As pessoas – agora mais numerosas – subiam e desciam. Pegou
um vaso que sossegado estava na mesinha. Acolhia uma florzinha branca – linda e
refrescada pelo orvalho da manhã.

Foi
com o vasinho e a florzinha até perto da toalha. Acenou para a abelhinha. Até
falou – olha quem veio lhe buscar. Lá fora o dia está perfeito. E olha só que
perfume tem esta florzinha. Nada. Nem se virou para olhar a florzinha – que por
certo abandonada e magoada – foi levada de volta para a mesinha na varandinha.
Notou que o número de pessoas que subiam e desciam havia diminuído.

O
Tempo é dono dele mesmo. Falou mais alto – já olhando forte para o relógio e o
aviso mais contundente de – anda logo.

Outra
ideia iluminada. Pegou o vidrinho do perfume. Daquele que ela tanto exigia que
não faltasse. Fez uma espécie de rastro de perto da toalha até a janela do
quarto. Assim. Como um atalho etéreo digno dos deuses. A casa se encheu de
perfume. Até espirrou. Ela. Porque a abelhinha não moveu uma listinha que
fosse.

Foi
o suficiente. Se ela tem péssimo humor depois de dias de folga – eu também
tenho. Armou-se de coragem. De necessidade. De horário. De Tempo e de relógio.
Pegou uma toalhinha de papel e dobrou três vezes.

Com
delicadeza e com a firmeza que só a decisão impõe – a segurou. Certificou-se de
escapar da picada – caso ela também tivesse tomado alguma decisão com firmeza.
Vai lá saber as atitudes idiossincrásicas de uma abelha numa manhã de volta ao
trabalho.

Assim.
Com prudência mas com cuidado. A ideia era  – operárias – voltem ao trabalho. Sentiu-se
até vingada. Não seria somente ela. Não era certo. Vamos ao trabalho – nós duas.
Falou alto.

E
foi até a varanda com o papelzinho dobrado três vezes. A abelhinha
aconchegadinha dentro dele. Antes mostrou a florzinha a ela – e ela à
florzinha. Abriu o papelzinho com suavidade – e ela voou.

Não
somente ela – a abelhinha. Ela também quase repetiu o mesmo ato. Correndo pela
casa atrás do Tempo-dono-dele-mesmo.  Arrumou-se
de um passo só. Saiu pegando e colocando o tão tranquilamente projetado na
véspera – com tanta rapidez que até conferiu os sapatos no elevador. Ainda bem.
Não estava com um pé de cada par.

Chegou
– atrasada.

Alguém
fez um comentário rindo. Pensou que hoje estava de folga. Por certo acordou
tarde achando que era uma Madame. Esqueceu que é uma operária. Falou assim esta
palavra. Operária.

Temeu
pela pele. Pela massagem. Pelo desincrustamento. Lembrou dos dias de folga. Lembrou
da florzinha rejeitada. Da abelhinha mal humorada. Controlou-se. Sorriu. E
passando a mão por segurança no rosto disse um sorridente – e discreto entre os
dentes – bom dia.

E
– assim iniciou o primeiro dia de volta – à operária.


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