Abundante e Excessivo

Riu.
Saiu da lojinha. Despediu-se da mocinha. Deixou escapar um sorriso grato para a
poltrona maravilhosa que a envolvera. Recebeu o carro pelo manobrista leal – e real.
Voltou pela Avenida.

Sim.
Estava em ritmo de desaceleração. Seriam assim os dias que viriam. Desacelerados.
Poderia estabelecer uma regra. Promoveria o encontro do olhar com o que surgisse
de vontade. Estava uma verdadeira revolucionária – com causa própria.

Mas
– sem mais nem por que – sentiu algum temor.

Vai
ver por isso veio uma lembrança de repente. Invasiva. Lembrou daquele dia que
acordara muito cedo para iniciar as atividades. Acordara antes da autorização
habitual do relógio. Não voltara a dormir. Foi se organizando para as certezas
creditadas ao dia – com a lentidão permitida. Tinha tempo – disse de si para
si.

Parecia
o retorno do reprimido. Tivesse contando para os entendedores e analisadores –
era o que teria escutado. Eis o retorno do reprimido. Mas não contara – nem contaria
– a ninguém. Em especial aos analisadores. Reservara para si mesma os direitos
autorais. Descobrira naquele instante – no instante da desobediência antecipada
ao relógio – que a rotina não entra na vida das pessoas.  São as pessoas que entram com a Vida na
rotina. Assim. De cheio. Até prendeu a respiração. Tão difícil saber quando se
privilegia o nada-mudar. Ou o tudo-entender. É tão mais fácil concluir do que
observar.

Lembrou
que ficara estagnada naquele dia. O dia da tal filosofia sobre Rotina e Vida. Ficara
desfilando contra-ataques – a si mesma e às próprias ideias. E tudo num dia que
tinha tanto que fazer. Eis outra descoberta sequencial.  A Rotina não se preocupa com o que se pensa sobre
ela. Muito menos – se há um pensar. Rotina é Erínia. Silenciosa e insaciável. Alimentada
por atos e não por palavras.

Enfim.
Como sempre soube – uma ideia sempre arrasta outra. O que em nada serve de
consolo. A depender da ideia já se adivinha toda a filinha que virá desfilar.

E
aquele dia da tal descoberta não fora exceção. E o dia se fez curto – para tanta
extensão de pensamentos. Sentiu-se até sonolenta. Lembrava disso – também.  Era afastar um pensamento da tal filinha – e
já vinha outro apressadinho. Não dera um só passo naquele dia – que não fosse
em torno da quebra de algum sigilo – pessoal. Parecia uma acareação interna de
alto rigor. Teve até a impressão de uma lâmpada balançar em frente ao rosto
dela. Porque a permissão. Ou porque a concessão. Porque sempre com razão. Ou ainda
porque a negação.  

Mas
inventou mil e tantas contra ideias. Contra posições. Contra obstáculos. Contra
reformas. Foram tantos os contra – que quase viraram rotina. Neste instante
riu.

Lembrou
a avó de uma amiga. Nessas situações ninguém melhor do que a avó da amiga para
ser invocada e convocada. Daria o parecer de imediato – como alertava. A rotina
é o melhor disfarce para a nossa real temeridade, menina, a rotina é o melhor
disfarce para a nossa real temeridade.

Não
ajudou muito. Desculpou-se in memorian pela avó da amiga e preferiu que a
filinha andasse. Vai ver o próximo era mais solidário.

E
foi assim que chegou de volta em casa no dia que estabelecera como início de
dias de folga. Revendo o revisto.  Lembrando
o dia da tal filosofia.

 Já foi descendo do carro às pressas. Precisava
da própria casa. Do próprio espelho.  Até
de um ambiente reconhecidamente familiar. Nem o espelho iluminado do carro – com
aquela pequena e eficaz luzinha – serviu.

Conseguira
– ao menos – uma contra retórica. Tudo começara por uma precaução. Ou prudência.
A causa havia sido os dias de folga ao bel prazer. A consequência – por certo –
a quebra da Rotina.  Era o que
acreditava. Depois encontraria as pistas falsas dando no lugar certo. Ou vice
versa. Também poderia ser lido de trás para frente.

Falou
alto. Já sei.  A desincrustação seguida
de revitalização. Perfeito. Deve ter promovido a desorganização nos pensamentos.
Responsabilizado estava – o ato. E lá se foi liberando o que estava censurado. Ou
censurando o que estava liberado. A Rotina quebrada – recebeu toda a culpa. Lembrou
até do Russo. E implorou ao Universo – sem castigos por favor. Riu.

Na
metade do caminho da sala ao quarto – começou uma espécie de paranóia. E justo
ela que era de festividades e festejos. Nem parecia a mesma. Deveria ser uma
consequência do excesso de cremes faciais. Algo pode ter sido absorvido pelo
cérebro. E provocado a tal a revisão do revisto. Eis o culpado número dois. Lâmpada
eficiente a do interrogatório. Riu.

Ou
melhor – quase riu. Não quis alterar a organização de feixes musculares. Estava
decidida a confirmar. Não a supor. Enfim. Queria ter a certeza.  Vai ver o espelho da lojinha era contratado com
salário e tudo. Um Cúmplice Devotado da Cosmética.


foi cruzando corredor e portas – e dispensando bolsa e sacolinhas. O coitado do
creminho motivo do tratamento surpresa ficou dentro de um saquinho branco. Bem lá
caidinho na ponta de uma almofada. Desprezado até segunda intervenção.

Entrou.
Virou-se para o espelho. Luzes acesas. E sorriu. Sim. Estava bem. Nada havia
desabado ou desmanchado. Sem queimaduras. Sem mortificações. Agradeceu ao
Universo o pedido atendido. Nada de castigos. E estava apta a prosseguir nos
dias selecionados há tanto tempo – para o nada fazer.

Afastou
com um gestual – o temor.

Retomou
os objetos. O creminho foi para a prateleirinha adequada. Subiu. No terraço o
céu já escuro parecia acolher muito mais do que assustar. Deitou-se na cadeira.
Olhou as estrelas. Pensou nas mil formas de brilhos. Nas inúmeras oportunidades
do cotidiano. Nas tantas e tantas vezes que desperdiçou o olhar. Que desconsiderou
as escutas. Que se submeteu ao combinado – como se submete a uma sentença. Pensou
no significado de estar um pouco consigo mesma. Sem responder. Sem decidir. Sem
intervir numa queixa escutada – do outro.

Muitas
vezes rever o tal revisto pode ser mais ativador do que uma revitalização. E sempre
há o que desincrustar.  

Nem
bem pensou esta palavra e já foi passando a mão na testa. Não para sentir mais
uma vez a pele. Mas para ordenar. Para des-associar. Chega. Por hoje chega de
filosofias. Nem vista. Nem revista. Nem prevista.

Que
venham os dias planejados. Suficiente.

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    • Paula
    • September 12th, 2010

    Puxa, que bom que você está de volta,
    Saudades,
    Paulinha

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