Prevenindo & Revitalizando

Considerando
uma sábia decisão – efetivou a ideia. Com um dia útil recheando o domingo e o
feriado optou transformá-lo num dia útil para si mesma.

A
tal efetivação foi oficializada dois meses antes. Com total precaução e prudência
– como lhe ensinara a avó de uma amiga. Muitas vezes a escutou afirmar. Prudência
e precaução são atitudes menina, prudência e precaução são atitudes.

E
agiu cheia de boas intenções. Fechou a agenda. Organizou os atendimentos. Distribuiu
os horários. Tudo feito com muito cuidado e rigor. Devidamente protocolado.  Assim era o estilo dela. E assim fez.

Celebrou
os dias de folga com a antecedência que os planos bem elaborados permitem. Cada
vez que se sentia cansada – lembrava. Dias tais e tais – estarei de folga. E se
animava de volta à rotina estabelecida. Era uma otimista profissional.

Com
o caminhar das semanas descobriu que mais longe parece mais perto. E que mais
perto parece mais longe. Quase fundou uma nova filosofia – A Filosofia da
Expectativa. Ou um texto – O Oposto do Cronológico. Ou uma tese – Dissertação
sobre as Horas Estagnadas. Ou ainda um ensaio – Ensaio sobre a Antevisão. Até ria
das próprias ideias. Mas nada expunha. Ninguém sabia do tamanho da aflição. Sossegada
e discreta – fantasiava a teoria e aguardava a prática.

Quando
parecia mais perto – sentia aquela aflição de nem rotação nem translação
existiam mais. Mas continuou como se nada fosse com ela.

Venceu.
Com parcimônia. Com paciência. Com lucidez. E os dias chegaram. Até enviou
recadinhos. A partir das cinco horas da tarde do dia tal – estarei de folga por
quatro dias. E riu. Riu sozinha. Digitando a mensagem – e rindo.

E
o primeiro momento se fez existir. Saiu na hora certa do atendimento. Entrou no
carro. Feliz. Colocou as músicas de lá de onde viera. Não existia música melhor
para escutar diante do planejado e alcançado. Lembrou de redes balançando. De tardes
na praia. De areia morna.De água de côco no final do dia.

Mas
voltou para onde estava – e lembrou  uma
compra já adiada por falta de tempo inútil. Uma compra cosmética. Procedia.

O
trânsito àquela hora do dia e em véspera de feriado – se apresentava em Estado
de Acúmulo.

Era
o que sugeria aquela interminável fila de luzinhas vermelhas à frente.  Avisou a si mesma. Nada de reclamações. Escuta
a música e cantarola que o tempo passa. Obediente a tantos – não foi difícil obedecer
a si mesma. Fez o exigido para a situação.

E
entre um cantarolar e outro – olhou para o lado. Os olhos se anteciparam ao
raciocínio. Grudaram na placa da loja. Lá estava paradinha numa esquina bem
alegrinha e iluminada – a lojinha dos cosméticos. Assim. Em paredes brancas e azuis.
O raciocínio virou-se para o trânsito. Os olhos para a lojinha. Trocaram de
posição. E nesta de um orientar o outro – o raciocínio e o olhar – venceram as
mãos. Girou o volante.

Um
simpático e sorridente senhor se aproximou de imediato e se ofereceu para
manobrar o carro. Já foi entregando a chave e o sorriso junto com um – muito
obrigada.

Entrou
tímida. Circulou entre as prateleiras que prometiam pele de recém nascidos. Cabelos
de virgens romanas. Perfumes de deusas olímpicas. Estava assim nesse caminhar
quase etéreo quando uma voz delicada a chamou à razão. Ou ao terreno – melhor dizendo.

Posso
ajudar em algo. Assim a voz veio até ela. Em suaves decibéis – por certo para não
aterrar tão de súbito a esperança oferecida em caixinhas tão coloridas.

Avisou
o que pretendia. Mas só pretendia. Queria dados concretos e práticos sobre o
produto. Eficácia não seria questionada. Só a eficiência da conta bancária
dela. Isso sim. Precisava de um certo controle – ou a pele se despencaria. Não a
dela apenas. Incluiu a pele do gerente do Banco nisso. Era um rapaz tão jovem e
sonhador. Tinha tantos planos futuros. Achou maldade envelhecer o coitado de um
cheque só.

Fosse
um filme e não teria direção melhor.

Na
cena seguinte estava deitada numa poltrona maravilhosa. Serviço de oferta da
casa – assim foram informando. Uma forma pragmática de demonstrar a eficácia do
que vendemos. O mundo além das caixinhas. Complementou – e riram. Uma música
suave percorria o ambiente. Uma mocinha delicada fazia limpeza e “desincrustamento”
na pele dela. Assim. Este termo parecia imprescindível. A mocinha o repetiu inúmeras
vezes. Precisa de um desincrustamento facial.

Que
providencie então.

A
pele foi desincrustada. Massageada. Hidratada. Firmada. Revitalizada. Este outro
termo que a mocinha usou – também repetidas vezes – em seguida ao outro. Agora
você está revitalizada.

Uma
hora e meia depois e encerrada a sessão – assim nomeou – levantou-se. Controlou-se
para não tomar atitudes impetuosas. Mas por pouco – muito pouco – não beijou
ardorosamente o espelho. Adorou.

Pediu
ao Universo que cuidasse do gerente. Do Banco. Da conta. E comprou o proposto
inicial.

Por
um milésimo de Realidade – lembrou. É sempre assim.  Uma Realidade sempre puxa outra. Eis um
axioma. Uma verdade quase digna dos gregos. Encheu-se de súbita materialização.
Perguntou à gentil mocinha desincrustadora. Por acaso vocês aqui tem
manobrista.  Assim. Uma pergunta quase
retórica. Lembrava vagamente que alguém lhe pedira as chaves. E vaga-mente deu
até um frio na coluna. Mas não era momento de brincar com as palavras. Quase
deu uma ordem cerebral. Mas comentou. Ofereceram uma manobra. E ela cedera sem desconfianças.
Como de hábito. Este poderia até ser nomeado como Defeito. Diante do Conforto
era Ingênua. Assim. Como um Título. Tudo em maiúscula.

Inegável
a sensação. Escutar um sim fez – a tal revitalização da pele – funcionar na íntegra.

De
volta ao – ainda bem – carro já manobrado em direção à saída – olhou-se no
espelho. Sorriu. O trânsito fluía melhor. Voltou para casa pensando. Na pele. Na
revitalização. Até na avó da amiga das prudências e precauções. Só desviou o
pensamento do gerente do Banco. Ficaria para os dias úteis. Afinal – de nada
serve se atormentar por um gerente em dias inúteis. Riu. Fácil.

Estavam
deflagrados os tais – finalmente atingidos e alcançados – dias de folga.
Desincrustados e revitalizados. Perfeito.

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    • peter
    • October 8th, 2010

    Então ????

    • ana amelia m lourenção
    • September 9th, 2010

    LedaEstava sentindo falta , exatamente 2m .Adorei.BjosAna Amelia

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