Heliotropismo

O
dia amanheceu azul. Azul. Há tanto tempo não via esta tonalidade.  E assim. Expandida. Envolvente. Coisa mais
linda está o céu. O calor arrasta com ele uma brisa quente e adocicada. O branco
dos prédios avança e destaca os limites entre o abstrato e o concreto.

Que
maravilha. Ainda bem que hoje é o dia dito inútil.

Não
faltam planos. Como um plano de teatro. Vou até dividir em atos. Cena um – cena
dois. Nem sei bem quantas cenas numerei. Isso sem falar nos atos. Daria gosto
até para um inglês.  Ele ficaria
encantado.

Enfim.
Vamos cuidar de acertar os tempos. Não tem planos sem tempos certos. E o tempo
errado tem que ser banido para que os atos se façam fatos. Isso já é quase uma
evidência.

Estou
adorando esta minha fase coerente. Deve ser este encontro repentino com o azul.
Vai ver a cor cinza obstrui a imaginação. Ao menos a minha.

Melhor
já por as idéias em prática.

E
bem devagar para que ele não se assuste. Nada de gestos bruscos e impensados. Não
é de boa valia já amanhecer pedindo desculpas. Imagina num dia de céu azul – já
ir cometendo desatinos e causando sustos. Nem pensar.

Cortinas
abertas – lá está o terraço. Já fui pulando a retina do piso para a piscina. Estou
mesmo inspirada. Até rima estou fazendo. Melhor não rir. Melhor fazer o que tem
que ser feito. E com vagar. Pressa já basta a dos dias úteis.

Não
acredito. O telefone tinha que se manifestar justo agora.

Sim.
Perfeito. Confere. Mas tem ninguém com esse nome aqui. Desculpa – mas não tem. Nunca.
Nunca ouvi falar. Sim. Já disse que confere. Mas só o numero – não o nome.

Ainda
bem que desligou. Agora deixa-me voltar á minha retina acrobática. Lindo. Está tudo
lindo.

Melhor
passar para o ato dois. Ou cena dois. Bem – não importa. Deixa a dramaturgia de
lado.  Agora é cuidar de me expor ao Sol.
Faz tempo que isso não acontece. E dizem que sorrir para o Sol faz bem. Vou gargalhar
ao Sol. Deverá fazer ótimo. Excelente.

Tomara que aqueles vizinhos da frente se
esqueçam de mim. Afinal se me notarem com os dentes em situação de bronzeamento
– podem achar que preciso de ajuda. Nunca se sabe quando alguém resolve ser
amigo da comunidade em volta. Vai lá que justo hoje se preocupam com o bem-estar
do próximo.

E
o próximo poderei ser bem eu mesma e meus dentinhos expostos. Vou ficar num
cantinho da parede. É mais recatado. E prudente.

Ainda
bem que ele ainda está dormindo. E também que não sabe ler pensamento. Ia se
preocupar com esta minha fase operacional.

Enfim.
Tive mais uma idéia. Depois da pele e dentes ao sol vou fazer uma rodada
fora-de-rotina. Vou caminhar na esteira.

Também
há tempos que não faço esta atividade. Lembrei dele. Na época que eu fazia ele
ria. Dizia que eu caminhava e suava e não saia do lugar. Nem do Lugar. Naquela época
até vendi a tal esteira. Não vendi. Dei de presente a ela. Ela adorou. E disse que
preferia assim. Caminhar sem sair do lugar e ficar em forma. Perfeito. Mandei entregar
lá no dia seguinte.

E
mudei de lugar. E de Lugar.

E
agora recebo outra de presente. Incrível. Me lembrou o tal efeito bumerangue. Mas
vou caminhar sem sair do lugar. Agora já não preciso mais provar que posso
sair. Ou que quero sair. Quando quiser – posso.  Com esteira rolante ou não. Mais ou menos
assim. Nada mais de angústias existenciais. Alguma utilidade tem mesmo que ter
os anos que passam – além de causar rugas.

Rugas.
É verdade. Deve estar já no tempo de sair. Afinal meu rosto já começou a doer. Esta
novidade de bronzear dentes é bem desconfortável. Melhor dar a tal caminhadinha
na esteira e ver o que ele gostaria de fazer.

Ele
está mais calado. Também
pudera. Falo mais que o noticiário sobre a chuva. Só faltam imagens. Por que
falar – falo mesmo. E depois comento que ele está calado. Até ri agora. Mas ele
sempre repete – adoro quando você fala. Daí eu me espalho.

Imagina
se ele me visse aqui com os dentes ao Sol. Ia ficar mudo de um golpe só. Melhor
entrar e parar com esta bobagem heliofílica. Não falei. Hoje estou mesmo inspirada.
E depois do aquecimento cerebral deve melhorar ainda mais. Melhorar. Nem pensei
– piorar.

De
novo o telefone. Mas justo na hora do meu Sol. E da minha esteira. Mas vamos
lá. Senão acaba acordando a ele. Quem quis madrugada ensolarada fui eu. Ele bem
que quer dormir bem sossegado.

Sim.
Perfeito. Confere. Mas tem ninguém com esse nome aqui. Desculpa – mas não tem. Nunca.
Nunca ouvi falar. Sim. Já disse que confere. Mas só o numero – não o nome. Esta
já é a segunda vez. Vou começar a cobrar informação.

Nossa.
Que nervosa. Tem gente que não sabe mesmo adorar o Sol. E vem incomodar a quem
sabe. Pior que não entende de Sol – nem de nomes.

Que
bom que acordou. Sim. Um dia lindo. Ótima idéia. Adorei. Vamos sim. Eu estava mesmo
com muita vontade de assistir. Depois do sol e céu – é seguir numa terceira
dimensão. Nunca imaginei que teria um sábado tão carregado de cores e opções.

Vou
descer para me arrumar.

Não
sei se faz bem aos dentes – mas acho que o Sol gostou.  Do tanto que sorri para ele. Está fazendo do
meu sábado um verdadeiro avatar. Deixa para lá. Não se preocupe – estou bem. Estou
ótima. Depois explico.

Vamos
logo para não perdermos a sessão por ingressos esgotados.

 

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