Cronos Açucarado

Abriu a porta e lá estava ele. Sorrindo. Feliz. Trazia os
livros nas mãos. E se apresentou pelas capas do livro dela. Como um privilégio.
Um orgulho. Ela sorriu. Sentiu-se imensamente gratificada.  Prometeu a si mesma e exigiu da memória –
nunca mais esta cena será esquecida. E combinado é confirmado. Que se resolvam
os mistérios da mente – não importa. Importa a obediência a esta ordem.

O dia era uma data especial. Mais uma vez o Universo se fez
cúmplice. Juntou o que passou com o que chegou em uma tela só. Uniu o inaugural
ao resolvido. E um tempo único entrou em acordo.  Comemorava-se o físico e o espírito
resgatados. E ambos sãos e salvos. Até riu.

Um encontro foi agendado – um horário definido. Sobravam
bons motivos.  

Uma data importante para ser re – marcada. Esta idéia já
fora decidida pela manhã. O dia seguira a rotina – mas com um sabor especial.
Como um dia especial.

Pode-se até lembrar as dores e dissabores. Ou os temores e tremores.
Pode-se descrever as emoções. Ou as aflições. Procede. Mas é quando as
lembranças chegam – que se tem a certeza de que o passado foi se colocar no
devido lugar. Se convocado a prestar algum depoimento – cumprida a função narrativa
– retira-se. Deixando para o presente a condução da sequência escolhida. Perfeito.

Lembrou do filósofo santo. E santo filósofo. Não há passado
nem futuro. Só o presente se faz existir. Nunca entendeu tão bem. Muitas vezes
a filosofia vem muito mais nomear e nominar do que explicar. Explicação é o
estofo de ordens. Elas sim – carecem sempre de explicação.

As emoções cabem em verbetes. E mesmo que isolados – fazem
a tradução perfeita.

Alegria. Este o verbete da noite.

Foi o que todos sentiram no encontro. E cada um falou de si
pelas metáforas. Pelas verdades. Até pelos pudores e risos. Como sempre
acontece em todas as reuniões onde a familiaridade faz destaque – não importa o
estilo. Muito menos a dosagem. Cada um mais sabe do outro do que de si mesmo. Eis
porque as trocas se fazem constantes.

Ela feliz percurso coerente que o tempo trouxe – portava o
livro publicado como se anatômico fosse. Mais que um apêndice – o livro parecia
representar as mãos dela.

Ela falava de horário. De cansaço. Festejava o novo acesso
profissional. Mas não escondia todo um processo de tensão associado. Até
tentava negar – mas existem as expressões faciais. Vão se opondo sem recato ao
texto protocolar.

Ele saboreava o alivio. A dor se fora. As marcas no corpo
repetiam o pensamento do poeta indiano. Lembravam a dor – mas principalmente –
lembravam a cura. E muito tinha se apagado daquele tempo.

Ele dedicado e solidário – festejava o festejo de todos e
guardava para si as preocupações do dia de forte rotina. A imagem ficava em
destaque e a timidez de censora.

Desta vez eram os cinco. Ele estava viajando. Ela
representava – dois. Sozinha e cúmplice dos festejos – lá também celebrava. Não
faltaram chistes ou pequenas provocações. Vai lá saber onde ele está a esta
hora. Ria no estilo confiante-de-olhos-bem-abertos.

Entre a vida e a Vida – há este ato maravilhoso de celebrar
o passar dos dias.

Enfim. Diante da mesa posta e diante de tanto riso e festa –
acaba-se por entender os caminhos que viram atalhos e os atalhos que se
integram aos caminhos.

Mas de repente toda a filosofia resumiu-se numa frase
fundamental. Um convite – diga-se desta forma. Correto e coerente. Nada mais
adequado ao festejo. Um acréscimo importante. Uma decisão de peso. Quase um
júri e seu veredicto.

Entre risos e brindes – ela falou em alto e bom som. Do alto
do seu lugar representativo de dois. Virou-se para ela que confundia as mãos
com o livro publicado. Assim. Ergueu até as sobrancelhas. Um riso sutil
enfeitou a expressão. E a voz saiu suave e firme.

Vamos dividir um Bolinho de Estudante de sobremesa. Aqui
eles fazem os bolinhos de estudante do mesmo jeito que lá de onde você veio. Bem
sequinho e com canela e açúcar.

Estava estabelecido o selo da comemoração. Perfeito. Lembrou
o pensamento anterior. Prometeu a si mesma e exigiu da memória – nunca mais
esta cena será esquecida. E combinado é confirmado. Que se resolvam os mistérios
da mente – não importa. Importa a obediência a esta ordem.

À alegria dos bons resultados – se somaram o sabor
delicioso de um Bolinho de Estudante. Qual um banquete.  Delicioso.

Que venha o próximo ano.

 

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    • ana amelia
    • February 4th, 2010

    adorei a cronica, tb adoro o OBAbeijosAna Amelia(leitora fiel)

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