Adoçando Cronos

Nunca pensou em formalizar esta frase. Justo ela que vive
no ritmo do tempo certo. Não gosta de atrasos. Muito menos de adiantamentos
desnecessários – se é que existe algum necessário.

Lembrou dele. Riu. Ele sempre faz a pergunta sobre a falsa
retórica. Perfeito. Sábio.  O mundo seria
bem mais adequado sem as desgastantes falsas retóricas.  

Aprendeu desde cedo a se fazer de algoz do relógio. Controla.
Adivinha. E segue o cronometrado. Este talvez o termo mais certo. Cronometrado.
A função profissional a auxiliou nesta decisão de vida. Não se pode acelerar. Nem
retardar. Crescimento é crescimento. E baseado no tempo certo de cada um.

Mas não neste dia. Neste dia em especial acordou já comemorando
o tempo que passou. Celebrando a sensação de ter passado rápido. E passado no
sentido duplo que o termo impõe. Passado.

Acordou com este primeiro pensamento. Que bom que o tempo
passou rápido.

A memória se fez presente. Tentou resgatar o já há tanto
encerrado.

O telefonema no meio da tarde. Escuta o que laudaram em meu
exame. O silêncio seguinte. E as mil possibilidades mais inventadas do que
aventadas. Fortes na intenção. Frágeis na concepção. Exatamente como acontece
em situações como aquela.

Nunca se imaginara tão criativa. Não faltaram risos
informativos. Como um noticiário superficial. Algo tipo – chove lá fora. Mas o
susto a fez se sentir num deserto. Como se jogada de repente numa paisagem árida.
E totalmente solitária. Pediu socorro à fantasia. Imaginou árvores e frutos. Imaginou
rios e peixes. Risos e festas. Mas só viu – nada. Naquele instante – assim se
sentiu. Cega e diante do nada. Preferia ter ficado surda.

Agendamentos. Indicações. Local acertado. Hora exigida e combinada.

No ano seguinte – na mesma data – lá estavam rindo a
caminho do mar. Numa noite onde a chuva se fez verdadeira. Nada mais de
desertos. Risos no carro. Não estou enxergando. Melhor voltar. Melhor seguir. Errou
a entrada. Melhor depois daquela curva adiante. Já estamos na metade da serra. Mais
risos.

O restaurante – num píer mar adentro. Prefiro camarões. Prefiro
peixe. Prefiro. Prefiro. E cada um destacava a sua decisão.

Então é assim que funciona. Escolha é sinal de continuidade
e sintoma da sanidade. Ambas. Perfeito.

Por isso acordou
nesta manhã assim. Pensando. Ainda bem que o tempo passou – rápido. Lá se vão
dois anos.

Desceu as escadas rindo. Foi-se arrumar para a rotina. Em total
sintonia com os bons resultados

A alegria extrapolou os limites. Ou o Tempo não gosta de
piadinhas com ele. Vai lá saber. Foi organizando a saída na ordem habitual. Arrumou
os objetos da função profissional. Entrou na cozinha meio que falando sozinha –
mas não num deserto.  

Ato contínuo – derrubou o açúcar. Assim. No chão. Que pareceu
até aumentar para deixá-lo á vontade. Todo o potinho. Não faltou cantinho sem açúcar.
Nem ela foi econômica.  Com pés e pernas açucaradas
– nada reclamou. Até desculpou – vai ver algo de doce vai acontecer.

Mas ainda tinha mais – virou-se de uma vez em busca de um
paninho. Uma pazinha. Uma qualquer coisa. Quanto mais rápido – melhor.

E foi rápido mesmo. Lá se expôs o leite que estava contido
no copo. E junto ao açúcar – fizeram uma parceria rebelde – no chão. Que mais
uma vez os acolheu – agora com mais disponibilidade ainda.

Bela cena. Falou alto. E em alto e bom som.

Olhou para o relógio que da parede – tranquilo – cronometrava
toda aquela confusão. Parecia tão superior aos acontecimentos. Pensaria com
calma sobre isso – depois. O estilo superior de um relógio. Escreveria um texto
com esse título. E o rechearia de observações quase científicas.

Por agora – precisava mesmo era correr.

Correu. Entre paninhos e água e rodo e vassouras – fez quase
uma dança pagã. Não faltaram gestuais convocados e acrescidos aos já conhecidos.

Enfim – venceu. Procedia. Era justamente o dia que se
comemoravam vitórias. Vários caminhos dos trilhos depois – lá estava sentadinha
cumprindo o antigo juramento.

Eles telefonaram. Tivemos uma idéia. Ele também vai gostar. O dia de hoje celebra alegria e coragem – dele em especial. Vamos comemorar o
naquele restaurante que todos gostamos tanto. Desta vez sem a travessia da
serra. Mais perto de casa. Aliás – bem simbólico. Mais perto de casa. E o
restaurante organizou o cardápio voltado à Rainha do dia de hoje – ou ao dia de
hoje da Rainha. Perfeito. Vamos sim. E escapuliu um – Obá.

Riram. Estava re-marcada a data. Ainda bem.

Lembrou a cena da manhã. Pareceu tão lógica – olhando no
logo depois. Não havia outra forma mais adequada para celebração. Como há muito
não fazia – recordou o mestre austríaco.

Riu e olhou para o relógio. Continuava tranqüilo.

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