Archive for February, 2010

Revisado e Publicado




Foi
um final de semana dedicado ao Atalho. A chuva fez o pano de fundo do cenário. As
ideias fugiram e voltaram do espelho. A concentração oscilou entre o que
enxergava e o que acreditava.

Começou
na manhã do sábado. Finalizou na noite do domingo.

E
ali estava – Atalho – Crônicas do Dia Seguinte. Relido. Revisado. Acrescentado.

Ao
já numerado – novos foram somados.

Como
a Vida – vez ou outra é preciso reler. Eis a única forma de saber se o que foi
escrito ainda é pertinente. Ou necessário. Para que os erros mal vistos possam
ser resgatados – com consertos bem vistos.

Como
a Vida – vez ou outra é preciso decidir. Eis outra forma de saber se a validade
é proporcional à falta de realidade. E assim criar uma possibilidade de mais se
expor do que se impor.

Não
importa se as leituras mudam. Se os objetos do texto existem ou não. Toda produção
escrita se compõe de um solitário e tortuoso – relato. Assim. Como se um despudor
especial percorresse as páginas – desnudando atos e fatos.

Eis
a eterna magia da Palavra.   

Caso
queira ter em mãos – Atalho – Crônicas do Dia Seguinte – siga o seguinte
caminho:

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Heliotropismo

O
dia amanheceu azul. Azul. Há tanto tempo não via esta tonalidade.  E assim. Expandida. Envolvente. Coisa mais
linda está o céu. O calor arrasta com ele uma brisa quente e adocicada. O branco
dos prédios avança e destaca os limites entre o abstrato e o concreto.

Que
maravilha. Ainda bem que hoje é o dia dito inútil.

Não
faltam planos. Como um plano de teatro. Vou até dividir em atos. Cena um – cena
dois. Nem sei bem quantas cenas numerei. Isso sem falar nos atos. Daria gosto
até para um inglês.  Ele ficaria
encantado.

Enfim.
Vamos cuidar de acertar os tempos. Não tem planos sem tempos certos. E o tempo
errado tem que ser banido para que os atos se façam fatos. Isso já é quase uma
evidência.

Estou
adorando esta minha fase coerente. Deve ser este encontro repentino com o azul.
Vai ver a cor cinza obstrui a imaginação. Ao menos a minha.

Melhor
já por as idéias em prática.

E
bem devagar para que ele não se assuste. Nada de gestos bruscos e impensados. Não
é de boa valia já amanhecer pedindo desculpas. Imagina num dia de céu azul – já
ir cometendo desatinos e causando sustos. Nem pensar.

Cortinas
abertas – lá está o terraço. Já fui pulando a retina do piso para a piscina. Estou
mesmo inspirada. Até rima estou fazendo. Melhor não rir. Melhor fazer o que tem
que ser feito. E com vagar. Pressa já basta a dos dias úteis.

Não
acredito. O telefone tinha que se manifestar justo agora.

Sim.
Perfeito. Confere. Mas tem ninguém com esse nome aqui. Desculpa – mas não tem. Nunca.
Nunca ouvi falar. Sim. Já disse que confere. Mas só o numero – não o nome.

Ainda
bem que desligou. Agora deixa-me voltar á minha retina acrobática. Lindo. Está tudo
lindo.

Melhor
passar para o ato dois. Ou cena dois. Bem – não importa. Deixa a dramaturgia de
lado.  Agora é cuidar de me expor ao Sol.
Faz tempo que isso não acontece. E dizem que sorrir para o Sol faz bem. Vou gargalhar
ao Sol. Deverá fazer ótimo. Excelente.

Tomara que aqueles vizinhos da frente se
esqueçam de mim. Afinal se me notarem com os dentes em situação de bronzeamento
– podem achar que preciso de ajuda. Nunca se sabe quando alguém resolve ser
amigo da comunidade em volta. Vai lá que justo hoje se preocupam com o bem-estar
do próximo.

E
o próximo poderei ser bem eu mesma e meus dentinhos expostos. Vou ficar num
cantinho da parede. É mais recatado. E prudente.

Ainda
bem que ele ainda está dormindo. E também que não sabe ler pensamento. Ia se
preocupar com esta minha fase operacional.

Enfim.
Tive mais uma idéia. Depois da pele e dentes ao sol vou fazer uma rodada
fora-de-rotina. Vou caminhar na esteira.

Também
há tempos que não faço esta atividade. Lembrei dele. Na época que eu fazia ele
ria. Dizia que eu caminhava e suava e não saia do lugar. Nem do Lugar. Naquela época
até vendi a tal esteira. Não vendi. Dei de presente a ela. Ela adorou. E disse que
preferia assim. Caminhar sem sair do lugar e ficar em forma. Perfeito. Mandei entregar
lá no dia seguinte.

E
mudei de lugar. E de Lugar.

E
agora recebo outra de presente. Incrível. Me lembrou o tal efeito bumerangue. Mas
vou caminhar sem sair do lugar. Agora já não preciso mais provar que posso
sair. Ou que quero sair. Quando quiser – posso.  Com esteira rolante ou não. Mais ou menos
assim. Nada mais de angústias existenciais. Alguma utilidade tem mesmo que ter
os anos que passam – além de causar rugas.

Rugas.
É verdade. Deve estar já no tempo de sair. Afinal meu rosto já começou a doer. Esta
novidade de bronzear dentes é bem desconfortável. Melhor dar a tal caminhadinha
na esteira e ver o que ele gostaria de fazer.

Ele
está mais calado. Também
pudera. Falo mais que o noticiário sobre a chuva. Só faltam imagens. Por que
falar – falo mesmo. E depois comento que ele está calado. Até ri agora. Mas ele
sempre repete – adoro quando você fala. Daí eu me espalho.

Imagina
se ele me visse aqui com os dentes ao Sol. Ia ficar mudo de um golpe só. Melhor
entrar e parar com esta bobagem heliofílica. Não falei. Hoje estou mesmo inspirada.
E depois do aquecimento cerebral deve melhorar ainda mais. Melhorar. Nem pensei
– piorar.

De
novo o telefone. Mas justo na hora do meu Sol. E da minha esteira. Mas vamos
lá. Senão acaba acordando a ele. Quem quis madrugada ensolarada fui eu. Ele bem
que quer dormir bem sossegado.

Sim.
Perfeito. Confere. Mas tem ninguém com esse nome aqui. Desculpa – mas não tem. Nunca.
Nunca ouvi falar. Sim. Já disse que confere. Mas só o numero – não o nome. Esta
já é a segunda vez. Vou começar a cobrar informação.

Nossa.
Que nervosa. Tem gente que não sabe mesmo adorar o Sol. E vem incomodar a quem
sabe. Pior que não entende de Sol – nem de nomes.

Que
bom que acordou. Sim. Um dia lindo. Ótima idéia. Adorei. Vamos sim. Eu estava mesmo
com muita vontade de assistir. Depois do sol e céu – é seguir numa terceira
dimensão. Nunca imaginei que teria um sábado tão carregado de cores e opções.

Vou
descer para me arrumar.

Não
sei se faz bem aos dentes – mas acho que o Sol gostou.  Do tanto que sorri para ele. Está fazendo do
meu sábado um verdadeiro avatar. Deixa para lá. Não se preocupe – estou bem. Estou
ótima. Depois explico.

Vamos
logo para não perdermos a sessão por ingressos esgotados.

 

Cronos Açucarado

Abriu a porta e lá estava ele. Sorrindo. Feliz. Trazia os
livros nas mãos. E se apresentou pelas capas do livro dela. Como um privilégio.
Um orgulho. Ela sorriu. Sentiu-se imensamente gratificada.  Prometeu a si mesma e exigiu da memória –
nunca mais esta cena será esquecida. E combinado é confirmado. Que se resolvam
os mistérios da mente – não importa. Importa a obediência a esta ordem.

O dia era uma data especial. Mais uma vez o Universo se fez
cúmplice. Juntou o que passou com o que chegou em uma tela só. Uniu o inaugural
ao resolvido. E um tempo único entrou em acordo.  Comemorava-se o físico e o espírito
resgatados. E ambos sãos e salvos. Até riu.

Um encontro foi agendado – um horário definido. Sobravam
bons motivos.  

Uma data importante para ser re – marcada. Esta idéia já
fora decidida pela manhã. O dia seguira a rotina – mas com um sabor especial.
Como um dia especial.

Pode-se até lembrar as dores e dissabores. Ou os temores e tremores.
Pode-se descrever as emoções. Ou as aflições. Procede. Mas é quando as
lembranças chegam – que se tem a certeza de que o passado foi se colocar no
devido lugar. Se convocado a prestar algum depoimento – cumprida a função narrativa
– retira-se. Deixando para o presente a condução da sequência escolhida. Perfeito.

Lembrou do filósofo santo. E santo filósofo. Não há passado
nem futuro. Só o presente se faz existir. Nunca entendeu tão bem. Muitas vezes
a filosofia vem muito mais nomear e nominar do que explicar. Explicação é o
estofo de ordens. Elas sim – carecem sempre de explicação.

As emoções cabem em verbetes. E mesmo que isolados – fazem
a tradução perfeita.

Alegria. Este o verbete da noite.

Foi o que todos sentiram no encontro. E cada um falou de si
pelas metáforas. Pelas verdades. Até pelos pudores e risos. Como sempre
acontece em todas as reuniões onde a familiaridade faz destaque – não importa o
estilo. Muito menos a dosagem. Cada um mais sabe do outro do que de si mesmo. Eis
porque as trocas se fazem constantes.

Ela feliz percurso coerente que o tempo trouxe – portava o
livro publicado como se anatômico fosse. Mais que um apêndice – o livro parecia
representar as mãos dela.

Ela falava de horário. De cansaço. Festejava o novo acesso
profissional. Mas não escondia todo um processo de tensão associado. Até
tentava negar – mas existem as expressões faciais. Vão se opondo sem recato ao
texto protocolar.

Ele saboreava o alivio. A dor se fora. As marcas no corpo
repetiam o pensamento do poeta indiano. Lembravam a dor – mas principalmente –
lembravam a cura. E muito tinha se apagado daquele tempo.

Ele dedicado e solidário – festejava o festejo de todos e
guardava para si as preocupações do dia de forte rotina. A imagem ficava em
destaque e a timidez de censora.

Desta vez eram os cinco. Ele estava viajando. Ela
representava – dois. Sozinha e cúmplice dos festejos – lá também celebrava. Não
faltaram chistes ou pequenas provocações. Vai lá saber onde ele está a esta
hora. Ria no estilo confiante-de-olhos-bem-abertos.

Entre a vida e a Vida – há este ato maravilhoso de celebrar
o passar dos dias.

Enfim. Diante da mesa posta e diante de tanto riso e festa –
acaba-se por entender os caminhos que viram atalhos e os atalhos que se
integram aos caminhos.

Mas de repente toda a filosofia resumiu-se numa frase
fundamental. Um convite – diga-se desta forma. Correto e coerente. Nada mais
adequado ao festejo. Um acréscimo importante. Uma decisão de peso. Quase um
júri e seu veredicto.

Entre risos e brindes – ela falou em alto e bom som. Do alto
do seu lugar representativo de dois. Virou-se para ela que confundia as mãos
com o livro publicado. Assim. Ergueu até as sobrancelhas. Um riso sutil
enfeitou a expressão. E a voz saiu suave e firme.

Vamos dividir um Bolinho de Estudante de sobremesa. Aqui
eles fazem os bolinhos de estudante do mesmo jeito que lá de onde você veio. Bem
sequinho e com canela e açúcar.

Estava estabelecido o selo da comemoração. Perfeito. Lembrou
o pensamento anterior. Prometeu a si mesma e exigiu da memória – nunca mais
esta cena será esquecida. E combinado é confirmado. Que se resolvam os mistérios
da mente – não importa. Importa a obediência a esta ordem.

À alegria dos bons resultados – se somaram o sabor
delicioso de um Bolinho de Estudante. Qual um banquete.  Delicioso.

Que venha o próximo ano.

 

Adoçando Cronos

Nunca pensou em formalizar esta frase. Justo ela que vive
no ritmo do tempo certo. Não gosta de atrasos. Muito menos de adiantamentos
desnecessários – se é que existe algum necessário.

Lembrou dele. Riu. Ele sempre faz a pergunta sobre a falsa
retórica. Perfeito. Sábio.  O mundo seria
bem mais adequado sem as desgastantes falsas retóricas.  

Aprendeu desde cedo a se fazer de algoz do relógio. Controla.
Adivinha. E segue o cronometrado. Este talvez o termo mais certo. Cronometrado.
A função profissional a auxiliou nesta decisão de vida. Não se pode acelerar. Nem
retardar. Crescimento é crescimento. E baseado no tempo certo de cada um.

Mas não neste dia. Neste dia em especial acordou já comemorando
o tempo que passou. Celebrando a sensação de ter passado rápido. E passado no
sentido duplo que o termo impõe. Passado.

Acordou com este primeiro pensamento. Que bom que o tempo
passou rápido.

A memória se fez presente. Tentou resgatar o já há tanto
encerrado.

O telefonema no meio da tarde. Escuta o que laudaram em meu
exame. O silêncio seguinte. E as mil possibilidades mais inventadas do que
aventadas. Fortes na intenção. Frágeis na concepção. Exatamente como acontece
em situações como aquela.

Nunca se imaginara tão criativa. Não faltaram risos
informativos. Como um noticiário superficial. Algo tipo – chove lá fora. Mas o
susto a fez se sentir num deserto. Como se jogada de repente numa paisagem árida.
E totalmente solitária. Pediu socorro à fantasia. Imaginou árvores e frutos. Imaginou
rios e peixes. Risos e festas. Mas só viu – nada. Naquele instante – assim se
sentiu. Cega e diante do nada. Preferia ter ficado surda.

Agendamentos. Indicações. Local acertado. Hora exigida e combinada.

No ano seguinte – na mesma data – lá estavam rindo a
caminho do mar. Numa noite onde a chuva se fez verdadeira. Nada mais de
desertos. Risos no carro. Não estou enxergando. Melhor voltar. Melhor seguir. Errou
a entrada. Melhor depois daquela curva adiante. Já estamos na metade da serra. Mais
risos.

O restaurante – num píer mar adentro. Prefiro camarões. Prefiro
peixe. Prefiro. Prefiro. E cada um destacava a sua decisão.

Então é assim que funciona. Escolha é sinal de continuidade
e sintoma da sanidade. Ambas. Perfeito.

Por isso acordou
nesta manhã assim. Pensando. Ainda bem que o tempo passou – rápido. Lá se vão
dois anos.

Desceu as escadas rindo. Foi-se arrumar para a rotina. Em total
sintonia com os bons resultados

A alegria extrapolou os limites. Ou o Tempo não gosta de
piadinhas com ele. Vai lá saber. Foi organizando a saída na ordem habitual. Arrumou
os objetos da função profissional. Entrou na cozinha meio que falando sozinha –
mas não num deserto.  

Ato contínuo – derrubou o açúcar. Assim. No chão. Que pareceu
até aumentar para deixá-lo á vontade. Todo o potinho. Não faltou cantinho sem açúcar.
Nem ela foi econômica.  Com pés e pernas açucaradas
– nada reclamou. Até desculpou – vai ver algo de doce vai acontecer.

Mas ainda tinha mais – virou-se de uma vez em busca de um
paninho. Uma pazinha. Uma qualquer coisa. Quanto mais rápido – melhor.

E foi rápido mesmo. Lá se expôs o leite que estava contido
no copo. E junto ao açúcar – fizeram uma parceria rebelde – no chão. Que mais
uma vez os acolheu – agora com mais disponibilidade ainda.

Bela cena. Falou alto. E em alto e bom som.

Olhou para o relógio que da parede – tranquilo – cronometrava
toda aquela confusão. Parecia tão superior aos acontecimentos. Pensaria com
calma sobre isso – depois. O estilo superior de um relógio. Escreveria um texto
com esse título. E o rechearia de observações quase científicas.

Por agora – precisava mesmo era correr.

Correu. Entre paninhos e água e rodo e vassouras – fez quase
uma dança pagã. Não faltaram gestuais convocados e acrescidos aos já conhecidos.

Enfim – venceu. Procedia. Era justamente o dia que se
comemoravam vitórias. Vários caminhos dos trilhos depois – lá estava sentadinha
cumprindo o antigo juramento.

Eles telefonaram. Tivemos uma idéia. Ele também vai gostar. O dia de hoje celebra alegria e coragem – dele em especial. Vamos comemorar o
naquele restaurante que todos gostamos tanto. Desta vez sem a travessia da
serra. Mais perto de casa. Aliás – bem simbólico. Mais perto de casa. E o
restaurante organizou o cardápio voltado à Rainha do dia de hoje – ou ao dia de
hoje da Rainha. Perfeito. Vamos sim. E escapuliu um – Obá.

Riram. Estava re-marcada a data. Ainda bem.

Lembrou a cena da manhã. Pareceu tão lógica – olhando no
logo depois. Não havia outra forma mais adequada para celebração. Como há muito
não fazia – recordou o mestre austríaco.

Riu e olhou para o relógio. Continuava tranqüilo.

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