Descendo das Ondas

Acordou de um pulo só.  Então era verdade. Já tinham se encerrado as
férias. Tudo isso pensou enquanto tentava desligar o tal toque do – vamos logo.
As mãos ainda se entendendo em férias – demoravam em encontrar o botão certo. E
o aviso se repetia – firme em seu propósito.

Então é assim. Até as mãos têm
memória.

Enfim conseguiu. Mas fez uma
observação. Memória fraca essa das mãos. Pensou sem muito riso nem muita
emoção.

Só pensou. O despertador avisava
frio e calculista. Com a precisão tão eficiente que até margeava a crueldade. Acabou.
 

Passara dez dias caminhando diante
do mar. Em direção ao mar. Em volta do mar. Dentro do mar. O mundo ficou
reduzido – ao mar.

Ficou surpresa com a fertilidade de idéias.
 

Era acordar – e lá se vinham mil idéias.
Escreveria sobre tantos assuntos. Os temas se misturavam. Sentia-se como se possuída
por um encantamento – de palavras. Foi tão forte que teve que recorrer a um
protocolo. E se delimitou. Até aqui sou eu. Daqui para lá são as idéias. Como uma
fronteira para que perdidos e achados – não se fizessem sinônimos.

E seguia caminhando em silêncio em
direção ao mar.

Perigosas são as caminhadas
solitárias e silenciosas. Ficam preenchidas do – posso. Até do – sou. Ricas em
espaço e seguras no sem rumo – e embriagadas de si mesmas – mais provocam do
que realizam.

Eis o motivo do tal estabelecimento de
fronteira. No início imaginou-se dona de tudo. Aos poucos foi se resignando por
ter tão pouco. Oscilou até por entre a dúvida inglesa. Lembrou do risco que as
idealizações causam. Foi-se desfazendo de imagens e se reconstruindo por
limites geométricos – digamos assim.

Não era artista. Não sabia pintar. Não
era poeta. Não sabia rimar. Não era atriz. Não sabia interpretar. Não era
sequer atleta. Não sabia nadar.

Mas sabia caminhar e imaginar. E fazia
isso muito bem – obrigada. Era a escritora e leitora de si mesma. Sem criticas.
Sem pontuações. Sem regras ortográficas. Uma beleza.

Sentava diante do mar. Esticava
pernas e braços quase desfazendo a lei rigorosa da anatomia. Libertava os
cabelos. Sentia o vento úmido fazer a parceria com o corpo. E olhando para o
mar – percorria mundos além da tal linha do horizonte.

Criou novas teorias cientificas – o calor
faz acelerar as contrações cerebrais. Novas teorias sociais – o calor facilita os
aglomerados apagando castas e raças. Novas teorias da inspiração – o calor
estimula a sensibilidade pela pele exposta. Sem falar na teoria da sedução – o
calor ensandece a circulação.

Até riu. Riu de si mesma e do olhar
do outro.

Riu pelo olhar dela.

Numa dessas caminhadas – por ela passou
uma senhora recatada e talvez pouco participativa nas teorias. Por cima da
roupa – a tal senhora sem teorias – colocara uma blusinha com mangas compridas.
Um sapato de salto alardeava a sua vinda nas pedrinhas da calçada. Cabelos presos
mostravam alguma urgência na saída.

Era o oposto do dia. Desconsiderava –
de uma passada só – o sol e o calor. Foi ai que se deu conta. Quando riu das
teorias recém criadas e quase com registro em direitos autorais.

Caminhava e ria – sozinha. Ela a
olhara – espantada. Procedia. Teve vontade de explicar – estou de férias diante
do mar. Estou sofrendo um encantamento de palavras.

Mas nada falou – achou de pouca
cautela. Melhor mesmo seguir o caminho junto com as tais palavras. Vai ver a
tal senhora estava sob algum encantamento de atos. São misturas que não funcionam
muito bem quando não há alguma intimidade. Melhor deixar cada uma com o próprio
encantamento.

Ela passou. Olhou pra trás. Seguiu marcando
a calçada com o som dos saltos. Até virar a esquina ainda escutava o caminhar
dela.

 Foi como um desencantamento súbito. O contrário
da estrelinha. Então já acabou. Sentiu-se igual à senhora do salto alardeante.  Igual a ela – parecia ter virado a esquina. E o
som se encerrado.

Desceu as escadas. Retomou de onde
tinha deixado.

Entrou no caminho dos trilhos. Lamentou
a troca de sons. Nada mais de ondas. Agora só curvas e retas. Acomodou-se o melhor
que pode.  Juntou a anatomia conforme
originada. Sentiu-se destituída – das teorias. Leu o aglomerado – pelo avesso. Sentiu
a pele – pelo encolher de si mesma. De sedução a contenção – e assim a circulação se
fez resfriada.

Estava de volta ao tão já antigo
combinado. Teve uma dúvida súbita. Assim. Nascida tão rápida quanto as teorias
sob o sol. Estaria fechando ou abrindo as cortinas. Não teve tempo de finalizar
tão delicada questão.

Ela entrou avisando. Desde cedo
estão todos aí. E sentiram sua falta.

Nada mais de cortinas. Muito menos
de palcos. Deu uma rápida espiadinha pela janela – chovia forte.  Olhou para ela e concordou.

Que entre então o próximo. Sorriu.  


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    • ana amelia m lourenção
    • January 29th, 2010

    LedaAdorei, esta cronica já é parte do novo livro?BeijosAna Amelia

    • Cris
    • January 29th, 2010

    Oi Lêda! Pelo visto já separou o seu novo livro do blog… Fui até ao Clube de Autores para ver se já estava lá. Avise quando estiver pronto, ok? Eu parei de escrever porque não tenho tido tempo por causa do trabalho, mas sinto a maior falta… Tudo de bom. Beijocas!!!

    • Anonymous
    • February 18th, 2010

    affffff, parece q posso ouvir estas frasesssss, q saudadeeeee

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