Archive for January 29th, 2010

Descendo das Ondas

Acordou de um pulo só.  Então era verdade. Já tinham se encerrado as
férias. Tudo isso pensou enquanto tentava desligar o tal toque do – vamos logo.
As mãos ainda se entendendo em férias – demoravam em encontrar o botão certo. E
o aviso se repetia – firme em seu propósito.

Então é assim. Até as mãos têm
memória.

Enfim conseguiu. Mas fez uma
observação. Memória fraca essa das mãos. Pensou sem muito riso nem muita
emoção.

Só pensou. O despertador avisava
frio e calculista. Com a precisão tão eficiente que até margeava a crueldade. Acabou.
 

Passara dez dias caminhando diante
do mar. Em direção ao mar. Em volta do mar. Dentro do mar. O mundo ficou
reduzido – ao mar.

Ficou surpresa com a fertilidade de idéias.
 

Era acordar – e lá se vinham mil idéias.
Escreveria sobre tantos assuntos. Os temas se misturavam. Sentia-se como se possuída
por um encantamento – de palavras. Foi tão forte que teve que recorrer a um
protocolo. E se delimitou. Até aqui sou eu. Daqui para lá são as idéias. Como uma
fronteira para que perdidos e achados – não se fizessem sinônimos.

E seguia caminhando em silêncio em
direção ao mar.

Perigosas são as caminhadas
solitárias e silenciosas. Ficam preenchidas do – posso. Até do – sou. Ricas em
espaço e seguras no sem rumo – e embriagadas de si mesmas – mais provocam do
que realizam.

Eis o motivo do tal estabelecimento de
fronteira. No início imaginou-se dona de tudo. Aos poucos foi se resignando por
ter tão pouco. Oscilou até por entre a dúvida inglesa. Lembrou do risco que as
idealizações causam. Foi-se desfazendo de imagens e se reconstruindo por
limites geométricos – digamos assim.

Não era artista. Não sabia pintar. Não
era poeta. Não sabia rimar. Não era atriz. Não sabia interpretar. Não era
sequer atleta. Não sabia nadar.

Mas sabia caminhar e imaginar. E fazia
isso muito bem – obrigada. Era a escritora e leitora de si mesma. Sem criticas.
Sem pontuações. Sem regras ortográficas. Uma beleza.

Sentava diante do mar. Esticava
pernas e braços quase desfazendo a lei rigorosa da anatomia. Libertava os
cabelos. Sentia o vento úmido fazer a parceria com o corpo. E olhando para o
mar – percorria mundos além da tal linha do horizonte.

Criou novas teorias cientificas – o calor
faz acelerar as contrações cerebrais. Novas teorias sociais – o calor facilita os
aglomerados apagando castas e raças. Novas teorias da inspiração – o calor
estimula a sensibilidade pela pele exposta. Sem falar na teoria da sedução – o
calor ensandece a circulação.

Até riu. Riu de si mesma e do olhar
do outro.

Riu pelo olhar dela.

Numa dessas caminhadas – por ela passou
uma senhora recatada e talvez pouco participativa nas teorias. Por cima da
roupa – a tal senhora sem teorias – colocara uma blusinha com mangas compridas.
Um sapato de salto alardeava a sua vinda nas pedrinhas da calçada. Cabelos presos
mostravam alguma urgência na saída.

Era o oposto do dia. Desconsiderava –
de uma passada só – o sol e o calor. Foi ai que se deu conta. Quando riu das
teorias recém criadas e quase com registro em direitos autorais.

Caminhava e ria – sozinha. Ela a
olhara – espantada. Procedia. Teve vontade de explicar – estou de férias diante
do mar. Estou sofrendo um encantamento de palavras.

Mas nada falou – achou de pouca
cautela. Melhor mesmo seguir o caminho junto com as tais palavras. Vai ver a
tal senhora estava sob algum encantamento de atos. São misturas que não funcionam
muito bem quando não há alguma intimidade. Melhor deixar cada uma com o próprio
encantamento.

Ela passou. Olhou pra trás. Seguiu marcando
a calçada com o som dos saltos. Até virar a esquina ainda escutava o caminhar
dela.

 Foi como um desencantamento súbito. O contrário
da estrelinha. Então já acabou. Sentiu-se igual à senhora do salto alardeante.  Igual a ela – parecia ter virado a esquina. E o
som se encerrado.

Desceu as escadas. Retomou de onde
tinha deixado.

Entrou no caminho dos trilhos. Lamentou
a troca de sons. Nada mais de ondas. Agora só curvas e retas. Acomodou-se o melhor
que pode.  Juntou a anatomia conforme
originada. Sentiu-se destituída – das teorias. Leu o aglomerado – pelo avesso. Sentiu
a pele – pelo encolher de si mesma. De sedução a contenção – e assim a circulação se
fez resfriada.

Estava de volta ao tão já antigo
combinado. Teve uma dúvida súbita. Assim. Nascida tão rápida quanto as teorias
sob o sol. Estaria fechando ou abrindo as cortinas. Não teve tempo de finalizar
tão delicada questão.

Ela entrou avisando. Desde cedo
estão todos aí. E sentiram sua falta.

Nada mais de cortinas. Muito menos
de palcos. Deu uma rápida espiadinha pela janela – chovia forte.  Olhou para ela e concordou.

Que entre então o próximo. Sorriu.  


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