Primo Non Nocere

O almoço fora programado com antecedência. Os convites
distribuídos em tempo dito hábil.  As agendas
adequando-se a uma quebra da rotina.

Assim foi durante a semana. A comemoração
antecipada visava uma homenagem. Aos que lá trabalham. Cumprindo suas funções. Minimizando
dores. Provocando risos. Acalmando angústias. Acolhendo aflições.

 Sejam quais
forem as incertezas. Partindo de onde partirem. Há toda uma metodologia para diminuir
ou impedir sofrimentos.

 Um almoço
comemorativo. Assim ficou acertado. Em tal dia. Em tal hora.

O salão foi aberto pontualmente. Como deve
ser. Uma disciplina é sempre requerida. Seja no festejo. Seja no cotidiano. Não
importa. Disciplina também é uma das formas de expor respeito. E dispor
hierarquia. Enfim. Na hora exata – abriram o salão.

As mesas estavam lindas. Toalhas vermelhas sobre
forro branco davam um brilho de alegria. As taças avisavam cores e sabores. Os mais
próximos se agrupavam em volta de lugares escolhidos. O riso e o murmurinho
lembravam que nem só de pão.

A camerata se postava em frente. E ao suave e
doce som dos acordes – foi iniciado o ato festivo. E daqui e de lá se escutavam
cumprimentos e confraternizações.

Convidado – ele subiu para o pronunciamento.

Lembrei dos milhares de discursos que já
escutei. Das inúmeras falsas analogias e eufemismos que sempre os discursos
carregam. E das muitas e muitas delongas que tanto desconfortam.

Mas não desta vez.

Assim começou. Com citação em Latim. Primo non
nocere. Primeiro não prejudicar. Primeiro não ferir. A frase atribuída ao
primeiro de todos – foi repetida diante de todos nós. Seguidores no juramento e
no trabalho.

Foi um belo discurso. Adequado ao fato. Identificado
com o ato. Qual um recordatório. Mas sem demandas.

Fiquei pensando na frase de abertura.

Nos que ali estavam. Ocupando e agilizando o
próprio Lugar. E nos que já se foram. Mas que de vazio deixaram apenas o espaço.
A memória preenche muitas falas. Como disse o poeta. Ressuscitar começa pela
palavra – do outro. E ao escutar os nomes dos que se foram – senti uma presença
não da matéria. Essa já não importa. Mas do contexto. Do trabalho exercido. Sem
a nítida separação de dia e noite. De casa e trabalho. De segunda ou feriado.

Convocados em seus nomes – deixavam a força do
seu profissionalismo exposto. Perfeito.   

Enfim. Passeei pelos caminhos das escolhas. Olhei
para ela que estava ao meu lado. Vi que – emocionada com a escuta- disfarçava
uma lágrima afoita.

As expressões mudavam. Cada um convivendo com
o próprio registro.  Com a vocação
descoberta sabe-se lá como. Por isso mesmo – misteriosa. Não há resposta
satisfatória para quando alguém requer uma explicação objetiva. Um porque.

Não se sabe exatamente a época. Não se entende
perfeitamente os motivos. Vai muito além do pragmático. E de repente a decisão
surge. E uma elaboração prossegue. E todo um novo equilíbrio se faz necessário.
Desde a primeira aula. Desde o primeiro aviso. Desde o primeiro morto que
ensina.

E uma vez diante de quem pede alívio – nunca mais
se desprende do ato em si.  

Lembrei de um comentário que ele me fez. Há muitos
anos. Num daqueles dias de final exaustivo de trabalho que se ameaça um – para mim chega. Ri. Ele me viu
organizando um jantar. Um simples jantar.

Olhou para mim. E muito sério falou. Ou, melhor,
fez uma observação. Com tom de voz calma. Uma vez pertencente a esta categoria –
jamais se libera. Você está arrumando um jantar. Mas não apenas organizando
pratos e talheres. Você está organizando como quem cuida. É isso que faz de
você – a sua escolha.

Lembro que fiquei em silêncio. Uma espécie de
siga a seta. E me senti acalmada. E feliz.

Primeiro não ferir. Primeiro não prejudicar. Seja
no que for. Seja da forma que for. Mas é preciso estar em estado de – para
entender. Para introjetar. E acatar. Há todo um sentimento não esclarecido. Mas
nem por isso menos estabelecido.

Aplaudi a fala do colega que discursou – com batimentos
felizes de aurículas e ventrículos. E sinceras sístoles e diástoles.

Voltei na hora certa para cuidar da agenda. Subi
rindo as escadas. Foi uma bela comemoração.

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    • Cris
    • October 19th, 2009

    Adorei Lêda! Talvez pela época, motivos e decisão relacionados comigo… Talvez pelo tanto que ele esteja certo. Bjs!

    • ana amelia
    • October 17th, 2009

    Leda, muito bonito, tb estava lá.Beijos, Ana

    • Anonymous
    • October 18th, 2009

    lidooo achei super incrivel a descrição que vc faz. PARABENS…

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