O Menino no Metro

A
decisão foi ótima. Sim. Café da manhã ao estilo oriental. Nada do habitual
ocidental. Sem horários e sem tarefas. Maravilhoso. Um contraponto à realidade
da rotina. Com o passaporte imaginário de turistas. Pelo menos esta a intenção.

Perfeito.
Viva a Liberdade. E com a cidade esvaziada. Tudo bem mais fácil e bizarro. Como
uma excursão dentro de casa. Mais ou menos assim. Vamos ver os contornos como
dificilmente o fazemos. Rimos. A Filosofia realmente é dependente do
nada-braçal. Assim ele arrematou o discurso.


acordamos comemorando a temperatura. Sem mangas compridas. Sem botas. Sem casacos.
Uma verdadeira libertação. Ao menos de braços e pernas. Rimos e saímos.


na descida sentimos o ambiente modificado. A ladeira vazia. Só um ou outro
passinho provocava eco. Muitas lojinhas abertas. Poucos visitantes lá dentro.

Descemos
para o nosso percurso sobre trilhos.

Desta
vez não estava lotado. Assentos vazios se dispunham como ofertas simbólicas. Em
todos os espaços. Era um final de feriado prolongado. Por certo muitos haviam saído
da cidade. Trocas se fizeram. Lotaram as estradas. Os aeroportos. Os caminhos
de subida e descida. E deixaram os da rotina esvaziados. Procede.

Tudo
se passou com a rapidez de um virar de cabeça. E invejei ferozmente os artistas
plásticos. Um mínimo de dom. E poderia repassar toda uma emoção. Por que aquela
composição merecia uma tela.  Até um óleo
sobre tela.

Ela
parecia bem envelhecida. Muito mais que a cronologia. Sentada – diante de si
mesma. Uma sacola preta – parecendo pesada – estava aos pés dela. Talvez amparando
mais do que amparada. Usava óculos de lentes mais espessas. Os cabelos iam até
os ombros. Lisos. Desalinhados. Fios brancos cruzavam através de fios tingidos.
Sem maquillage. Não parecia sofrer deste dito grande problema. A mal falada vaidade.

Vez
ou outra arrumava a bolsa preta – também envelhecida – no colo. Desconfiada
talvez do clima – portava um cachecol. Leve no tecido – mas pesado na cor. Azul
escuro. Caia sobre uma blusa branca com botões pretos. A saia preta se unia ao preto
gasto dos sapatos. Assim estava ela. Sentada.  

A
expressão era misteriosa. Não sei se feliz. Se preocupada. Ou se até ausente em
pensamento. Apenas estava sentada. E cuidava dos poucos pertences. Mas também
de forma algo displicente. Não parecia cuidadosa. Nem consigo mesma. Nem com os
objetos.

Ele
estava sentadinho ao lado dela. Deveria ter talvez oito anos. Magrinho. Cabelos
castanhos cortado bem curtinhos. Mas que não impedia que uma franjinha de raros
fios lhe caísse pela testa. Talvez ainda não conhecesse a prudência da
desconfiança. Estava com uma bermudinha vermelha. Uma camisetinha de mangas
curtas branca. Um tênis. Meias curtas branquinhas.

Foi
um instante especial.

Ele
olhava em frente. Caladinho. Mas notei que ergueu um pouco os olhinhos. Como se
uma lembrança boa o tivesse visitado. Um possível pensamento surpresa. Naquele especial
instante.

Abriu
mais os olhos. Acomodou-se melhor no assento. Virou-se para ela. Que continuava
olhando para frente. Mesmo que na frente nada pudesse ver. Só uma janelinha que
passeava pelo percurso escuro.

Mas
ele a olhou. Deu um sorriso leve. Sorriso de criança. Feliz.

Passou
o braço por dentro do braço dela. Se amparou um pouco. Fez uma expressão especial.
Um sorriso. Um meio sorriso. Não sei. Como se a proteção do mundo estivesse
definida. Ali. Com seu pequeno bracinho por entre o braço dela. Com a cabeça
encostada nela. Numa diagonal de afeto encontrado.

De
repente foi como se o mundo tivesse uma nova rotação. De paz. De tranqüilidade absoluta.
De segurança. Impossível descrever em palavras uma emoção. Lembrei até o poeta.
Ele estava certo. As verdadeiras emoções
ocorrem em um terreno onde uma palavra jamais pisou.

Não
sei se a palavra foi antes. Ou se viria depois. Ou se poderia ser dispensada. Nem
importa.

Mas
não lembro ter visto nada parecido. Com a expressão dele. Com o gesto do abraço
lateral. Confiante no ombro certo. Sim. Tudo ali parecia certo. Perfeitamente certo.

E
se há uma avaliação isenta de erros – é a avaliação da infância. Ao menos
enquanto a infância é infância.

Ela
parecia ter voltado. Olhou para ele. Deu um sorriso leve enquanto cedia o braço.
E também se aconchegou. Já não dava mais para saber quem se sentia seguro com quem.
De onde vinha o amparo.

Nossa
parada chegou.  Antes da deles. Mas não resisti.
Olhei para trás. Ela parecia rejuvenescida de repente. A atitude descuidada se
modificara. Estava agora em parceria. Talvez assim reconhecida.

Sorri
para ele. Que me devolveu o riso. Olhou mais uma vez para ela. Apertou mais
ainda o braço. Parecia orgulhoso. E ela parecia feliz.

Desci
dispensando o tal passaporte imaginário de turista. 

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    • Paula
    • October 19th, 2009

    Lêda, você continua descortinando a magia dos pequenos acontecimentos cotidianos,
    É um grande prazer compartilhar de sua otica privilegiada,
    um beijo

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