Na Medida Certa

Nunca
saíra daquela pequena cidade. Nascera e se tornara adulta no mesmo bairro. Toda
a vida circulara diante dos mesmos códigos.

O
bairro onde nascera portava uma simbologia. Vinha de um tempo de escravos. Mas se
chamava Liberdade. Havia música pelas esquinas. Havia danças. Rituais ecléticos
preenchiam de esperanças os corações. A comida era vendida nas ruas – o que
dava um cheiro peculiar.

Tudo
funcionava como se fora um universo particular. Girando não sei se dentro ou
fora – do universo social.

Ali
fora alfabetizada. Orientada. Vinha de um núcleo familiar pequeno. Apenas mais
uma irmã. Cedo conheceu o parceiro. Cedo casou. Mudaram-se com os poucos
pertences e presentes para uma casa pequena. Próxima da família de ambos. E lá
ficaram por toda a vida.

Um
dia avisou. De um ímpeto só. Escolhera mais um outro futuro. Trabalharia na
área da saúde. O marido se surpreendeu. Desde quando. Por que. Para que.  Melhor ficar a fazer o que tem em casa.

As
perguntas foram muitas. As insinuações mais ainda. Desconsiderou uma por uma. Continuou
apenas informando a composição da decisão.

Vai
lá saber o que despertou nela. Nunca soube ao certo a causa. Mas lidou muito
bem com as consequências.

Estudou
com dificuldade. Precisava trabalhar para completar o curso. Precisava de
livros. De roupas brancas. De material próprio. Mas na mesma proporção das dificuldades
– encontrou soluções. Não tinha a quem solicitar. Se é assim – concluiu –
solicito a mim mesma.  

Trabalhou.
Noite e dia. Intercalando livros com cuidados da casa e do filho recém nascido.
Amamentou com ele no colo e o livro na mesinha ao lado. Assim estudava. Lavou e
passou roupa recitando nomes e técnicas de procedimentos.  

Decorou
pequenas fórmulas. Revisou contas.  

Enfim
concluiu o curso. Fez um concurso. Público. Aprovada- entrou para o seu primeiro
emprego. Feliz. Conseguira.

E
lá está há quarenta anos. Quarenta anos. Neste mesmo emprego. Sem faltas. Sem atrasos.
Sem queixas. Muitos entraram e saíram. Muitos chefiaram. Muitos outros desistiram.
Mas ela continuou. Decisão é parceira da existência. Uma vez conquistada – para
sempre priorizada.    

O
filho cresceu. O marido mais apressado – se foi numa noite depois de algum
sofrimento. Cuidou dele até o final. Chorou. E foi guardando as lembranças nas
dobras do lencinho.  

Assim
poderia ser contada a vida dela. Desse jeito linear. Mas nem sempre a vida
entende que pode assim ser vivida. E surge uma contramão aqui ou ali. Um desvio.

 De tanto cuidar – descuidou de si mesma. E o
corpo não perdoa descuidos. Cobra. Aponta. Expõe.

Fez
a cirurgia. Chorou quando lembrou o tempo que amamentava. Chorou pelo passado. Pelo
presente. E pelas perdas. E duvidou – pela primeira vez – do futuro. E talvez
pela primeira vez na vida toda – reclamou. Desaprovou.

Mas
sabia fazer rimas. E continuou. Lutou.  

E
durante essa poesia que inventou – surgiu uma oportunidade. Única. E para ela. Que
nunca de lá saíra. Que nunca atravessara outros mares. Nem terras. Nem
sotaques. Para ela o Mundo era muito maior que um globo. Ou um planeta. Era de uma
imensidão que assustava. E quando pensava assim – segurava o portão da casa com
força.

Mas
recebeu um convite. Talvez até uma ordem. Vou mandar lhe buscar. Você ficará um
mês aqui. Com todos nós. Desde que saímos daí sonhamos com esse dia.  Agora o dia chegou. Vai passear pela cidade. Vai
descansar. Vai conhecer onde moramos. Vai escutar outros sons. Virá de avião. Nada
de estrada.

Eis
uma imagem inesquecível. Ela sozinha. Com uma roupa branca. Um casaquinho bege
sobre os ombros. Uma pequena valise nas mãos. Um sorriso tão feliz que –
incontido – saiu dela e iluminou todo o saguão.

Veio.
Abraçou um por um que a aguardava. Escaparam lagriminhas emocionadas. E falou. Então
é assim. Então estou aqui. E só demoraram duas horas e vinte minutos. Pensei que
fosse tão longe.  

E
o mês se fez alegre. Trocou de Liberdade. E celebrou também a nova. Fez-se de econômica
a consumidora. De curiosa a integrada.

E
como na Vida não existe Matemática nem lógica – quando retornou – repetiu os
exames. Estava curada. Já não temia. Aprendera sobre distâncias e espaços. Sobre
limites e infinitos.

E nunca
mais segurou – assustada – o portão da casa com força.


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    • Cris
    • October 8th, 2009

    Vi neste post algumas semelhanças com a história da minha avó. Muito bom saber que, mais do que um final feliz, a vida continua… Abs!

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