Entre o Sol e o Mapa

Não
há um só dia que não nos encontremos. Os cumprimentos são
rápidos e risonhos. Assim. De forma despretensiosa. E superficial. Ele sempre
apressado. Eu sempre apressada. São muitos os horários a serem cumpridos. E muito
mais agendas a serem atendidas.

Ele
com um caminhar mais pesado. Mas sempre uma expressão alegre. O riso fácil emoldura
os fortes traços orientais. Um sotaque marcado ainda denuncia a imigração não
muito longínqua. 

Assim
nos falávamos. Entre uma subida ou descida de escada. Os elevadores demoram
muito. O jeito é caminhar. Ele sempre acrescentava. Faz bem à saúde. Este o
máximo de diálogo.

Mas
nesse dia falamos mais um pouco. Além das escadas. E dos cumprimentos
superficiais.

Surgiu
uma oportunidade. Num mesmo percurso. E lá fomos contando um pouco dos pontos
biográficos. Ao menos os que pareciam mais destacados.  

Viera
de muito longe. De uma travessia quase igual ao sol.

Começou
pelo avô. O avô era como um personagem de um livro. Era o sábio da aldeia. Respeitado
e reverenciado. Jovens e idosos de todas as idades o consultavam. Indicava poções
ou dava conselhos.

Era
um velhinho calmo. De olhar tranquilo. Mas de profundo conhecimento dos riscos
do corpo mal compreendido – sob o peso da alma mal entendida. Enxergava a
possibilidade da cura como uma exclusiva ação de equilíbrio entre os dois.   

Observara
o avô – por toda a infância. Morara lá até os doze anos de idade. Um dia o pai o
avisara. Vamos nos mudar. Para lá. Será melhor para todos nós. Vou primeiro. Depois
mando buscá-los.

Um
ano depois estava se despedindo. Do avô. Deu-lhe triste o que seria de fato o
último abraço. Dos amigos. Dos hábitos. Dos cheiros. Da terra. Até dos risos.

A
mãe embalara o que tinha de importante. Privilegiou fotos e quadrinhos da casa.
Entre roupas e sapatos abrigou o mais que pode da própria história. Lembra dela
entregando a chave da casa a um novo proprietário. Mas trancando ela mesma a
porta – antes de entregar. Notou um tremor discreto das mãos dela.

Ele
veio tão assustado que lembra a dor que sentia ao respirar. Nunca escutara
falar deste país. Nem sabia em que lado da Geografia deveria olhar. E nem
olhou.

Aprendeu
logo depois que as distâncias não são bem explicadas nos mapas.   

Nesta
parte do relato riu. Um riso triste. No terceiro dia que aqui chegou – estava matriculado
e frequentando uma escola pública.

Não
sabia o idioma. Não entendia as brincadeiras dos colegas. Não compreendia as
ordens dadas. Entrou em uma fase de silêncio profundo. Talvez gestante de si
mesmo. Nem em casa falava. E durante esse período teve um aprendizado especial.
 Aprendeu a ler as expressões. Podia não entender
o que falavam. Ou os chistes em volta dele. Mas já sabia ler muito bem as
pequenas maldades e criticas negativas. Pela forma do olhar – sabia o pensamento
de cada um.

Até
hoje é grato a ela. Talvez o tenha ajudado a nascer de si mesmo. Ficava com ele
após as aulas. Todos os dias. Tentava ensinar um pouco mais. Os sons das letras.
A forma de melhorar o sotaque. As rotinas da cidade. A compreensão de fusos e
latitudes.

Não
tinha o avô sábio por perto. Mas tinha uma sábia professora ao lado. Se sentiu
mais tranqüilo.

Trinta
e cinco anos se passaram. Desde aquele terceiro dia de imigrante. E primeiro
dia de aula.

Em
meio a esse tempo um diploma lhe foi entregue. Contou-me que escolheu esta
especialidade por um motivo simples. A forma de se referir por si só já é bela.
Dar a luz. A maioria vai até lá feliz. E de lá sai mais feliz ainda. Até hoje
se emociona com os nascimentos. E se encanta diante do tal milagre da vida. Quando
dá algum conselho – lembra do avô. E se esforça para ensinar o equilíbrio.

Mas
fez uma espécie de aspas na conversa. Contou. Logo que se graduou – fez questão
de retornar. Passaria lá um mês. Entre os seus de origem. Reconheceria o que
deixara para trás. Apertaria as mãos dos amigos. Resgataria os hábitos. Sentiria
os cheiros. Tocaria na terra. Esbanjaria os risos. Reveria os códigos.

Foi
assim que aprendeu que as distâncias não são bem explicadas – nos mapas.

Viu-se
estrangeiro. De lá. Concluiu com certa nostalgia. Ali não mais pertencia. Era um
visitante – em desacordo. Voltou – sete quilos mais magro. Doente e em desequilíbrio
– a alma e o corpo.

Entrou
em sua casa do lado de cá. Sentou-se na primeira cadeira que encontrou. Deitou
as malas no chão. Olhou em volta. Mais do que a captura de si mesmo – estava
feito a sua re-integração. Talvez pela primeira vez na vida tenha compreendido
as palavras do avô.

Recuperou
rápido peso e saúde. E desta vez não esperou o terceiro dia. No dia seguinte já
estava exercendo a sua função escolhida. Sorridente. Adequado. Com sotaque ainda
marcado – mas com chistes compartilhados.

Nos despedimos com um até breve. Entendi um pouco mais – o amplo milagre da Vida. Desde um
avô que nunca conheci aos riscos no mapa – aprendi que uma história se compõe sempre além
de si mesma.

Lembrei da frase. E a palavra uma vez lançada voa irrevogável.         

Procede.


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    • lia marques
    • October 7th, 2009

    que texto lindo!!!Sempre me encanta sua capacidade de descrever e "traduzir"os fatos que para a maioria das pessoas seria corriqueiro e vc coloca colorido, emoçao , sentimentos, fantasia…..vc é o máximno!!!bjs L.

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