Archive for October, 2009

Primo Non Nocere

O almoço fora programado com antecedência. Os convites
distribuídos em tempo dito hábil.  As agendas
adequando-se a uma quebra da rotina.

Assim foi durante a semana. A comemoração
antecipada visava uma homenagem. Aos que lá trabalham. Cumprindo suas funções. Minimizando
dores. Provocando risos. Acalmando angústias. Acolhendo aflições.

 Sejam quais
forem as incertezas. Partindo de onde partirem. Há toda uma metodologia para diminuir
ou impedir sofrimentos.

 Um almoço
comemorativo. Assim ficou acertado. Em tal dia. Em tal hora.

O salão foi aberto pontualmente. Como deve
ser. Uma disciplina é sempre requerida. Seja no festejo. Seja no cotidiano. Não
importa. Disciplina também é uma das formas de expor respeito. E dispor
hierarquia. Enfim. Na hora exata – abriram o salão.

As mesas estavam lindas. Toalhas vermelhas sobre
forro branco davam um brilho de alegria. As taças avisavam cores e sabores. Os mais
próximos se agrupavam em volta de lugares escolhidos. O riso e o murmurinho
lembravam que nem só de pão.

A camerata se postava em frente. E ao suave e
doce som dos acordes – foi iniciado o ato festivo. E daqui e de lá se escutavam
cumprimentos e confraternizações.

Convidado – ele subiu para o pronunciamento.

Lembrei dos milhares de discursos que já
escutei. Das inúmeras falsas analogias e eufemismos que sempre os discursos
carregam. E das muitas e muitas delongas que tanto desconfortam.

Mas não desta vez.

Assim começou. Com citação em Latim. Primo non
nocere. Primeiro não prejudicar. Primeiro não ferir. A frase atribuída ao
primeiro de todos – foi repetida diante de todos nós. Seguidores no juramento e
no trabalho.

Foi um belo discurso. Adequado ao fato. Identificado
com o ato. Qual um recordatório. Mas sem demandas.

Fiquei pensando na frase de abertura.

Nos que ali estavam. Ocupando e agilizando o
próprio Lugar. E nos que já se foram. Mas que de vazio deixaram apenas o espaço.
A memória preenche muitas falas. Como disse o poeta. Ressuscitar começa pela
palavra – do outro. E ao escutar os nomes dos que se foram – senti uma presença
não da matéria. Essa já não importa. Mas do contexto. Do trabalho exercido. Sem
a nítida separação de dia e noite. De casa e trabalho. De segunda ou feriado.

Convocados em seus nomes – deixavam a força do
seu profissionalismo exposto. Perfeito.   

Enfim. Passeei pelos caminhos das escolhas. Olhei
para ela que estava ao meu lado. Vi que – emocionada com a escuta- disfarçava
uma lágrima afoita.

As expressões mudavam. Cada um convivendo com
o próprio registro.  Com a vocação
descoberta sabe-se lá como. Por isso mesmo – misteriosa. Não há resposta
satisfatória para quando alguém requer uma explicação objetiva. Um porque.

Não se sabe exatamente a época. Não se entende
perfeitamente os motivos. Vai muito além do pragmático. E de repente a decisão
surge. E uma elaboração prossegue. E todo um novo equilíbrio se faz necessário.
Desde a primeira aula. Desde o primeiro aviso. Desde o primeiro morto que
ensina.

E uma vez diante de quem pede alívio – nunca mais
se desprende do ato em si.  

Lembrei de um comentário que ele me fez. Há muitos
anos. Num daqueles dias de final exaustivo de trabalho que se ameaça um – para mim chega. Ri. Ele me viu
organizando um jantar. Um simples jantar.

Olhou para mim. E muito sério falou. Ou, melhor,
fez uma observação. Com tom de voz calma. Uma vez pertencente a esta categoria –
jamais se libera. Você está arrumando um jantar. Mas não apenas organizando
pratos e talheres. Você está organizando como quem cuida. É isso que faz de
você – a sua escolha.

Lembro que fiquei em silêncio. Uma espécie de
siga a seta. E me senti acalmada. E feliz.

Primeiro não ferir. Primeiro não prejudicar. Seja
no que for. Seja da forma que for. Mas é preciso estar em estado de – para
entender. Para introjetar. E acatar. Há todo um sentimento não esclarecido. Mas
nem por isso menos estabelecido.

Aplaudi a fala do colega que discursou – com batimentos
felizes de aurículas e ventrículos. E sinceras sístoles e diástoles.

Voltei na hora certa para cuidar da agenda. Subi
rindo as escadas. Foi uma bela comemoração.

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O Menino no Metro

A
decisão foi ótima. Sim. Café da manhã ao estilo oriental. Nada do habitual
ocidental. Sem horários e sem tarefas. Maravilhoso. Um contraponto à realidade
da rotina. Com o passaporte imaginário de turistas. Pelo menos esta a intenção.

Perfeito.
Viva a Liberdade. E com a cidade esvaziada. Tudo bem mais fácil e bizarro. Como
uma excursão dentro de casa. Mais ou menos assim. Vamos ver os contornos como
dificilmente o fazemos. Rimos. A Filosofia realmente é dependente do
nada-braçal. Assim ele arrematou o discurso.


acordamos comemorando a temperatura. Sem mangas compridas. Sem botas. Sem casacos.
Uma verdadeira libertação. Ao menos de braços e pernas. Rimos e saímos.


na descida sentimos o ambiente modificado. A ladeira vazia. Só um ou outro
passinho provocava eco. Muitas lojinhas abertas. Poucos visitantes lá dentro.

Descemos
para o nosso percurso sobre trilhos.

Desta
vez não estava lotado. Assentos vazios se dispunham como ofertas simbólicas. Em
todos os espaços. Era um final de feriado prolongado. Por certo muitos haviam saído
da cidade. Trocas se fizeram. Lotaram as estradas. Os aeroportos. Os caminhos
de subida e descida. E deixaram os da rotina esvaziados. Procede.

Tudo
se passou com a rapidez de um virar de cabeça. E invejei ferozmente os artistas
plásticos. Um mínimo de dom. E poderia repassar toda uma emoção. Por que aquela
composição merecia uma tela.  Até um óleo
sobre tela.

Ela
parecia bem envelhecida. Muito mais que a cronologia. Sentada – diante de si
mesma. Uma sacola preta – parecendo pesada – estava aos pés dela. Talvez amparando
mais do que amparada. Usava óculos de lentes mais espessas. Os cabelos iam até
os ombros. Lisos. Desalinhados. Fios brancos cruzavam através de fios tingidos.
Sem maquillage. Não parecia sofrer deste dito grande problema. A mal falada vaidade.

Vez
ou outra arrumava a bolsa preta – também envelhecida – no colo. Desconfiada
talvez do clima – portava um cachecol. Leve no tecido – mas pesado na cor. Azul
escuro. Caia sobre uma blusa branca com botões pretos. A saia preta se unia ao preto
gasto dos sapatos. Assim estava ela. Sentada.  

A
expressão era misteriosa. Não sei se feliz. Se preocupada. Ou se até ausente em
pensamento. Apenas estava sentada. E cuidava dos poucos pertences. Mas também
de forma algo displicente. Não parecia cuidadosa. Nem consigo mesma. Nem com os
objetos.

Ele
estava sentadinho ao lado dela. Deveria ter talvez oito anos. Magrinho. Cabelos
castanhos cortado bem curtinhos. Mas que não impedia que uma franjinha de raros
fios lhe caísse pela testa. Talvez ainda não conhecesse a prudência da
desconfiança. Estava com uma bermudinha vermelha. Uma camisetinha de mangas
curtas branca. Um tênis. Meias curtas branquinhas.

Foi
um instante especial.

Ele
olhava em frente. Caladinho. Mas notei que ergueu um pouco os olhinhos. Como se
uma lembrança boa o tivesse visitado. Um possível pensamento surpresa. Naquele especial
instante.

Abriu
mais os olhos. Acomodou-se melhor no assento. Virou-se para ela. Que continuava
olhando para frente. Mesmo que na frente nada pudesse ver. Só uma janelinha que
passeava pelo percurso escuro.

Mas
ele a olhou. Deu um sorriso leve. Sorriso de criança. Feliz.

Passou
o braço por dentro do braço dela. Se amparou um pouco. Fez uma expressão especial.
Um sorriso. Um meio sorriso. Não sei. Como se a proteção do mundo estivesse
definida. Ali. Com seu pequeno bracinho por entre o braço dela. Com a cabeça
encostada nela. Numa diagonal de afeto encontrado.

De
repente foi como se o mundo tivesse uma nova rotação. De paz. De tranqüilidade absoluta.
De segurança. Impossível descrever em palavras uma emoção. Lembrei até o poeta.
Ele estava certo. As verdadeiras emoções
ocorrem em um terreno onde uma palavra jamais pisou.

Não
sei se a palavra foi antes. Ou se viria depois. Ou se poderia ser dispensada. Nem
importa.

Mas
não lembro ter visto nada parecido. Com a expressão dele. Com o gesto do abraço
lateral. Confiante no ombro certo. Sim. Tudo ali parecia certo. Perfeitamente certo.

E
se há uma avaliação isenta de erros – é a avaliação da infância. Ao menos
enquanto a infância é infância.

Ela
parecia ter voltado. Olhou para ele. Deu um sorriso leve enquanto cedia o braço.
E também se aconchegou. Já não dava mais para saber quem se sentia seguro com quem.
De onde vinha o amparo.

Nossa
parada chegou.  Antes da deles. Mas não resisti.
Olhei para trás. Ela parecia rejuvenescida de repente. A atitude descuidada se
modificara. Estava agora em parceria. Talvez assim reconhecida.

Sorri
para ele. Que me devolveu o riso. Olhou mais uma vez para ela. Apertou mais
ainda o braço. Parecia orgulhoso. E ela parecia feliz.

Desci
dispensando o tal passaporte imaginário de turista. 

Seis à Mesa

Ao
final do dia – o cheiro invadiu a casa.

Lembrei
do livro. O autor – já bem vivido – explicava. O paladar começa pelo nariz.
Perfeito. Nunca li nada mais adequado. Nem importam os dados da Fisiologia. Ou
da Anatomia. Muito mais vale a Filosofia. Não existe órgão do sentido
excludente. Eis uma táctil e aromática verdade.


acordei assim. Como guiada pela
manufatura. Ou pela ansiedade das mãos.

O
dia amanhecera um pouco silencioso. Diante de um frio insistente em ficar. E de
uma garoa persistente em desobedecer. Nada de espaço primaveril. Mas as
estações devem ter lá um próprio manual de instruções. Que sigam – de acordo. E
que nós daqui nos adaptemos – sem acordo.

Enfim
esta não é a minha tarefa.

A
minha daquele dia já havia sido definida. Há trinta e dois anos. Agora era uma
questão apenas operacional.

E
desde cedo comecei os preparativos. Mas não sem uma organização. Coloquei música.
Em um sequência que surgiu de repente. Nada muito programado. Mas acatado. Como
um ritual. Talvez seja assim a arte da manipulação dos alimentos. Muito mais
que facas e pratinhos. Um ritual especial – por si só – se estabelece e se
confirma. Alheios a nós. E tantas e tantas vezes sequer percebemos.

Desta
vez foi especial. Fiz como que compactuando. Ao menos dentro do possível de uma
racionalidade.

Corta.
Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

A
música se fez sábia. Sim. Nada do que foi
será igual ou do jeito que já foi um dia.

As
mãos e ingredientes se fizeram um só. Difícil até saber quem comandava quem. Ou
o que.

Mas
lá fiquei. Entre músicas e memórias. E aí foi impossível não lembrar a minha
avó. Ela repetia com muita segurança. Cozinhar e viver – é a arte de saber
dosar, menina, cozinhar e viver – é a arte de saber dosar. Procede.

Corta.
Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

Olhei
para o colorido dos ingredientes. Para a disposição deles em panelas e pratos. Parecia
uma rosa dos ventos. Ri. Vai lá saber de onde saiu esta idéia. Vai ver foi da música
que tocava. Amanheceu o espetáculo. Como
uma chuva de pétalas.
Ri e continuei dando toques e retoques. Afinal – não é
só de boa intenção que sobrevive o paladar.

A
esta altura já estava misturando mais ingredientes que os da realidade
culinária. Tentei me acalmar. Deve ser assim que se cozinha. Uma pitada de
história. Uma ponta de saudade. Um ramo de alegria. Uma colher de nostalgia.
Uma dose de contradição. E por aí vai. O importante é estar em sincronia com o
processo. Um erro em cada parceria – uma pitada que seja – e lá se vai o doce
sabor do proposto.

E
foi em meio a tantos rituais e conclusões – que ao final do dia – o cheiro
invadiu a casa.

Delicado.
Independente. Intenso. Surpreendente. Delicioso.

Saiu
de dentro dos continenti e se espalhou. Pela cozinha. Pela sala. Por todas as
varandas. Subiu as escadas. Passou pelo terraço. Mexeu com os deuses. Sorriu para
o Banquete. E voltou – completo – para dentro de onde saíra.

Ao
final da tarde – parei. O dia cabia dentro da noite que chegava.

Na
cozinha os sinais de guerra estavam já apagados. Tudo parecia composto de magia.
E não deixava de ser. Não havia sinal de ato braçal. E sim de ato manual. Pode
parecer semelhante – mas não é.

Continuei. Agora caminhando e olhando em volta. Gostei do que vi. A mesa posta em tons suaves. Tudo em azul e
branco. Num canto discreto orquídeas cor-de-rosa. Penduradinhas em seus cachos
faziam o contraste mais belo. As taças altas pareciam sair de pedestais. A sala
se enfeitava com efeitos múltiplos de um festejo conquistado.

A
campainha tocou. Eles chegaram. Parecia até nome de filme. Seis à mesa. Ri. Os brindes
foram feitos. Votos renovados. Fotos atualizadas.

A
música continuou. Parceira simbólica dos
gestos e falas. Godiamo, la tazza e il cantico la notte abbella e il
riso.

Estava
confirmada a comemoração. E já parte da história de todos nós.

Colorindo a Véspera

Eis
uma lição que não aprendia. Mesmo com a advertência da avó. Sempre tratava a
véspera como se o dia marcado já fosse. Enfim – este o estilo dela. E algumas
vezes – dava bem certo. Vai ver por isso persistia.

E
desta vez não foi diferente. Lógico. Desde a véspera estava em torno do
festejo.

Ontem. Tudo acontecera ontem.

Casualmente
pudera sair mais cedo da atividade. E lá se foi bem feliz. Animada – até se diria.
 Planejara com cuidado o trajeto. O meio
para seguir o trajeto. Tudo bem adequado. O objetivo já estava definido.

A
temperatura caiu. Estava com ares de primavera. Ela. Mas a temperatura não. O vento
do inverno viera sabe-se lá de onde fazer parceria com uma consistente chuva.

Mas
não se incomodou. Muitas vezes é bom caminhar no frio. E na chuva. Desdenhou e seguiu. Perfeito.


chegou. Olhou. Virou. Mexeu. Rondou. Escolheu. Ou melhor –
confirmou o que já havia escolhido há alguns meses.

Sim.
Ele iria adorar. Eis mais uma certeza diante de si. Conhecia bem o jeito dele. Afinal
ela o ensinara desde bem pequeno. Conforto em primeiro lugar. Para que os
instantes de preguiça sejam bem tratados. São especiais esses instantes. E muitas
vezes se esquece de agradá-los com o acolhimento que merecem.

Tudo
muito bem. Resolvido. Restava apenas um detalhe. Mínimo. Aliás – de mínimo só o
tal detalhe. Por que o presente não. Era grande. Poderia ser medido em cúbicos.
E vinha dentro de uma linda – e enorme – sacola vermelha. De uma elegância de
dar gosto. Mas este o detalhe mínimo que esquecera. Fora sobre trilhos.

Mas
aguarda mais um. O próximo. Depois desse. Só mais uma chance. Algum deverá vir
mais vazio. Eu e minhas ideias. Mas enfim. Somos mesmo uma boa dupla. Minhas ideias
e eu. E lógico. Agarrada à minha bela sacola vermelha. Já somos quase um trio. Tudo
bem que até lembra um trio carnavalesco. Bem que poderiam ter criado uma cor
mais discreta. Um volume deste ficaria melhor num tom bege. Café com leite. Ocre.
Sei lá. Mas usaram e abusaram da iluminação.

Foi
pensando assim. Com muita calma e parcimônia – que deu certo. Conseguiu chegar de
volta em casa. Com sua bela sacola vermelha. A esta altura – já do agrado.


estava quase acendendo as velinhas e comendo o bolo. Riu.

Sentou-se
diante do excesso de rubro. E de repente não estava mais ali. Ela. Lembrou do
dia. Daquele dia há trinta e dois anos.

Um
dia mágico. Pela primeira vez saberia o que é este sentimento. Lembra de alguém
lhe arrumando os cabelos. Pediu que fizessem uma trança. Os cabelos eram
longos. Uma voz saltou rápida. Quase um grito. Não. Parem já. Trança não pode. Os
índios dizem que não faz bem nesta situação. Não entendeu bem o que os índios
faziam ali. Mas nem tentou questionar. Acatou. Acataram. Soltaram o trançado de
imediato. E alguém lhe fez algo que deveria ser um-sei-lá-o-que.

E
assim foi. Deitada na maca. Assustada. Mas feliz.

Escutou
o primeiro tom de comunicação dele com o mundo. Um chorinho surgiu em meio aos
movimentos de médicos e enfermeiras. E os fez parar e compartilhar da emoção.

Fixou
em todos – sorrisos. Escutou algumas observações. Tudo bem. É perfeito. É lindo.
Ele veio – com ele enroladinho. Ainda chorando. Colocou deitadinho sobre o
tórax dela.

Olhou.
Jamais esqueceria esta imagem. Jamais esqueceu.

Tocou
na pele macia. Ainda úmida. Passou a mão pelos cabelinhos. Ele pareceu se aconchegar.
E parou o chorinho. Um conhecimento e um reconhecimento se estabeleceram. De imediato.
E para sempre.  

E
entendeu o amor materno. Neste instante. Diante de alguns. Diante de si mesma. Dentro
de uma sala gelada. Tremendo de frio. E de alegria. Uma emoção impossível de se
transcrever. Uma emoção que tão-somente se inscreve. E dentro de cada um.

Chorou.
Sentiu o coração bater mais forte.

Disse-lhe
um bem vindo. Baixinho e emocionado. Eu amo você. De agora em diante não saberei
mais o que é Vida sem você.

O
telefone. Quase deu um pulo quando escutou o toque. O som a tirou de lá. E a
trouxe de volta para cá. Não estava deitada na maca. Mas sentada no sofá da
sala. E bem em frente – a sacola vermelha.

Mas
sorriu ao escutar a voz. Era ele. Queria contar sobre a surpresa de um
presente. Quase caíra de costas. Era o que queria. A cor era azul. E tinha uma
lista branca na lateral. Por dentro bege. Bem esperto. Riram. Festejaram.
Combinaram como seria o dia
seguinte. Este sim. O dia exato.

Quando
desligou continuou rindo. Lembrou uma frase muito comum. Mas nem por isso menos
verdadeira. Simples e objetiva como toda sabedoria. Quem herda aos seus não degenera.


estava ele comemorando também de véspera.  Perfeito.

Na Medida Certa

Nunca
saíra daquela pequena cidade. Nascera e se tornara adulta no mesmo bairro. Toda
a vida circulara diante dos mesmos códigos.

O
bairro onde nascera portava uma simbologia. Vinha de um tempo de escravos. Mas se
chamava Liberdade. Havia música pelas esquinas. Havia danças. Rituais ecléticos
preenchiam de esperanças os corações. A comida era vendida nas ruas – o que
dava um cheiro peculiar.

Tudo
funcionava como se fora um universo particular. Girando não sei se dentro ou
fora – do universo social.

Ali
fora alfabetizada. Orientada. Vinha de um núcleo familiar pequeno. Apenas mais
uma irmã. Cedo conheceu o parceiro. Cedo casou. Mudaram-se com os poucos
pertences e presentes para uma casa pequena. Próxima da família de ambos. E lá
ficaram por toda a vida.

Um
dia avisou. De um ímpeto só. Escolhera mais um outro futuro. Trabalharia na
área da saúde. O marido se surpreendeu. Desde quando. Por que. Para que.  Melhor ficar a fazer o que tem em casa.

As
perguntas foram muitas. As insinuações mais ainda. Desconsiderou uma por uma. Continuou
apenas informando a composição da decisão.

Vai
lá saber o que despertou nela. Nunca soube ao certo a causa. Mas lidou muito
bem com as consequências.

Estudou
com dificuldade. Precisava trabalhar para completar o curso. Precisava de
livros. De roupas brancas. De material próprio. Mas na mesma proporção das dificuldades
– encontrou soluções. Não tinha a quem solicitar. Se é assim – concluiu –
solicito a mim mesma.  

Trabalhou.
Noite e dia. Intercalando livros com cuidados da casa e do filho recém nascido.
Amamentou com ele no colo e o livro na mesinha ao lado. Assim estudava. Lavou e
passou roupa recitando nomes e técnicas de procedimentos.  

Decorou
pequenas fórmulas. Revisou contas.  

Enfim
concluiu o curso. Fez um concurso. Público. Aprovada- entrou para o seu primeiro
emprego. Feliz. Conseguira.

E
lá está há quarenta anos. Quarenta anos. Neste mesmo emprego. Sem faltas. Sem atrasos.
Sem queixas. Muitos entraram e saíram. Muitos chefiaram. Muitos outros desistiram.
Mas ela continuou. Decisão é parceira da existência. Uma vez conquistada – para
sempre priorizada.    

O
filho cresceu. O marido mais apressado – se foi numa noite depois de algum
sofrimento. Cuidou dele até o final. Chorou. E foi guardando as lembranças nas
dobras do lencinho.  

Assim
poderia ser contada a vida dela. Desse jeito linear. Mas nem sempre a vida
entende que pode assim ser vivida. E surge uma contramão aqui ou ali. Um desvio.

 De tanto cuidar – descuidou de si mesma. E o
corpo não perdoa descuidos. Cobra. Aponta. Expõe.

Fez
a cirurgia. Chorou quando lembrou o tempo que amamentava. Chorou pelo passado. Pelo
presente. E pelas perdas. E duvidou – pela primeira vez – do futuro. E talvez
pela primeira vez na vida toda – reclamou. Desaprovou.

Mas
sabia fazer rimas. E continuou. Lutou.  

E
durante essa poesia que inventou – surgiu uma oportunidade. Única. E para ela. Que
nunca de lá saíra. Que nunca atravessara outros mares. Nem terras. Nem
sotaques. Para ela o Mundo era muito maior que um globo. Ou um planeta. Era de uma
imensidão que assustava. E quando pensava assim – segurava o portão da casa com
força.

Mas
recebeu um convite. Talvez até uma ordem. Vou mandar lhe buscar. Você ficará um
mês aqui. Com todos nós. Desde que saímos daí sonhamos com esse dia.  Agora o dia chegou. Vai passear pela cidade. Vai
descansar. Vai conhecer onde moramos. Vai escutar outros sons. Virá de avião. Nada
de estrada.

Eis
uma imagem inesquecível. Ela sozinha. Com uma roupa branca. Um casaquinho bege
sobre os ombros. Uma pequena valise nas mãos. Um sorriso tão feliz que –
incontido – saiu dela e iluminou todo o saguão.

Veio.
Abraçou um por um que a aguardava. Escaparam lagriminhas emocionadas. E falou. Então
é assim. Então estou aqui. E só demoraram duas horas e vinte minutos. Pensei que
fosse tão longe.  

E
o mês se fez alegre. Trocou de Liberdade. E celebrou também a nova. Fez-se de econômica
a consumidora. De curiosa a integrada.

E
como na Vida não existe Matemática nem lógica – quando retornou – repetiu os
exames. Estava curada. Já não temia. Aprendera sobre distâncias e espaços. Sobre
limites e infinitos.

E nunca
mais segurou – assustada – o portão da casa com força.


Totalizando Conclusões


estava pronta para sair. De repente notou uma luzinha vermelha. Piscando. Pela
fresta da bolsa. Por certo um recadinho. Resolveu ler de uma vez.

Estava
lá. Escrito. Hoje foi suspenso o atendimento. Teve um problema com os
computadores. Uma falha técnica mais complicada. Outro com a luz. Não precisa
vir. Será feito um re-agendamento parcializado.

Atendimento
suspenso. Re-agendamento parcializado.  Achou
o máximo. Comparou a uma figura de linguagem. Ou a uma obra literária.

Mas
quase pulou. Primeiro de susto. Era a primeira vez na vida que fazia um pedido
e acontecia. Literalmente. Inacreditável.

Acordara
com sono. Como sempre. Daí pensou. Bem que hoje podia ser cancelado o
atendimento.  E eu poderia dormir mais um
pouco. Mas imagina. Se me aconteceria uma maravilha desta. Nunca. Acelerou e
foi cuidar de obedecer as ordens do relógio. Cruel objeto. Pensou entre os
dentes. Mas prosseguiu.

Mal
acabou de ler o recadinho – se auto-conferiu.

Checou
– estava viva.  Correu para um espelho.
Deveria estar iluminada. Não estava. O espelho mostrou o habitual. Optou por
reler o recadinho. Vai ver fora uma alucinação. Não foi. Lá estava.

 Que belo recadinho. Que lindíssimo texto. Desdenhou
dos poetas. Nenhum faria uma composição tão emocionante quanto aquela. Riu. Riu
de novo. Tudo bem. Pediu perdão aos poetas. Por precaução. Vai ver que os
deuses que cuidem deles poderia se aborrecer. Não queria mais surpresas. Aquela
estava já perfeita.

Pensou.
Fosse a Idade Média e já sabia onde iria parar. Mas não era. Pelo menos a da cronologia
da Humanidade. Idade Média só a dela. Particular. Riu dessa bobagem também.

Se
primeiro quase pulou de susto – de segundo pulou de alegria.

Olhou
para a bolsa com o material. Para os papéis. Para a roupa que vestia. Em
especial para o relógio no braço. E se despediu. Deles. De todos estes –
adereços.

Mas
se o pedido foi atendido – a vontade vinculada foi descartada.

Que
dormir que nada. O sono foi-se como mágica. Deveria ser isso. Era o Dia da
Magia. Ela que não tinha conhecimento. Riu de si mesma de novo. Estava se
sentindo já uma humorista. De primeira categoria.

Mas
enfim – dormir seria desdenhar do pedido inicial. Jamais faria isso. Poderia
ser visto como um menosprezo. Estava com muito zelo em relação aos deuses
amigos. Mais uma vez riu.

Despiu-se
da proposta inicial e vestiu-se da adquirida. Sim. Iria à praia. Desceria a
serra. E iria ver o mar.

Perfeito.
Idéia de gênio. Foi mais uma vez se olhar no espelho. Deveria estar iluminada
mesmo. Riu para o refletido. Que devolveu à altura.

Quando
se compreendeu – já estava lá.

Em
pé na areia. Diante do seu tão amado mar. Pontinhos prateados aqui e ali
brilhavam na água docemente salgada. Faziam quase um cortejo de pequenas luzes.
Lindo.

Algumas
mesinhas de cimento ficavam na areia. Com banquinhos em volta. Escolheu um
deles e sentou. Para uma alegria tão grande – alguns rituais.

Sentou.
Ficou um tempo apenas olhando. Brincava com a chave do carro entre os dedos. Deixou
que o sol escolhesse os pontos da pele que iria tocar.

Depois
com muita calma foi em direção à água. Estava morna. Pequenas ondinhas deixavam
a espuma branquinha na borda. Que sumiam com delicadeza.

Mergulhou.
Pulou. Brincou. Jogou água para cima. Para baixo. Riu. Viva o Dia da Magia.

Lembrou
o tempo em que seguia as definições do mestre austríaco. Mas desta vez se colocou
mais à parte. Nada de passagem ao ato. Como o mestre definia atitudes
intempestivas.

Fez
o habitual brinde e – rindo – informou. Para o Universo. Que me perdoe o Mestre.
Mas este foi Além do Princípio do Prazer. E muito além dos Atos Falhos. Sem Homem
dos Lobos.  Sem Totem ou Tabu. E
principalmente sem Perturbações Psicogênicas da Visão.

Este
foi um verdadeiro Ato de Passagem. Passagem feliz. Até o mar. Diante do mar. Num
dia em que um erro da tecnologia cedeu espaço à realização plena de uma
fantasia.

Foi
a vez do impossível vencer o possível. E mergulhou – mais uma vez.

Voltou
no começo da tarde – muito feliz.  Amanhã
retomaria a tal agenda parcializada. Perfeito. 

Entre o Sol e o Mapa

Não
há um só dia que não nos encontremos. Os cumprimentos são
rápidos e risonhos. Assim. De forma despretensiosa. E superficial. Ele sempre
apressado. Eu sempre apressada. São muitos os horários a serem cumpridos. E muito
mais agendas a serem atendidas.

Ele
com um caminhar mais pesado. Mas sempre uma expressão alegre. O riso fácil emoldura
os fortes traços orientais. Um sotaque marcado ainda denuncia a imigração não
muito longínqua. 

Assim
nos falávamos. Entre uma subida ou descida de escada. Os elevadores demoram
muito. O jeito é caminhar. Ele sempre acrescentava. Faz bem à saúde. Este o
máximo de diálogo.

Mas
nesse dia falamos mais um pouco. Além das escadas. E dos cumprimentos
superficiais.

Surgiu
uma oportunidade. Num mesmo percurso. E lá fomos contando um pouco dos pontos
biográficos. Ao menos os que pareciam mais destacados.  

Viera
de muito longe. De uma travessia quase igual ao sol.

Começou
pelo avô. O avô era como um personagem de um livro. Era o sábio da aldeia. Respeitado
e reverenciado. Jovens e idosos de todas as idades o consultavam. Indicava poções
ou dava conselhos.

Era
um velhinho calmo. De olhar tranquilo. Mas de profundo conhecimento dos riscos
do corpo mal compreendido – sob o peso da alma mal entendida. Enxergava a
possibilidade da cura como uma exclusiva ação de equilíbrio entre os dois.   

Observara
o avô – por toda a infância. Morara lá até os doze anos de idade. Um dia o pai o
avisara. Vamos nos mudar. Para lá. Será melhor para todos nós. Vou primeiro. Depois
mando buscá-los.

Um
ano depois estava se despedindo. Do avô. Deu-lhe triste o que seria de fato o
último abraço. Dos amigos. Dos hábitos. Dos cheiros. Da terra. Até dos risos.

A
mãe embalara o que tinha de importante. Privilegiou fotos e quadrinhos da casa.
Entre roupas e sapatos abrigou o mais que pode da própria história. Lembra dela
entregando a chave da casa a um novo proprietário. Mas trancando ela mesma a
porta – antes de entregar. Notou um tremor discreto das mãos dela.

Ele
veio tão assustado que lembra a dor que sentia ao respirar. Nunca escutara
falar deste país. Nem sabia em que lado da Geografia deveria olhar. E nem
olhou.

Aprendeu
logo depois que as distâncias não são bem explicadas nos mapas.   

Nesta
parte do relato riu. Um riso triste. No terceiro dia que aqui chegou – estava matriculado
e frequentando uma escola pública.

Não
sabia o idioma. Não entendia as brincadeiras dos colegas. Não compreendia as
ordens dadas. Entrou em uma fase de silêncio profundo. Talvez gestante de si
mesmo. Nem em casa falava. E durante esse período teve um aprendizado especial.
 Aprendeu a ler as expressões. Podia não entender
o que falavam. Ou os chistes em volta dele. Mas já sabia ler muito bem as
pequenas maldades e criticas negativas. Pela forma do olhar – sabia o pensamento
de cada um.

Até
hoje é grato a ela. Talvez o tenha ajudado a nascer de si mesmo. Ficava com ele
após as aulas. Todos os dias. Tentava ensinar um pouco mais. Os sons das letras.
A forma de melhorar o sotaque. As rotinas da cidade. A compreensão de fusos e
latitudes.

Não
tinha o avô sábio por perto. Mas tinha uma sábia professora ao lado. Se sentiu
mais tranqüilo.

Trinta
e cinco anos se passaram. Desde aquele terceiro dia de imigrante. E primeiro
dia de aula.

Em
meio a esse tempo um diploma lhe foi entregue. Contou-me que escolheu esta
especialidade por um motivo simples. A forma de se referir por si só já é bela.
Dar a luz. A maioria vai até lá feliz. E de lá sai mais feliz ainda. Até hoje
se emociona com os nascimentos. E se encanta diante do tal milagre da vida. Quando
dá algum conselho – lembra do avô. E se esforça para ensinar o equilíbrio.

Mas
fez uma espécie de aspas na conversa. Contou. Logo que se graduou – fez questão
de retornar. Passaria lá um mês. Entre os seus de origem. Reconheceria o que
deixara para trás. Apertaria as mãos dos amigos. Resgataria os hábitos. Sentiria
os cheiros. Tocaria na terra. Esbanjaria os risos. Reveria os códigos.

Foi
assim que aprendeu que as distâncias não são bem explicadas – nos mapas.

Viu-se
estrangeiro. De lá. Concluiu com certa nostalgia. Ali não mais pertencia. Era um
visitante – em desacordo. Voltou – sete quilos mais magro. Doente e em desequilíbrio
– a alma e o corpo.

Entrou
em sua casa do lado de cá. Sentou-se na primeira cadeira que encontrou. Deitou
as malas no chão. Olhou em volta. Mais do que a captura de si mesmo – estava
feito a sua re-integração. Talvez pela primeira vez na vida tenha compreendido
as palavras do avô.

Recuperou
rápido peso e saúde. E desta vez não esperou o terceiro dia. No dia seguinte já
estava exercendo a sua função escolhida. Sorridente. Adequado. Com sotaque ainda
marcado – mas com chistes compartilhados.

Nos despedimos com um até breve. Entendi um pouco mais – o amplo milagre da Vida. Desde um
avô que nunca conheci aos riscos no mapa – aprendi que uma história se compõe sempre além
de si mesma.

Lembrei da frase. E a palavra uma vez lançada voa irrevogável.         

Procede.


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