Re-voando

A
semana tinha sido exigente. Quase tirânica.

Não
houve um só dia lento. O trabalho foi árduo. Estafante. Do começo ao fim do
horário – falando. Explicando. Conceituando. Diferenciando. Atendendo. Uma
semana de segunda feira a sexta feira. Sem tréguas. Sem dó e muito menos
piedade. Uma verdadeira apologia de queixas.

Mas
chegou. A sexta feira.  Sexta feira às
cinco horas da tarde. Merecia uma revoada de pássaros. Levando balões coloridos
nos bicos. Para festejar. Até ri com a idéia.  

Tudo
bem. Às vezes exagera-se. Mas todo exagero tem o proporcional correspondente. Procurando
– se encontra.

Faltou
papel para a minha listinha. De cinema a shopping passei por tudo. Mentalmente.
A cada minuto trocava. Como se liberdade fosse exatamente assim. Poder escolher
sozinha.  Aonde ir. Como ir. E por quanto
tempo ficar. Mesmo que na esquina de casa. Não importa. Isso é o de menos. Escolher é o
que emociona a ação em si.

Por
sorte existe a sorte.

Ele
telefonou.E já fui dispensando a minha listinha.

Perguntou que horas encerrava as tarefas. Informei. Respondeu. Eu
também. Vamos tomar um café. Sim. Na Livraria que você tanto gosta. Depois
veremos o que mais fazer.

Sempre
criativo – avisou. Recebi hoje três telefonemas. Todos com excelentes notícias.
Tomei uma decisão. Já não vou mais atender ao telefone. Agora só na segunda
feira. Melhor deixar como está.

Rimos.
Combinamos. E para lá nos dirigimos.

Apressada
– como de hábito – cheguei primeiro. E lá fiquei circulando entre prateleiras e
capas.  Entre títulos e cores. Entre
pessoas e páginas. Mais ou menos assim. Numa mistura de idéias e passos. E foi
num desses pega-olha-caminha que vi.  Não
resisti.


estava a história dela. Num período já fora publicado. Mas agora estava
re-editado. Documentos antigos encontrados possibilitaram a atualização.
Perfeito. Até porque desconheço biografia que não mereça uma revisão. Mais uma
nota de rodapé. Ou outro texto anexo. Uma separata.

Quando
chegou já me encontrou com ela. A biografada.  

Celebramos
o combinado. Não faltaram risos. Boas notícias. Planejamentos. Cada um expondo
e se servindo das possibilidades. Novamente pensei. Seria perfeito a tal
revoada de pássaros. Mas nada comentei. Até para ele – isso seria um exagero
preocupante.

E
como já previamente acertado – preocupações somente na sexta feira.

Não
faltaram chistes sobre nós mesmos. Nem recordações sobre nosso percurso até
ali. De uma vida inteira. Entre criador e criatura. Que tantas vezes não se
sabe como localizar. Quem é quem. Ou quem foi quem.

O
café se repetiu. Entre risos e pequenas guloseimas demos por encerrada a semana
dita útil. Um almoço foi combinado. Seria no domingo. O habitual de seis. Para seis. Com os seis.

Enfim.
Feitas as devidas reverências aos deuses olímpicos – nos despedimos. Felizes. Tranqüilos.
Afetuosos.

Encerrava-se
uma etapa.  Virava-se em direção à seguinte.
Eis o final de semana – ocioso. Afinal nem só de metro vivem pés e cérebros.

Até
ri. Imagina se ela me escutasse. Me daria uma puxada de orelhas. Não banalize
as situações cotidianas, menina, não banalize as situações cotidianas.  

Mas
ai começou um outro tempo. Dentro do Tempo. Cheguei em casa. Abri o livro. Comecei
a ler. Planejei apenas alguns trechos. Uma forma simples de dispensar a
curiosidade. Não consegui. Não consegui parar.

Estava
bem definido o final de semana. E a tão já citada revoada de pássaros se fazia pertinente.
Lógico.

Em
conjunto com a letra e música. “…ô abre alas que eu quero passar…”

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