Polca em Diagonal

O
boletim avisava sol. Talvez uma leve chuva. Mas apenas no final do dia. Coisas
da Primavera. Um toque romântico. E eficiente. As plantinhas e as flores agradeceriam.
Vai ver até festejariam. Viva a flora. Lindo. O texto. Por que não foi bem
assim.

O temporal veio devastador. Cortou a luz. Derrubou árvores.

Não reclamou. Tinha um
horário agendado. Revisão de um processo cirúrgico recente. Optou por um meio
mais particular. Telefonaram solicitando. Ele veio. Pontual e atencioso. Perfeito.

Adiantaria
um pouco o percurso. E ficaria sobre trilhos mais adiante. Concluiu lembrando uma
frase que ele sempre repetia. Com um tom de voz mais engraçadinha. Está ficando
esperta. Riu. Procedia. Dispensou o chiste. E sentiu uma ponta de orgulho
vaidoso. Ou de vaidade orgulhosa – por si mesma. Não importa. Até se acomodou
melhor no banco de trás. Ergueu um pouco os ombros.  Arrumou os cabelos.

Foi
neste processo de pequenos pecados capitais – que a chuva intensificou.

De
repente o primeiro obstáculo. Sentiu uma confusão mental. Conferiu. Estava num
carro. Certo. E deveria estar numa rua. Certo novamente. Não. Quer dizer. Quase
não. Ou quase sim.

Realmente
estava num carro. Mas não podia chamar aquilo de rua. Era um lago. Um enorme e
invasivo lago. E a água reinava absoluta. Tranqüila. Calçada era coisa de um
passado. Não importa se recente ou não. Ali não estava.

Desvia
daqui. Sobe ali. Desce acolá. Pronto. Nada mais de travessias aquáticas. Esporte
radical tem hora. E lugar. Obstáculo vencido.

Ele
virou-se e comentou. Vou descer por aquela outra ladeira. É melhor do que
esperar o semáforo no final desta que estamos. Ele demora muito. O tal sinal. Conheço
tudo aqui. Ainda acrescentou. Em bom estilo mais pecado capital.

Devia
ser este o dia da punição geral dos pecados capitais. Uma comemoração é que não
era. Concluiu rapidamente em seguida. Ele informou. Fica tranqüila. O meu carro
é maravilhoso. Seguro. E sou excelente motorista. Repetiu farto de vaidade. Excelente.
Quase soletrou.


algum tempo ela escutara um comentário. Elogiavam o jeito dela. Numa
conversinha informal. Diziam que ela era rápida no raciocínio. E mais ainda nas
respostas.

Pensou
em recusar a oferta. Nada daquela ladeira. A chuva estava forte. O tipo de acabamento
era perigoso.

Isso
sem falar na diagonal. Uma diagonal-quase-vertical com o mundo. Assim era a geometria da tal
ladeira.

Ia
abrir a boca. Para a tal recusa. Diante da oferta com descontos. Ou liquidação.
De horário. Não deu tempo. Justo ela. Elogiada pelo rápido raciocínio. E pelas
rápidas respostas. Não deu tempo.

Derrapou.
Os pneus desdenharam do solo. Ou se desentenderam. Vai lá saber. O maravilhoso
carro e o excelente motorista começaram a girar. Ela girando dentro. Uma polca
sobre rodas. Mas mal orquestrada.

Ele
puxava o volante para um lado. O volante ia para o outro. Era – talvez –
voluntarioso. Riu. Devia ser o desespero. Volante voluntarioso já era quase
sinal de acidente – cerebral. E ainda tinha o freio. Também voluntarioso. Ele freava.
O carro acelerava. E para o lado que desejasse.

Enfim.
Todo o carro era voluntarioso.

Ela
não. Obedecia. Virava para lá. Caia para cá. Livros escorregavam do colo. Seguia
alguma ordem. Só não sabia qual. Ou de quem.

Até
que surgiu um parceiro. Lá estava. Estacionado. Sossegado. Saiu levando junto este
parceiro súbito. E nem escolhido. E começou a fazer par na dança. Na polca. Forte.
Até feroz. Um som maior se uniu ao já cantado.

Eis que parou. Tudo bem que num local nada adequado. Nem previsto. Mas parou. Um muro –
alheio ao que se passava – os conteve. Surdo de si mesmo – os amparou.

O
excelente motorista estava bem fisicamente. Do carro maravilhoso – não se poderia
dizer o mesmo. Quebrado. Amassado. Despencado. Ficara – junto com o parceiro – a
espera do socorro correto.  

Ai
foi a vez dos joelhos dela. Nada criativos – imitaram. Ficaram voluntariosos. Batiam
quase um no outro. Mais que uma polca. Criaram um novo ritmo. Vai lá saber se não
foi um festejo.

Quando
tudo foi resolvido – seguiu o caminho previsto. Cancelou a revisão agendada. Os joelhos ainda dançavam. Tinha uma pequena marca
no rosto. As costas doíam um pouco.

Mas
o final – afinal – fora feliz. Voltou para casa ainda sob a chuva. Tentava
lembrar todos os pecados capitais. Queria o nome de todos. Um por um. Riu sozinha.

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