Retina: Positivo

Não
conseguia mais se concentrar.

Insistia.
Diga-me. Por favor, diga-me. O que viu em mim. E tão de repente. No que estou
diferente. Explique-me por que chegou a esta suposição. Preciso saber.

Trabalhava
naquela agência desde a inauguração. Pontual. Responsável. Carregada de
critérios e métodos. Passava o dia entre papéis e mais papéis. Concentrada. Nem
um só mínimo erro podia ser cogitado. Lidava com a ambigüidade. Também vil e
também amado. Também desprezado e também desejado. Também metal e também papel.

Estava
sempre bem arrumada. Cabelos escuros bem cuidados. Mãos delicadas. Bem jovial. Sorria
com facilidade. Mas tinha um detalhe que lhe dava um ar especial. Quase um
aviso. Quando se concentrava – ruborizava. Era o sinal de nada mais de conversas.
Calava. Abaixava os olhos. Abria a gavetinha. E se abstraia do entorno. O
espaço se reduzia mais ainda. Era somente ela e a conta.

Um
vidro a separava dos mortais. Digamos assim. Por que do lado de cá do balcão a
mortalidade parecia se expor sem pudor. Ela entregava o solicitado. Ou não. Entregava
a informação. Sempre com muito cuidado. Informava num sussurro. Respeitava a
ansiedade do outro. O desconforto. As pessoas faziam as expressões de acordo
com o que buscavam. Ou melhor – de acordo com o que encontravam.

Fazer
contas nem sempre é uma operação aritmética. Envolve riscos mal calculados. Subtrações
mal contadas. E por mais que se some – há sempre um numerozinho que escapa. E muitas
vezes os rostos saiam mais tristes do que chegaram.  

E
assim ficava ela. Diante do vidro que separava. Cobrava assinaturas. Reconhecia
códigos. Dígitos. Às vezes mais parecia uma arte que uma função.

Nesse
dia algo mudou. E se deu a surpresa.

Ela
atendendo. A fila longa. Ela chegou. E, desta vez sem muita pressa – teve tempo.
Tempo de observá-la. Já se conheciam há quase um ano. Mas entre a pressa de uma
e a concentração da outra – pouco se falava sobre si mesmas. Um sorriso. Um como
vai você. Uma resposta formal. E estava encerrada toda a comunicação social-afetiva.

Esta
foi a diferença. Ela estava sem muita pressa. Aguardou sua vez na fila. Era a
última a esperar o atendimento. Paciência. E observou a expressão dela. Assim. Rapidamente.
Superficialmente.

Quando
chegou a vez – sorriu. Somente ela do lado de dentro do vidro. E ela do lado de
fora do mesmo vidro. Com calma – cumprimentou. E comentou. Assim. Sem mais nem
por que. Você está grávida. Que bom. Parabéns.  

Ela
olhou surpresa. Talvez até assustada. Como assim estou grávida.

Foi
ai que não conseguia mais se concentrar.

Insistia.
Diga-me. Por favor, diga-me. O que viu em mim. E tão de repente. No que estou
diferente. Explique-me por que chegou a esta suposição. Preciso saber.  

E
ficou muito mais ruborizada do que quando concentrada. Os olhos se encheram de
lágrimas. Perdeu o fio da conta. Não sabia se abria ou fechava a gaveta.  A caneta caiu. O telefone tocou. Respondeu com
aquele bom dia formal habitual da função. Mas desta vez um pouco impaciente. Desligou
e continuou.

Como
você sabe. O que você viu. Há três anos faço tratamento para engravidar. Ainda não
fiz nenhum teste este mês. Vou contar a meu marido. Vou telefonar para ele. Ele
vai ficar ansioso. Mas me diga. O que você viu.

Foi
uma situação estranha. Uma queria saber o que a outra nem sequer sabia dizer. Não
sabia. Apenas olhou – e reconheceu uma gravidez. Só isso. Não tinha uma lógica.
Muito menos uma explicação.  Desejou que
tivesse acertado. Respondeu aquele monte de vai-lá-saber. E saiu.

 Voltou na semana seguinte. Lá estava ela. Fazendo
a sua rotina. Quando a viu entrar – sorriu. Abriu uma bolsinha. Pegou um papel.
Pela passagem do vidro – entregou a ela.

Estava
lá um exame. Escrito – Positivo. Estava grávida.

Fez
a volta. Abandonou o vidro. Saiu por uma porta lateral e a abraçou. Uma lágrima
discreta definiu a emoção. E contou. Naquele mesmo dia sai e fiz o exame. Desde
aquele dia fiquei sabendo. Mas esperei que viesse para lhe mostrar o resultado.
Para que você lesse.

Obrigada.
Vou lhe dizer por que agradeço. Você me viu mãe. E eu nem me sabia mãe ainda. E
isso é muito mais realidade do que um exame laboratorial. Adorei. Obrigada de novo.

Ela
saiu lembrando o mestre austríaco. Ele escreveu uma vez que pela brecha da
retina pode-se ver claramente o inconsciente. Sorriu. Ergueu – a ele – mais um dos
constantes brindes gestuais.


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