A Deusa da Primavera

O
amanhecer fora suave. Ainda bem.

Sem
muito sol. Nenhuma chuva. Nem muitas nuvens. Com leve azul. Um dia para ser
seguido de acordo com a vontade de cada um. Cabiam todos os gostos. E estilos.

Pode
se conhecer um pouco mais os habitantes de uma cidade – pela atitude da cidade
em torno deles. Pela forma como é construída. Pela forma como é concluída. Ou mais
ainda – pela forma como acolhe a demanda de cada um dos seus moradores.

Nas
ruas e nos jardins as flores já se antecipavam ao calendário sazonal. Os tons
variavam entre amarelinhos, rosas e roxinhos. Assim enfeitavam aqui e ali. Com uma
delicadeza que dava prazer de olhar.

Até
o Parque já mudara seus tons. Surgiu um festival de cores. Muito lindo. No dia
que avisassem – é hoje – já estavam em pleno acordo. Viva o tempo da Primavera.
Nada mais de cinza. De preto. De marrom. De botas. De corpos recobertos. Do pudor
excessivo do inverno.

Agora
todos estavam coloridos. Sandálias percorriam rápidas as calçadas. Os gramados.
Bermudas liberam os que os agasalhos por tanto tempo recobriram. O chão já não
tem mais o brilho frio da garoa.

Não
há mais temor no esbarrar. Já não há tanto caminhar de cabeça baixa. As pessoas
olham para cima. Para quem passa.  Cruzam
e entrecruzam as ruas e as vitrines. Mais expostas. Menos pudorosas.

Até
os comerciais mudaram. Nada mais de feira de linha. De lã. De malha. De couro. De
vinho. Agora é protetor solar. Mil marcas e ofertas. Cervejas. Refrigerantes. Frutas.
Já não há mais toldos. Aquecedores. Janelas fechadas. Nos bares – mesinhas nas
calçadas. Nos restaurantes – cardápios giram em torno de saladas e bebidas
frias.

Nunca
notei. Até me surpreendi. Mas é verdade. Ri-se muito mais diante do Sol.

E
foi diante deste cenário que ele sugeriu o lugar. Perfeito. Depois ainda poderíamos
caminhar um pouco. E presentear a retina com as alamedas floridas. Estava iniciado
o fim de semana.     

Ela
chegou. Já devia estar na oitava década.

Bonita.
Elegante. Uma blusinha fina de cor verde recobria um conjunto bege. A pele
clara. Os cabelos grisalhos bem arrumados. Um sutil ar de segurança dava o
arremate final.

Escolheu
a mesa. Sentou-se com cuidado. Olhou em volta com pouca curiosidade. Parecia estar
muito bem acompanhada. Com ela mesma. Olhou em direção ao céu algumas vezes. Logo
que chegou. Talvez para conferir as possibilidades. Confiante na própria conclusão
– acalmou-se.

Quando
o garçom lhe entregou as opções – foi decidida. Iniciou com um vinho branco. Um
comportado convidado – digamos assim. Servida – pareceu se deliciar com a escolha.
 Daí em diante o mundo ficou bem
particular. Comeu com parcimônia.

De
vez em quando girava o olhar pelo ambiente. E dele também se servia. Mas nada
que apontasse para algum tipo de busca. Mantivera a curiosidade. Mas já
dispensara a ansiedade.

 Ela estava só. Mas não solitária. Parecia
brindar algum tipo de vaidade. De orgulho. Havia algum pecado capital em torno
dela. E, certamente, festejado. Disso não havia dúvida.

Manteve
todo o tempo uma expressão de tranquilidade. Fosse o que fosse que aprendera na
Vida – dera-lhe boas alegrias. Algo por aí. Difícil entender a ideia atrás do
gestual. Mas ela – mesmo discreta – era exposta. Ao menos o suficiente para
permitir este risco de avaliação.

Com
a mesma objetividade que se serviu – deu por encerrado. Recebeu um discreto
cumprimento de quem a atendia. Devolveu na mesma medida.

Quando
saiu deixou a taça ainda com um pouco de vinho. O guardanapo realinhado. A
cadeira cuidadosamente recolocada na posição. Mesmo na ausência – deixou marcada
sua sóbria elegância. Como um sinal de respeito – por onde passava. E se comprazia.

Olhei
para as mesas em volta. Alguns conversavam animados. Outros mais cuidadosos como
temendo ser escutados. Um casal trocava beijinhos carinhosos. Um senhor
reclamava do trânsito constante.

Solitário
é quem não participa. Ou se conclui dependente por antecipação. Quem assustado
– se recolhe. Ou temeroso de se expor por si mesmo – se afasta da vida. Eis o
que ela me ensinou. Com sua taça de vinho e sua tranqüila elegância por
companhia.

Comentei
com ele enquanto caminhávamos pelas alamedas com florzinhas recém brotadas. 

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