Todos a Bordo


se ia encerrando – os dias plenos de escrita. Ou para a escrita. Com feliz
dedicação total. O tempo se esgotava. Retomaria a atividade da rotina – dia
seguinte.

Ficara
afastada por quinze dias. Acordava cedo. E já se transferia para o teclado.

Até
sonhava com os textos. Podia falar dela. Ou dele. Ou daquele ato. Ou colorir
aquele fato. Podia se sentir dentro do mundo. Mesmo estando isolada de tudo.
Só. No quarto. Caberia até uma placa na porta da frente. Em recuperação.

De
pele ao olhar – percorria os encobrimentos da memória. Muito a ser explorado.
E – talvez – conquistado.

Desconsiderara
Oceanos. Turbulências. Aderências. Convenções. Se sentiu como pisando em uvas. E vendo o sumo do vinho se fazer.
Escutou música. Trocou mensagens.
Relatos. Contou um pouco da vida. Acolheu dores distantes. Recebeu flores.
Cores. Até amores.

Riu
quando leu um recadinho. Ela escrevera. Aliás, pelo que escreve, parece que
acontecem mais coisas na sua vida do que na vida dos outros! Ou você observa
melhor! Assim. Com duas exclamações. Sentiu-se emocionada. Era um elogio e
tanto.

Os
motivos causais poderiam fazer temer. Mas as consequências foram só prazer. Eis
uma rima que deu certo. E outra que se perdeu. Ainda bem. Dor rimou com nada. A dor ficou para trás. Vencida
e sem par. E ela ficou com flor. Com cor. E com um doce sabor de calor.

Inegável.
Foi uma beleza de hiato.


se iam e vinham as ideias. Sem hora marcada. Sem pressa na construção.
Corrigidas. Emendadas. Procriadas. Malcriadas. Educadas. Estava a viver o tal
ócio que sempre ameaçara.

Mas
fez uma pergunta. Talvez – tola. Onde estaria o ócio. Precisava de uma
definição lógica. Sobre a exata localização do ócio. E pode rir de si mesma. Afinal
– se nem tudo é perfeito, nem tudo também é o que parece.

Estava
até dedicada aos provérbios. Lembrou de uma frase dele. Crescera com a frase
envelhecendo junto com ela. Quem está perto do fogo é que se esquenta.

Optou
por uma pausa nas frases.

Como
dizia a avó de uma amiga. Não são frases que formam textos, menina, não são frases
que formam textos. Procedia.

E
nesse estado de letras – concluiu. Navegar
é Preciso.

Restavam
ainda algumas horas. Poucas. Mas seriam bem aproveitadas. Até a última
badalada. E nada de perder sapatinhos. Ou alucinar abóbora. Ou brotar caninos. Esta
é umas das possibilidades fantásticas da escrita. As horas avisam as badaladas. E não o
contrário.

E
quando o tempo é marcado – a espontaneidade se acelera. Corre. Percorre. Fica
até tonta.

Mas
ainda há tanto a fazer. Como assim. Já tem que sair. Que ligar o despertador.
Que sentar sobre os trilhos. Que caminhar apressada em corredores.

Riu.

Apressada
em corredores já denunciava. As ideias estavam assustadas. Como se arrancadas
de um doce balançar de uma redinha. De súbito. E – afoitas – atropelavam os
últimos retoques.

Assim
se sentia. Deu uma rápida olhada em direção ao Universo. Olhou de forma
circular. Se é que isso é possível. Fez um leve ar de birra. Quase perguntou se
não compreendera. Mas achou inconveniente. Duplamente. E se controlou.

Desceu.
Iniciou o processo da retomada. Qual uma obediente comandada. Organizou o
material. Carimbo. Caneta. Os funcionais. Os profissionais. Incluiu os
ocasionais. Nesse sobe e desce – recordou uma música antiga. Uma Viola.
Enluarada. Assim estava se sentindo. Quase como uma despedida. Sempre
dramática.

Mas
seguiu o que tinha que ser seguido.

Houve
uma simultaneidade. Assim. Sem mais nem por que.

O
telefone tocou. Era ela. Com a voz suave e pontual – informava. Sua agenda de
amanhã está completa. Bom retorno. E no mesmo instante um aviso. Chegou via tecnologia.
Escrito na tela. Leremos na mesma Rádio. Mais uma história da sua autoria. Em
tal hora. Em tal data.

Olhou
para o Universo. Repetiu o olhar circular. Até ergueu as mãos. Sorriu. Desta
vez lembrou a canção italiana, Ma che bello questo amore.

E
retomou – tranqüila – a reorganização da rotina.
Quem quer passar além do Bojador…

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