No Silêncio da Pele

O
acidente fora terrível.

Uma
profissão onde o acidente era o oposto exato ao proposto. Foram cedo cumprir
suas funções. Rotineiras. Tentavam colocar os pontos subterrâneos de ligação de
luz. Dentro da terra. Submetidos ao mundo.

Na
explosão – ficaram no escuro. Queimados. Lá embaixo. Os dois.

Retirados
– foram encaminhados ao local de socorro. Desorientados. Gementes. Ainda sem
compreensão. Os acidentes são rápidos. O entendimento é lento. Como uma defesa.
Do corpo. Da emoção. Da sensação.

É
preciso mais que uma explosão – para que o pensamento se adeque a uma situação
súbita. Seja ela qual for. Assim eles estavam. Assim chegaram à Unidade de
Emergência.

Corpos
queimados. Retorcidos. Contaminados. Entre o que impede e o que invade – uma fronteira
tinha se rompido.

Ela
encerrara o período de especialização. Um dia avisara. Jamais voltaria a cuidar
de queimados. Delicada – sentia o peso da dor já no atendimento. Rigorosa nos
procedimentos – temia nem sempre ter acesso ao necessário. E diante de si mesma
– assim decidiu. Não. Nunca. Atuaria em outras áreas. Esta não cabia mais a
ela. Em uma só modulação vocal – convenceu ao outro e a si mesma. Repetiu. Não.
Nunca. Decisão exposta e imposta.

Escutei
uma vez alguém comentar. O Universo é surdo diante de nãos e nuncas. Perfeito.
Deve ser esta a explicação.

Eles
chegaram. No momento exato em que ela chegava. Um encontro. O encontro.
Inadiável. Irrecusável. Sim. Agora mesmo.

E
a partir do encontro – quarenta dias se seguiram. Uma nova rotina se
estabeleceu.

Durante
este tempo – ambos inconscientes. Respiravam por tubos. Alimentavam-se por
tubos. Nada sabiam. Nada viam. Nada escutavam. Corpos presentes – nas
ausências.

Cuidou
deles no silêncio. Durante os quarenta dias seguintes acordou às seis horas da
manhã. Pontualmente. Ia para a Unidade. E os operava. Todos os dias. Enxertos. Remoções.
Composições. Fazia todos os procedimentos necessários. Silenciosa. Como eles.

E
à medida que eles melhoravam – ela ia se transformando. Só descobriu isso um
tempo depois.

Nem
toda pele é externa.


sempre uma outra. Invisível. Intocável materialmente. Mas que também faz
contornos. Que também pode ser ferida. Ou festejada. Que permeia as emoções.
Reorganiza um novo corpo dentro do inconsciente de cada um. Vai se construindo
junto com o amadurecimento. Não da idade. Mas da própria Vida.

Algumas
vezes imaginava como seria o despertar. Deles. O dela já acontecera. Desde o
primeiro encontro. Agora restava o deles. Para complementar o dela. Mais ou
menos assim – também – é a Vida. Enfim. Imaginava a apresentação. A
confirmação. Que diriam quando acordassem. Havia um conhecimento de um lado. O dela.
E um desconhecimento do outro. O deles.

Às
vezes até ria. Mulher. Magrinha. Com suaves traços orientais. Jovem. Não alta.
Eles iriam se assustar. Mas seguia. Diariamente. Cumpria com integridade o que
a si propusera.

Chegou
o dia. Eles acordaram. Primeiro um. Logo depois o outro.

Se
olharam. Se viram.  Se enxergaram. Assim.
Pareciam se constituir pelo olhar. Primeiro individual. Depois a busca pela parceria.
Numa sequência quase perfeita. Se re-conheceram.

Revistaram
a pele externa. Iniciaram – solitários – a recomposição da pele interna. Lembraram
o acidente. Escutaram a explosão. Foi um período complicado. Havia um passado
não vivido para ser assimilado. Com uma etapa faltante. Qual um nascimento – só
que com memória. E o resto seria composto pelo outro. Pelo relato do relato.


um ano eles a visitam nas datas ditas especiais. Gratos. Íntegros. As marcas
que portam – não impedem a vida que tinham. Exercem suas atividades dentro do
planejado.

Ela
feliz – elogia. Não a ela. Mas à pele deles. À coragem deles. Mesmo que
aparentemente ausentes. Venciam suas batalhas na Unidade – como na função profissional. O
objetivo persistira – concluir com luz.


algo inegável. Eles chegaram. No momento exato em que ela chegava. Um encontro.
O encontro. Inadiável. Irrecusável. Sim. Agora mesmo.

Semelhante
à pele – nem toda Luz é a visível.

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