Com o Oceano por Testemunha

Foi
um daqueles momentos únicos. Impossíveis de repetição.

Longe
de casa. Longe do idioma-mãe. Sem horários. Sem compromissos. E tudo pela
bagatela de um fim de semana. Maravilha. Esta a palavra que repetia sem parar. Um
fonema. Sim. Fonema seria um termo mais adequado.

E
repetia. E ria.

Os
dias estavam coloridos. O céu estava de um azul quase perfeito. O vento soprava
calmo. Sem ansiedades. As pessoas circulavam atendendo aos horários e funções. O
dia era um dia útil.

Para
ela – um dia muito mais útil que qualquer dia útil. Riu. Vento sem ansiedade
causa isso. Ventania paroxística cerebral. Como espasmos.  Devia estar acometida de um deles. Talvez do
que sopra do sul. A partir do Sul. Enfim.

Na
noite a cidade se transformava. A música denunciava a localidade. A dança
expunha a sensualidade entre pernas e braços enlaçados. Havia cafés nas
calçadas. Mesinhas por todo lado. O murmurinho doce de quem sabe que venceu o
dia. a espuma saindo de taças. O aroma fugindo de xícaras. Os convites de entre
e sirva-se. Os olhares. O reconhecimento do estranho. Do estrangeiro. Do próximo
distante.

Os
olhares eram curiosos. Atentos. Mas indisponíveis. Não havia aproximação. Ou ligação.
Apenas uma troca. Como uma balança comercial a varejo. Enfim.

Mas
tinha o dia seguinte. Ainda bem. E o dia seguinte tinha hora e fuso horário a
ser cumprido.

Ai se fez – o tal momento único.

Recebera
o aviso. Duas semanas anteriores.No dia tal. Em tal hora. Será lida uma crônica da sua autoria. Em
nossa Rádio.

No
instante que leu – perdeu até o ar. Ficou radiante. Se
beliscou. Estava acordada. E viva. Se olhou no espelho. Era ela mesma. Falou alto.
Era sim. Sua própria voz. Conferiu a mensagem. Sim. Era o nome dela. olhou em
volta. Sim. Estava em seus domínios terrenos.

Saiu
contando para quem pode. Para quem devia. Para quem queria. Esbanjou mensagens.
Ficou feliz. Assim. Feliz.

E
o dia chegou.

Agendou
o horário com o relógio. Antecipou. Algumas emoções têm que ser vividas desta
forma. Com uma antecipação particular. Um fuso privado.Há que programar. Aceitar.
Despertar.

Seguiu
à risca essas regras que inventou. Como numa emergência. As emoções
também necessitam de alguma defesa em causa própria. Assim fez.

A
diferença formal era de quatro horas. Ela mal acordara. Eles de lá almoçavam. E
liam a crônica que ela escrevera. Maravilha. Repetiu o fonema do final de
semana.

Sentou-se
diante da tecnologia. E aguardou.

Começou.
O programa. Escutou o que falavam. Duas jornalistas discorriam sobre as
atividades. Funções. Histórias de Vida. Devida. Com sotaque. E que belo
sotaque.

Nomearam
a primeira leitura. Colocaram música intercalando falas. Iniciaram a segunda
leitura. Mais músicas.

Parecia
que o tempo se distorcia e contorcia. Quase igual à dança da região. Pernas e
braços se envolvendo com ponteiros e números. Concluiu. A tal ventania paroxística
cerebral deve ter piorado. Virou torvelinho.

Ela
avisou. Com voz suave. Com sotaque delicado. A próxima história vem de lá. Fala
de uma região da seca. Fala de um povo. Da história de um homem.

Uma
voz masculina iniciou a narrativa. A leitura. Carregada de fonemas.Riu.

Diferente
escutar o que se escreveu. A entonação que vem do outro. Um tom mais alto ou
mais baixo. De acordo com a própria interpretação. Com o que considera destaque.

Sentou na borda da cama. Não
se moveu
. Refém e cúmplice de uma egoísta alegria.

Quando
a leitura da crônica se encerrou – escutou. Ele nomeou. Falou o nome dela. E acrescentou o País de origem. Leu
com firmeza. Mas com delicada pausa na voz. Estavam a um oceano de distância. A
quatro horas do Tempo. Mas se sentiu ao lado. Do lado. E num gestual de aperto de mão – agradeceu – às jornalistas e ao narrador.

Chorou.
 

 

 

http://ww1.rtp.pt/multimedia/index.php?prog=2145

HISTÓRIA
DEVIDA

Convidada:
Isabel Coutinho

 
2009-08-30  

52m3s

|

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