Palavra à Vista

Ficou
um tempo buscando uma palavra. Uma. Mas que pudesse denunciar. Que funcionasse.
Isso. Uma palavra funcional. Eis a qualificação perfeita.

Mas
nada é perfeito.  Faltava a palavra.

Era
momento de comemoração. Sentia isso. E se desentendia.  Se sentia – por que não conseguia  decodificar.  Lembrou que fez um chiste para ele. E se a
anestesia anestesiou as  minhas ideias.
Sempre se corre qualquer tipo de risco. Diante de qualquer tipo de intervenção.
E nem tudo no mundo é orgânico.

Ele
– artista – sabe ler o avesso do avesso de um prisma. Não busca potes. Nem
duendes. Cria o ouro de dentro das cores.  Já foi logo recusando a ideia proposta.
Comparou até a resistência a cianetos. Ela riu.

Se sentiu medicada.

Queria
muito poder esclarecer. Esclarecer nem sempre é prerrogativa de problema. Ou de
formal. Pode ser apenas uma porta. Um portal. Exagerada do jeito que sempre foi
– substituiu. Acrescentou.  Esclarecer é
como um arco. Um arco de triunfo. Real.

Pensou
em dicionários. Mas eles só contem verbetes. E não seria o caso. De verbetes o
mundo está cheio. Deve mesmo estar faltando é palavra. Pode parecer uma mesma
significação. Mas a tradução é diferente.

Um
verbete explica. Ordena. Racionaliza.

Uma
palavra implica. Desorganiza. Emociona.

Morava
longe. Um mar além. Uma distância que se media em águas e espumas. Com ondas e
com calmaria. De lá para cá muito se fez. E de cá para lá muito se refez.

Nem
sabia mais quando começara. Muito menos como. Mas se comunicavam. Por isso ela
avisara. Vou dar uma sumidinha. Desta vez a questão é corporal. Notaram um
excesso. Vão localizar a possibilidade de falta. Quando puder retorno. Assim. Um
recadinho para os mais próximos. Sem importar quantas marés depois seria entregue
a mensagem.

Ele
foi solidário. Escreveu. Ponderou. Gracejou. Reclamou. Até se auto intitulou.
Neurastênico. Estou neurastênico. Onde já se viu. Um artista. Que doa cor a
ouro. E o contrário também. Que entende de avesso. Se chamar de neurastênico. Assim.

Viu
todos os recadinhos de uma vez. Quando os excessos foram retirados a e as
faltas perdoadas.

Leu.
Adorou. Festejou. Mas se sentiu menos. Continuava sem encontrar a palavra.

Até se revoltou. Quase praguejou. Já estava
perdendo até a classe. Renegou a própria profissão. Queria mesmo era ser
inventora. Não para construir máquinas. Queria criar uma retórica nova. Para o
agradecimento exprimir. Queria um poder. Uma magia. Fantasia. Inspiração.

Pediu tudo que vinha à mente. Olhou para cima. Até
para baixo. Pegou uma caneta. Vai ver assim facilita. Caneta e papel à mão. Ficou
ali. Parada.

Em busca da tal palavra. Que revelasse toda a
emoção. Sem freios. Sem contenção.

Teve uma ideia. Alternativa. Poderiam ser símbolos.
Quem sabe. Um símbolo muitas vezes vale por muitas palavras. Muito mais que
apenas uma.

Ainda sem solução. Nada entendia de símbolos.  E símbolo lembrava matemática. Ela odiava
matemática. Fingiu aceitar. Pensou. Outra alternativa. Quem sabe uma tela. Poderia
desenhar com exatidão. E numa única aquarela fazer brilhar a verdade da
gratidão.

Mas… impossível criar. Vai ver tinha mais falhas – do
que imaginação. Nem cores. Nem flores. Nem Semiologia nova. A criatividade não
devia mesmo ser seu forte.

Lembrou da avó da amiga. Ela dizia. A repetição
também tem as suas singularidades, menina, a repetição também tem as suas
singularidades.

Aceitou. Andava bem obediente nos últimos dias.

Talvez uma só palavra. Há muito já inventada.
Talvez – em sua simplicidade – resuma o desfecho. E permita todo esse difícil
traduzir.

Mais tranqüila virou-se em direção ao mar de lá.
Por cima de ondas e marés altas. Abaixou-se diante da leveza de um corajoso
barquinho de papel. Colocou uma garrafinha com seu bilhetinho dentro.
Manuscrito. Com cuidado. Letrinha por letrinha. Qual um bordado. Escreveu.

Obrigada.

 
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