Neve no Sétimo Andar

Não
podia ser denominada de decisão. Talvez nem de escolha.

Mas
não. Discordava de si mesma. Foi uma escolha. Sim. E uma decisão. Sim. Era só
uma questão de ordenação. E isso não é lá muito fácil. Enfim. Estava já ali. Deitada.
Aguardando.

Procedimentos
são assim. Uma vez deflagrados – seguem seus ritmos. E se tornam libertos. Independentes
das vontades. Pelo menos das dela. Se de um lado sobrava autoridade – do outro
sobrava – obediência. Agora não era momento de rebeldia. Conclusão que a
acalmou. Incrível. Mesmo sendo ela.

Lembrou
da avó de uma amiga. Às vezes é preciso ceder para acceder, menina, às vezes é preciso ceder
para acceder.

Não
entendera esta frase antes. Naquele momento menos ainda. Sentia-se um pouco
confusa. E o Tempo parecia se misturar. Mas apenas lembrou. E deixou lá. Estava
realmente obediente.

Agora
era enfrentar. E eis algo que sempre fez. Enfrentar. Poucos sabiam dos medos.

Muito se espantou quando ela comentou. Eu sei
que você é frágil. E que tem pequenos e grandes medos.  Mas sei que finge bem – para muitos. E riu ao
falar isso.  E com total e absoluta
desenvoltura. Bem ao estilo. Sem preocupações eufêmicas.

Deve
ter feito aqueles olhos de desenho animado. Devem ter saltado longe das
órbitas. Se surpreendeu. Desde quando ficara transparente. Até se aconchegou
com os cobertores. Assim. Como um reflexo medular. Mas não discordou. Ela a
conhecia bem. Seria perda de tempo. E já estava com bastante problema de
mistura de Tempos. Era suficiente.

Ela
entrou. Foi avisando. Ordenando. Vai sim. Vai subir após este procedimento. São
orientações a serem seguidas. Não um tema em discussão.

Aplicaram.
Intramuscular. Doeu. Muito. Puxou para si o tal lençol branco. Avisou que ia
ceder rápido. Sedada cedente. Este o último chiste. Para ele que a olhava –
amorosamente – pálido. Muito pálido. E muito amorosamente. Sentiu a mão dele – apertar
a dela. Pensou no milésimo de segundo que restou. Há um especial “apiedamento”
enlaçado com o amor. Ou o contrário.

Olhou
para o lado. Tudo mudara. Que terrível engano. Estava nos Alpes. O branquinho
era da neve. Não tinha lençol. Que confusão que fizera. Deveria ser por causa
da altitude.
Olhou para os pés. Os sapatos eram de solado grosso. Uma segurança.
Evitaria que caísse. Estava com meias grossas. Sentia isso entre os dedos.
Olhou
para baixo. Subira a três mil metros de altura.
E olhava o mundo do alto – envolta em
silêncio. Absoluto. Sentiu uma paz enorme.

Quase
reclamou. Foi um barulho forte.Ali também se corrompia o silêncio. Surgiu um teleférico. Procurava ver
de onde saíra. Mas não dava. Era longo. Percorria uma trilha estreita. A altitude
tinha mesmo mexido com ela.

Agora
estava dentro do teleférico. A cabine era ocupada por seis pessoas. Seis. Contou
e recontou. Mas não sentavam. Ficavam de pé. Ela não conseguia ficar de pé. Somente
ela. Obedeceu. A paisagem era linda.

Havia uma luz forte. Diante dela. A cada espaço branco – surgia um amontoado
verde. As árvores brincavam na neve. Estava há quatro mil metros. Mesmo não entendendo
de números – sabia que estava muito distante. Do chão. Do lá embaixo. Mas se
segurou numa gradinha. Como fora esquecer as luvas. A gradinha estava tão fria.

Sentiu
um abalo. Alguém informou. Vai mudar de cabine. Não entendeu bem. Ia dizer que não
queria. Sentiu que a mudaram. Ninguém parecia se importar com o querer dela. Enfim.
Deve ser o estilo Alpino. Tentou rir.

Seu
próximo texto seria sobre a altitude. Nunca imaginara sentir algo assim. E
ainda disseram que era normal. Não sabia mais quem dissera. Mas registrara o
comentário. E buscava entender o tal normal avisado.

Quase
deu um pulo. O celular caiu. E junto com ele a câmera fotográfica. Que pena. Foi
só o que pensou. Não teria como demonstrar. Não teria prova documental. Só das
palavras.

Notou uma placa de cor marrom num ponto alto da montanha. Leu o que estava lá escrito. Este teleférico foi construído há cinqüenta anos. Alguém acrescentou
– numa plaquinha ao lado. Em cinqüenta anos – apenas um acidente. Fatal. Para todos.
Mais outro aviso. Este local está a quatro mil metros do nível do mar.

Ficou
tentando compreender. Que mar. De que mar as pessoas falavam. Sentiu um frio
súbito. Escutou algumas vozes. Não compreendeu o que falavam. Devia ser algum
idioma codificado. Coisas das alturas. Tentou rir. Ou riu. Não tinha certeza. Viu
que ele vinha de lá. Caminhando em direção a ela. E sorria – um riso solidário.Tentava lhe dar a mão mais uma vez. 

De
repente – abriu os olhos. O lençol branco a envolvia. Ele a olhava – corado. E rindo.
Ela perguntou. Há quantos mil metros de altitude nós estamos. Ele riu. Estamos
no sétimo andar. Deixa de ser exagerada. Deu-lhe um beijo. Ele disse. Com expressão
de alívio conquistado. Ou Bem recebido. Felizmente acabou.

E aconchegou-lhe a mão – ainda um pouco fria – com carinho.

Ela nada contou. Ainda estava com muito sono. Mas sorriu ao ver um floquinho de neve passar – disfarçado – janela abaixo.

Advertisements
  1. No trackbacks yet.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: