Tecendo e Distorcendo

Por
muito tempo na Vida fingiu que não via.

Assim
era ela. Sempre dava um jeito de escapar. Parecia uma sábia diante
dos impedimentos. Se fosse para cortar o prazer – agia com rapidez. Não faltavam
críticas. Sobravam observações. Análises. Sugestões. Tinha uma auto-referência.
Era pragmática. Nada de muitos rodeios. Direto ao assunto era seu estilo mais
suave.

Recobria-se
de marcas. Incrível. A roupa tinha nome e sobrenome. As bolsas e relógios também.
Todos com registro em cartório. Não usava um brinco que não portasse uma
assinatura. Recobria-se de nomes. E escondia-se em meio deles. Às vezes parecia
que a própria nomeação não a sustentava. Mas enfim.

Assim
seguia seu caminho. Talvez fosse mais um atalho. Uma trilha. Não é tarefa fácil
entender as esquinas escolhidas. E a cada virada- nem sempre é possível esquecer
o rastro. De onde se saiu. Ao menos é o que parece. Ou parecia.

Vai
lá saber por que nesse dia me fez tanto relato. Cedo. Bem cedo. Já foi
encontrando e dizendo bom dia. E sem esperar a contra proposta – desatou a
falar.

Chegara
a uma conclusão. Não importa se as fantasias se excedem. Fantasias são feitas
justamente para os excessos. Seja de credulidade, de ingenuidade, de
credibilidade, de eternidade. Não importa. Como um perfume. A intensidade é
forte – mas tem prazo.

De
realidade passamos toda a vida. A somar. A prever. A desistir. A ocultar. A permitir.
A ceder. Ocupa tanto tempo da vida útil e muitas vezes só se percebe isso muito
tarde. Foi o que entendi esta semana. Até de amar também se pode brincar. Assim
falou.

Sentei.
Estava com a agenda completa. Mas decidi escutá-la um pouco mais.

Concordei.
E fiz um breve comentário. Bem breve. Ela preferia falar a escutar. E foi para
isso que me sentei. Para deixá-la falar. E escutá-la contar. Mas optei pelo
breve comentário. E disse. Tudo se pode – quando há o amplo entendimento da
solidão que uma fantasia expõe. Só isso.

Ela
fez uma expressão facial que eu chamaria de interessante. Este me parece um
termo que melhor esclarece. O que em absoluto se entendeu. Fez a tal expressão
e desconsiderou o comentário. Continuou falando. A fantasia deixa de fora um
detalhe – o compromisso com a veracidade. Não envolve maiores nem menores riscos.
Não assusta. Nada exige. Só fica ali. Fazendo seu percurso mágico por entre sonhos,
estrelas, mares jardins, luares.

Levantei.
Não era tema para escutar com o olhar no relógio. Era intenso. Longo. Um possível
tratado estava sendo construído. Ficou até complicado entender. Onde estavam as
diferenças. Ou as semelhanças.

De
repente sorriu e disse. Ele a nomeara de heroína. Desta vez interpretei a
surpresa. Então tem um ele. Mais uma vez desconsiderou. Ele a nomeara de heroína
por ser tão responsável pelo dia-a-dia. Somente as heroínas se preocupam com a
rotina. Assim ele falou. E ela não só adorou – como incorporou de imediato a
personagem sugerida. Já foi logo se sentindo mártir. Faltou fogueira e forca
para tanta bravura assimilada.

O
denominou de – meu ópio. Quando o encontrava ficava viajando nas palavras dele.

Impossível
perder a oportunidade. Eis uma bela e bizarra dupla. Heroína e ópio. Surgiu
aquele silêncio. Um hiato. Onde o riso ficou pendente.  Até se dar conta do chiste. E rir. Muito. Ficou
quase entorpecida. Mais um pouco e se faria realidade.

Começava
a apreender os efeitos que as palavras podem causar.

O
momento se fez delicado. Parecia feliz. Não sei se plena de fantasia. Ou plena
de realidade. Estava numa espécie de completude. Principalmente com ela mesma.

Nunca
a escutara falar daquele jeito. Nunca exaltara uma parceria. Sempre vivera em
torno de si e dos próprios fantasmas. Estes sim. Sabiam acatar as ordens. E a
estes ela privilegiava autoridade.

Rimos.
Respondi que precisava de um tempo para pensar. Para reconhecê-la.

Desta
vez ela que interpretou a surpresa. Mas sou a mesma. Fantasias existem para que
se permaneça do mesmo jeito. Fantasia é terreno fértil – para se ficar inalterado.

Nos
despedimos. Antes de subir as escadas vi que fez o gesto habitual. Com os dedos
– colocou os cabelos por trás da orelha.

Voltamos
à rotina. Ela – a heroína. Eu – a desavisada.

E ambas – atrasadas.

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