Virando o Mapa


um saber oculto nas obviedades. Entendi ou descobri sem querer. Ou por muito
querer. Enfim. São muitos os desvios que levam às conclusões. Conclusões nunca
são lineares.

E
não foi diferente em relação às obviedades. Elas podem ser tolas. Podem ser
desacreditadas. Ou excessivamente criticadas. Muitas vezes transformam um
assunto entediante em horas de risos. Ou servem quase de imolação para algum desavisado.
E vítima e algoz – trocam de Lugar sem nem perceber. Não importa. Há algo nelas
que vai além. Há certa singularidade. Ou talvez um confortável amparo. Que muito
acalma a quem se apóia – sabiamente – nas obviedades.

Assim
fiquei hoje.


um ano estávamos em grande festejo. Era uma dupla comemoração. Melhor ser mais
justa. Era uma multi-comemoração. Ela se libertava. De dores e temores. De choros
e pudores. De tanta lágrima caída. De tanta solidão contida. De tanta razão
exigida. Das noites mal dormidas. Dos dias exaustivos. Das breves pausas para
retomar um fôlego – por si já esgotado. A outra metade teve que ir mais cedo. Numa
pressa sem explicação. Mas com a devida aceitação. Sim. Há sempre o que não pode
ser mudado.

Fazia
a primeira viagem por sua conta e autoria. Decidira assim. De um golpe só. Aliás,
só era sempre o alter ego dela. Ela e só.  Até ri agora. Era verdade. Uma dupla unitária.
Ou uma unidade dupla. Perfeito. Cada um se sustenta com os parâmetros que
escolhe.

Mas
assim foi. Decidiu. Vou sim. Vou me dar este presente. Aniversário é um
precedente. Procedente.

Chegou
num belo dia de sol. De céu azul. De brisa fresca. Já do avião começara a sorrir.
Junto com seu alter ego. Conteve-se um pouco porque se sentiu observada. Mas só
um pouco. Estava iniciada a temporada do riso. Quem quiser que duvidasse. Ou reclamasse.
Mas não com ela. Nem a ela. Estava em paz.

Lembro
que pôs as malas no chão com delicadeza. Olhou em volta do ambiente novo. Abriu
a porta da varanda. Percorreu com o olhar a paisagem de inúmeros prédios e
milhões de janelinhas. E sorriu. Sentiu-se em terra firme. Sentiu um prazer que
há muito esquecera. Ou arquivara. O tempo do arquivo – acabou. Abriu cofres e
gavetas. E se expôs.

Tinha
se dado um habeas corpus. E ia usá-lo com todo o direito conquistado.

Teve
de tudo. Excessos brotaram de todos os cantinhos. Vinho. Compras. Música. De escafandro
a borboleta – circulou com sua alegria quase de criança. No teatro a atriz
desnudava o corpo para falar da alma. Na vida real ela desnudava a alma – para entender
o corpo.

Espíritos
de vivos e de mortos foram convocados numa cozinha. Uma festa se fez em torno
das memórias. A noite permitiu o riso irônico. O vinho coloriu as narrativas. As
concordâncias e discordâncias se entrelaçaram até se igualarem. O macarrão do
desjejum fez o dia seguinte se estabelecer como – liberdade.

Chorou.
Riu. Acreditou. Comemorou.


se vai um ano. Um ano.

Desta
vez ela não virá. A comemoração será onde mora. Na cidade escolhida. Os amigos reunidos. Equalizado. Sim. Místico e profano. Só não sei se em igual percentual. Equalizado para ela nem sempre é igual a meio a meio. Esta é ela. E seu
fiel alter ego. 


cedo enviou um recadinho. Há um ano estávamos todos em festejos aí. Nunca vou
esquecer. Completou no final do recadinho. Estávamos fazendo a maior farra …
ah! que saudades!

Cinqüenta
anos – de anos especiais. Um por um. Eis alguém que validou todo o registro. Valorizou
todo o cartório. Considerou toda a ascendência. Compactuou com a descendência.

Assim
faz. A cada dia. Respeita e cumpre o prometido.

Eis
como descobri o valor das obviedades. E a tranquilidade que elas oferecem. Saber
assimilar o que é óbvio – possibilita a continuidade da emoção. Mesmo que tantas
vezes encoberta pela razão – sempre há por onde escapar. Valorizar a alegria da
Existência é sempre a melhor forma de festejar – mesmo que isso seja óbvio.

Por isso importa
a comemoração. A cada ano. Não faz diferença onde. Há situações em que espaço
é limite mais interno do que externo. Saudade também é motivo de parabéns. Tristeza
é festejo sem saudade.

Do
lado de cá do Mapa todos nós erguemos as taças pelo seu aniversário, Marie.

Advertisements
    • Maria do Carmo
    • August 27th, 2009

    Lêda,ahhhhhhhhhhhhhhh!!!Lindissimooooooooooo!!!!A ousadia "dela" me sensibiliza.Riso, alegria, prazer e uma cumplicidade ímpar.Um dia, quem sabe, pegarei um "taxi lunar" e desnudarei a alma para "compreender e atender"o corpo.Beijosssss

    • jean
    • August 26th, 2009

    muito bem !!!

  1. No trackbacks yet.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: