Semeando no Asfalto

Eis
o estilo dela. Pontualidade.

Talvez
mais que um estilo – uma necessidade.  Para
o tipo de atividade profissional. Complicada. Dificultada poderia ser um termo
bem mais adequado.  Por ser do sexo feminino.
Não importam as feministas. As machistas. Ou contestadores de conceitos. Ou de
preconceitos. Há limites que permanecem até quando apagados. Isso pode não ser
provado. Mas por certo é comprovado.

 Mas enfim. Sabia disso. Por isso era exigente.
Mas consigo mesma. As barreiras eram muitas. As críticas estabelecidas. Chistes
e slogans circulando. Quase ameaçadores em volta dos atos e decisões. Mas não
introjetava tais textos. Lia e dispensava. Digamos assim.

Os
colegas – todos do sexo masculino. Só ela ali. Sentadinha. Aguardando os
chamados. Fingindo agrupamento. Mas se sabendo solitária.

Avisara
pelo telefone. Ainda estou presa no trânsito. Chegarei dez minutos atrasada. Concordei.
Sem problema. Ainda estamos dentro do horário.

Ela
chegou. Sorrindo. Como sempre se apresentava. Feliz. Como sempre aparentava.

Viera
de outro Estado. Do sul. Nem se lembrava do período de vida que não trabalhara.

O
pai tinha uma pequena fazenda. Um roçado como se dizia de onde vinha. Enorme – sob
os olhos infinitos das crianças. Talvez sem exagero – sob os olhos limitados
dos adultos.

 Viviam do plantado e criado. E por vezes do
vendido. Assim passara toda a infância – sem consumismo. A adolescência – sem
rebeldia. A juventude – esta já com muita fantasia.  Seis crianças. O pai e a mãe. Esse o seu
universo por muitos anos. E a terra.

Ainda
escuro o pai os acordava. A mãe os aconchegava. Não com beijos. Muito menos com
afagos. Mas com o acolhimento – metaforizado – do calor. O calor que já vinha
da cozinha. Antes mesmo de saírem das caminhas – a casa já estava aquecida com
o fogo aceso. O barulho das panelas de alças de ferro fazia coro aos galos e
aves madrugadoras.  E estes aos pequenos
bocejos das carinhas sonolentas.

A
mãe fazia o pão. O pai fazia as linguiças. O irmão mais velho trazia o leite – ainda
quente da recente ordenhada. Quando o dia trazia a claridade do sol – já estavam
alimentados e a caminho da suas tarefas com a terra.

Faz
uma expressão quase visionária. A terra a encantava.

A parte dela era cuidar das sementes. Jogava com
sua mãozinha as bolinhas. E algum dos irmãos jogava a terra por cima. Riu. Sempre
empurrava um pouquinho mais com o pé. Como se para ter a certeza de que não fugiriam.

Vai
lá saber. O que pensa uma criança diante da terra e suas sementes. Mas assim
fazia. O irmão já habituado – esperava. E só depois que ela repetisse o gesto –
seguiam para o próximo cavadinho.

Adorava
ver as sementes. E aguardar as plantas se erguerem do chão. Ficava fascinada. Por
um tempo acreditou numa magia. Uma criação própria. Tinha um duende lá debaixo.
Que recebia os grãozinhos. E devolvia as plantinhas. Por isso tinha que agradá-lo
com as sementes. Era o almoço do duende.

Nunca
soube de onde tirara esta idéia. Mas também nunca comentou com a família. Esta sua
idéia de Agricultura. Riu.

A
vida se fazia em torno das estações do ano. Dos nascimentos. Lembra de temores.
Se choveria muito. Se demoraria de chover. Se a geada impediria uma boa
colheita. Isso sim. Faz parte até hoje de alguns sonhos noturnos. Mesmo já tão
distante. No tempo e no espaço.

Agora
estava aqui. Cercada de asfalto. De concretos. A vida mudara. Não tinha
mais os pais. Os irmãos casaram. Novos núcleos se estabeleceram. Somente ela
viera para cá. Por motivos de casamento. Agora já desfeito. Preferia não falar
sobre o ocorrido. Cuida de uma filha e dois netos.

O
desjejum até hoje é um momento especial para ela. A única refeição do dia que
sente enorme prazer. Ainda acorda cedo. Antes do sol nascer já está a caminho
do ponto. Em seu carro. Ao serviço dos seus inúmeros passageiros.

Chegamos
ao local combinado. Ela ressaltou. E no horário exato. Ainda sentia o cheiro do
pão. O orquestrado barulho das panelas substituiu buzinas e freadas. Vi o duendezinho
recebendo as sementes pela terra úmida. Me surpreendi com o verde da planta
nascendo.

Lamentei.
O percurso fora curto para tão bela história.

Olhei
para ela. Uma mulher jovem. No corpo. Na expressão. Mas principalmente – na emoção.
Ainda estava com o sorriso que o relato associara. E conclui. Algo se mantivera. Ela continuava plantando. Semeando.

Olhei
para o céu. Choveria. Sorri tranquila. Os duendezinhos por certo entregariam as
plantinhas.

Assim
iniciei a minha rotina. Assim ela prosseguiu com a dela.

 

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