Re-tomando o Oriente

O
dia era de calma absoluta. Nada de despertador. Nem de compromissos.

Dia
de folga. Comemorado. Festejado. Desde a véspera. Depois de uma semana só de
trabalho. A folga do dia seguinte é motivo de brinde antecipado. Quase como um
presságio. Ou como cortejo ilusionista.

E
desta vez não foi diferente. Os tais dias úteis passaram com ambigüidade. Às vezes
lento. Às vezes rápido. Dependia do olhar para o relógio. E do tempo disponível
para esse especifico olhar. Até brincara com uma amiga. Estou de lesão de
esforço repetitivo. De tanto que confiro para o relógio. Riram.

Os
excessos acabam provocando o riso. Por desgaste do oxigênio – do cérebro. O
riso se faz presente por qualquer observação. Não importa. Deve ser uma espécie
de defesa orgânica. Ao serviço da mínima sanidade possível. Riso cura-dor. Muito
mais do que provoca-dor.

Enfim.
Foi o que voltou pensando. Foi o que acordou pensando. No dia da folga. Quase
inventou uma oração. Algum bendito seja. Mas nem isso queria pensar. Era folga não
só de atos. Mas – principalmente – de pensamentos.

Era
o que acreditava. Crédula. Muito crédula.

Tinha
uma pequena tarefa. Coisas da rotina. Tarefa da despensa. Assim. Coisa boba. A três
ou quatro quadras da própria cama. Do próprio terraço. Nem levaria em conta o
elevador. Estava tranqüila. Era levantar e resolver. E voltar ao estado
letárgico. Riu.

Saiu.
Preferiu ir de carro. Não estava ali para contar quadras. Mas para contar brevidade.
Sim. Resolveria as tarefas necessárias – e voltaria ao seu festejado casulo. Até
se sentiu poética. Mais uma vez riu de si mesma. Eis algo em que era boa. Sabia
rir de si mesma com toda a frivolidade permitida. Ou até proibida.

Sempre
achou o Oriente uma parte especial do Planeta. Achava os nascidos daquele lado –
privilegiados. Delicados. Sensíveis. Pragmáticos. Pessoas com Habilidade Manual
Genética. Sim. Uma sigla.

Não
havia quem não soubesse transformar um papelzinho despretensioso – uma dobradura
aqui outra ali – numa obra de arte. Sempre invejou quem sabe colocar mãos e cérebro
em obediente sintonia. Deviam saber uma arte maior – a de lidar com o tempo. Por
isso a magia das manufaturas. Tudo em tempo hábil. Perfeito.

Ali
estava ele. Com seu estilo oriental. O genótipo. O fenótipo. Completo. Já um
senhor. Mas por certo dono de si. E das dobraduras.

Ele
deve ter descoberto naquele dia. Dobradura – melhor em papel.

Vai
lá saber por que – decidiu dar ré. Assim. No meio dos carros. Em meio ao trânsito.

 Desconsiderou buzinas e gritinhos. Apenas
seguiu a decisão. Simples. Deu ré. E o carro – seguiu a orientação. Para isso não
é necessário GPS. Nem tecnologia avançada. Muito menos uma dialética
específica. A decisão se basta a si mesma.

A
pancada foi forte. O carro gemeu. Ao menos foi o que pareceu. Um gemido. Fino –
por certo. Mas longo. Longo. Parecia que não mais acabaria. Nem um contralto
teria tanto vigor num gemido. Enfim.

Vai
lá saber a força que move uma ré. O que se busca nesse retorno. O que se espera
em retomada. O susto se fez mais objetivo. Concluiu de imediato. Simples. Sem teorizações.
Bateu.

O
capô obediente – se curvou. Mas não uma curva qualquer. Vai ver uma curva
oriental. Uma curva simétrica. Coisa de quem tem prática. Ao menos isso. Curvou
em toda a sua extensão.

Ela
desceu do carro. Olhou. Com olhos bem abertos. Ele desceu do carro. Olhou. Foi o
que pareceu. Muitas vezes olhos muito lineares cursam com alguma dificuldade. Para
quem os observa. Pareceu olhar. Comentou. Questionou. Como foi isso. Com uma
suave interrogação.

Muitas vezes o
caráter da pergunta faz difícil a resposta. Para o oriente. Para o ocidente. Até
para os pólos. Mas a resposta veio. Contida. Segura. Pelo Seguro. Trocadilhos sem
Pacífico. A esta altura o cérebro virara uma dobradura. Quase riu. Quase. Mas também
não revelou os pensamentos. Deixou-os escondidos na tal – metálica – dobradura.

Dia
de folga com atropelos. Início da semana sem rodas. E com o capô recurvado. Fez
o protocolar. Voltou para casa. Sem a tarefa da rotina. A despensa vazia.

Jurou.
Não sairia até o raiar do sol – do próximo dia útil. Estancou a frase. Com a
mesma decisão que ele dera a tal ré. Nada de sol nascente. Ao menos por um
tempo. Perdido.

 

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    • jean
    • August 26th, 2009

    temperamento de ferro !!!!!

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