Nem lá…nem cá…

O
espaço era grande. Piso branco. Paredes brancas. As molduras das portas em
madeira clara. Largas. Algumas cabines laterais avisavam um pouco do que se
tratava. Era uma loja. Isso sem dúvida. Ficou claro tão logo olhei em
volta.  Uma das paredes não fazia ângulo reto.
Era arredondada. Dava ao lugar um aspecto mais sofisticado.

Nem
sei se é essa a palavra certa. Mas enfim.  Se é a que me ocorreu – é a certa. Agora entendo
desta forma as palavras. Elas comandam. Eu obedeço. Nada mais de rebeldias. Provocam
mais – más – conseqüências que a objetiva e servil obediência. À letra.

Não
era uma loja comum. Em absoluto.  Era uma
loja de roupas femininas – turcas. Sim. Vendiam roupas femininas turcas. As cortinas
de tecido fino branco davam a privacidade nas tais cabines. Deviam ser sete. Isso.
Sete cabines em ordem linear. E com as cortinas brancas. Eram bem espaçosas. Não
entrei. Mas era o que parecia pela largura das cortinas. Eram fartas em tecido.
Faziam muitas pregas longitudinais. Repetiam a sofisticação e davam um ar
suntuoso.

Um
ventinho devia vir por algum lugar. Não identifiquei de onde. Mas fazia as
cortinas balançarem com suavidade.

Uma
porta branca ficava fechada. Localizava-se na lateral da sala. Esta porta sim. Formava
um ângulo em relação às cabines. Avisava. Através de uma placa. Massagens.

Perguntei
a alguém que passava se a massagem era possível. Sim. E que eu poderia escolher
o tipo. Escolhi. Avisaram. Já tinha uma pessoa lá dentro. Assim que saísse – seria
a minha vez.

A
música percorria o ambiente – marcando o estilo. Uma música como se tocada por
uma única flauta. Mas era deliciosa. Presenteava os ouvidos com sua tonalidade
leve.

Estávamos
juntas. Fazia tanto tempo que não saíamos juntas. Ela no além mar dela. E eu no
aquém mar dela.  Mas enfim. Estávamos
juntas.

Ela
decidiu provar uma roupa. Saiu da cabine com as cortinas brancas – com uma capa
longa vermelha. Por cima de um vestido branco. Também longo. A roupa era linda.
A capa vermelha toda rebordada de dourado. Entre fios e moedas. Tinha um capuz.
Mas ela dispensou. Queria o rosto bem à mostra. Foi o que falou. 

Estava
rindo muito. Nunca a tinha visto assim. Não nego que estranhei. Ria muito. E dançava
segurando pelos lados a capa. Girava sobre si mesma. E ria. A expressão do
rosto dela era de total alegria e felicidade.

De
repente fez algo inimaginável.

Começou
a dar berliscõezinhos. Nas pessoas que circulavam pela loja. Saia dançando com
sua capa ao som da música. E dava os beliscões. Não importava se homem ou
mulher. Era o que parecia. Mas ria – se divertia com o pulinho assustado das
pessoas.

Um
homem a viu – e se afastou. Sério. Era já um senhor – gordo. Barriga adiantando-se
à imagem corporal. Cabelos castanhos. Alto. Roupa cinza escuro. Ela foi em
direção a ele. Rindo. Claro. Ela só ria. Para beliscá-lo. Não acreditei. Até pensei
em impedir. Mas desisti. Melhor que ela fizesse o que quisesse. Vai ver é assim
na Turquia. E ela estava incorporada aos hábitos do lugar. Achei melhor só
observar.

E
fiquei um pouco afastada – esperando o que aconteceria.

Ela
continuou rodopiando. A moça veio me avisar que eu já podia entrar. Para a sala
de massagem. Ela olhou para os meus tornozelos. Fez um comentário. Estão tão inchados.
As pernas também. Melhor ficar assim. E riu alto. Olhei procedia. Estavam mesmo.
Muito inchados.

A
porta abriu. Uma mocinha vestida de branco apareceu. Era um vestido curto. Tinha
uma marca escura na pele das costas. Avisou que já podia entrar. Olhei para a
mesa de massagem. A sala era clara. Muito clara. Mas agradeci. Não quis mais. Talvez
fosse hora de voltar. Mas não sabia bem para onde.

Por
um tempo ainda ela continuou dançando com a capa. Ainda tentava beliscar as
pessoas.

Depois
a retirou e jogou numa cadeira que ficava perto das cabines. Uma bela cadeira. Ainda
tive a oportunidade de notar. O tecido era azul claro. Espaldar alto. Contornado
com dourado. A capa ali ficou. O vermelho contrastando com o azul.

A
música aumentou de tom. Subitamente. Um som alto. Repetido. Irritante.

Em
minha frente estava uma cadeira.
Não forrada de azul. Não tinha espaldar alto. Muito menos uma capa vermelha com fios e moedas douradas – sobre ela. Não tinha local de
massagens. Minhas pernas não estavam inchadas. Ela – por certo – continuava
além mar.

Sorri.
E dei vivas às boas intenções do inconsciente.

O
despertador avisava o início da rotina.

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