Enumerando Ato

Ele
veio de lá. Feliz. Fazia já alguns anos que não nos víamos. Trabalhamos juntos
por muito tempo. Saíra de repente. Mal nos despedimos. Questões
burocrático-egóicas. Algo por aí.

Estas
são sempre as grandes questões. Sempre nascem desta dupla. Mal explicada. Mal
conjugada. Ou muito mal dissociada.  Mas
imperiosa. Quando sobra hífen – não há o corte no momento certo. E apagam um
espaço. Mais ou menos assim.

Minha
avó nunca deixou de avisar. Muito eu é sinal de pouco meu, menina, muito eu é
sinal de pouco meu. 

Acho
que só hoje entendi o que ela falava. Foi preciso anos e anos para assimilar. A
linha quase transparente entre o eu e o meu. Sábia – sempre.

Mas
desci. Direto para o local indicado.

Tinha
uns exames a fazer. Estava entre corajosa e temerosa. Exames nunca são da ordem
do conforto. Ou da diversão.

Mesmo
que alguns estudiosos digam o contrário. Ou os seguidores do Marquês. Não
faltam teorias. Apologias. Tratados. Mestres de todo o mundo. Austríacos.
Franceses. Portugueses. Italianos. O mundo girando em volta de uma dolorosa
teoria. Sobre dor e alegria. Sobre sofrimento e satisfação. O homem sendo apto
para a dor. Muito mais do que para prazer. Até os poetas se manifestam – sofrer
por amor.

Nem
sei quem são esses. Os estudados.  Os
aptos para a dor. Eu não. Detesto dor.

Foi
assim que desci. Com este pensamento tentando ocupar o outro.  O dos exames. Brigar com estudiosos de nada resolve.
Mas ocupa o espaço do medo. Para isso resolve. E muito. Afinal nesses tempos de
tantas contínuas e perigosas mutações – exame é indício de risco. Ou de
contaminação.

Estava
assintomática. Podia até ter contaminação. Mas isso não se podia precaver. Nem
prever. Enfim. O trabalho me colocava em situação de risco. Fosse qual fosse. E
qualquer dos sintomas listados – presente – era igual a pesquisa.

Não
era a situação do momento. Mas não tinha escolha. Era fazer os exames.  Anuais. Rotineiros. Necessários. Procede. Obrigatórios. E pronto. E assim continuei.  Me repetindo – para me ordenar. Obedeça. E
pensar que sempre fui rebelde. Nada de temer agulhas. Onde já se viu. Tudo bem. Obedeci.

Foi
em meio ao local do exame que o avistei. Eu entrando na sala dos exames. Ele na sala do
atendimento. Em frente.

Vi
que abriu os olhos. E sem metáfora. Abriu mesmo. Se surpreendeu. Veio em minha
direção. Passos apressados.  Com um
sorriso. Expressão de confraternização. Desconsiderou as limitações. Foi logo
avisando. Em pé diante de mim. Voltei. Como se a materialização não fosse
confiável. Apenas suposta. Respondi com um chiste. O bom filho à casa torna.

E
fiquei observando.

Por
que – voltar – se transforma em ato. Muito mais do que em fato. Precisa de
desculpas. Sempre. 

Cada
um com suas demandas. E espelhos.

Informou. Esta é a primeira vez. Nunca voltei
de onde sai. Repetiu muitas vezes. Esta é a primeira vez. Continuou se
explicando. Devia ser importante para ele. Se sentir convidado. Ou aceito. Ou
vai lá saber o que.

Eu
até ri. E falei. De onde saiu – ou para onde saiu. Desconsiderou. Fez bem. 

E
continuou desconsiderando. Estes exames vão resultar todos normais. Você está
ótima. Agradeci. Um lorde em termos de gentileza.

Vamos
lá. Tomar um cafezinho. E você me conta desse longo tempo – que você continuou aqui.
E eu lhe conto do meu – que fiquei tão distante daqui.

Ela.
Convidei mas não quis voltar. Casou. Neste último verão. Está feliz. Ele. Sim.
Desde que saiu também está em outra Instituição. Ele. Não está bem. Acho que
precisa voltar. Ele. Também não se acertou. Quem sabe também volta. Ele. Está
feliz com o novo cargo.

Falamos
em poucos minutos. Mas acho que nunca falamos tanto. Soubemos dos amigos.
Contamos de nós mesmos. Rimos das consequências 
– e até das causas.

Voltamos
rápido para as nossas atividades. A rotina – digamos assim – estava lotada.

Olhamos
um para o outro. De repente. Com expressão de susto-risonho. Esquecemos o cafezinho. Intacto.
Em cima da mesa. Rimos. Não importa. Tem café em todas as estações do ano. E em
todos os horários. Até qualquer outro intervalo. Qualquer dia. Foi a primeira vez que voltei de onde sai. Repetiu. E completou. Mas estou feliz por isso.

Ri. Viva a sexta-feira.

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