Projeto cor-de-rosa

Lembro
do dia que a conheci.

Iniciava
o trabalho no Projeto. Logo no primeiro dia. O grupo já estava há mais
tempo. Não conhecia os membros da equipe. Mas fui lá. No local de encontro. Assim
me avisaram. Chegar a tal hora. Em tal lugar. Com seu material próprio para o
atendimento. E lá se identifique com tal pessoa. Seu crachá estará já no local.
De lá sairiam os profissionais para as áreas de atuação. Simples assim.

Compreendido.

Ela chegou – sorridente. Falando com todos. Caminhando apressadinha. Parecia
ser muito delicada. Atenciosa. Todos ficavam em torno dela. Os que iam chegando
– já iam fazendo círculo. E ela no meio do círculo. Sorridente.

Nesse
dia específico falavam sobre postura. Uma observação sobre alguém do grupo. Ou
sobre algum estilo. Nunca soube ao certo. Algo por aí. Lembro que respondeu. Num
tom mais alto. Porém não ríspido. Quando se é carente – procura-se ser
simpático. Eu sou carente. Trato todos muito bem. E riu. Como se a carência
fosse um adereço. E como tal devesse ser tratada.

Perfeito.

Me
apresentei. Ficamos amigas.

Não
eram daqui. Nem ela. Nem o marido. Estavam casados há pouco tempo. Viera por um
convite profissional para ele. Parceira – aceitou. E estava se entendendo com a
cidade. Já conhecia mais lugares que os nascidos e criados aqui. 

Continuamos
em nosso trabalho. Um Projeto social. Nos reuníamos uma vez por semana – o dia
todo. Contou sobre o projeto particular. Queriam um filho. Logo.

Sempre
festejada – acabou reunindo torcida. Todos participavam. Se sim. Se ainda não. Alguns
mais afoitos até do por que não. Outros mais discretos – aguardavam as mudanças
que denunciassem.  Ela respondia. Acolhia.
Escutava. Silenciava. Aguardava.

Era
um tal de – este mês ainda não. Ou – não foi desta vez. Mais exames. Mais aconselhamentos.
Mais pesquisas. A ciência e a tecnologia a serviço- da fertilização. Não faltaram
ideias. Ou sugestões. Ou indicações. Ou dados. Da Imunologia à Fisiologia –
tudo visto e revisto.

Um
dia tomou a decisão. Cansei. Chega de temperatura. De ciclos. De emergências. De
privacidade alterada. De papel. De regras. De estatísticas. De relatos
psicológicos. Cansei. Vai ser estilo artificial. Pragmático. Vamos dar uma
força à natureza. Para isso existe a evolução. Da ciência. Da pesquisa. Dos resultados.
Para ser utilizada. Vamos utilizar. Certo. Então em duas semanas.

Quando
nasceu – já não trabalhávamos mais juntas.

Olhei
para as fotos. Linda. Moreninha – como a mãe. Linda – como a mãe. Olhar decidido
– exatamente igual à mãe. Mas ela foi logo avisando. É idêntica ao pai. Linda –
como ele.

Contou
rindo. Depois que marquei o artificial – ela veio natural. Nem conheci a equipe.
Quando estava já agendado – desmarquei. Ela já estava fazendo parte da nossa
vida. Da Vida.

A
torcida continuara. Desta vez de forma métrica. Está maior. Esta crescendo. Está
sem cintura. Está com jeito de silicone. Cada um construindo nela uma nova anatomia.
Com as palavras. Com o olhar. Até com a mímica. E muitos risos. Sempre. A cada
encontro do grupo. Todas as manhãs. 

Minha
avó tinha uma ideia para o riso. Só é realmente feliz quem sabe compartilhar o
riso, menina, só é realmente feliz quem sabe compartilhar o riso.

Procedia.
Procede.

O
riso compartilhado é uma das mais belas cenas de um grupo. E era assim com ela.
Continuavam todos em volta. E ela feliz. Lembrei o comentário sobre a carência.
Transformara-se num adereço dispensável. Ou até ignorado. Não era mais uma
questão. Nem um símbolo. Ou muito menos uma situação. Não importava se não era daqui.
Ou se era de lá. Ela agora era duas.

Fiquei
emocionada quando li o recadinho. Nasceu. É maravilhosa. Estamos muito bem.

E
adivinhei o sorriso dela. O primeiro olhar para a filha desejada. O toque
delicado na pele suave e rosada. O gestual protetor e acolhedor. As lágrimas
fáceis da intensa atividade emocional. As primeiras dificuldades para quem se
inaugura – mãe. As pequenas dúvidas. Será que está certo. Será que é assim
mesmo. Mas segura diante de uma certeza absoluta – o apaixonamento imediato. 


estava. Na tela. Colorindo. Toda enfeitadinha para a foto – a Laurinha.

Bem
vinda. Bem Vida.

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