A Prática da Evolução

O
telefone me acordou. Um aviso protocolar. A rotina começava – já.

Nem
sei bem como desci as escadas. Erro – sei. Rápido. Muito rápido. Até lembrei o
dia que dancei abraçada ao corrimão. Um ballet exótico. Nada sensual. Numa tentativa
de não me fragmentar no chão da sala. Tentativa e êxito. Mesmo que durante uma
semana negasse. Nada de estranho com o meu caminhar. Como se não vissem. Faz de
conta que tenho nada. Faz de conta que acreditam. Assunto encerrado.

Enfim.
Desci as escadas já informando. Estou com pressa. Tenho uma sequência a ser
seguida. Antes de chegar lá. No trabalho. Onde mais seria. Lógico. Você não tem
que entender. Se eu não disser. Tudo bem. Depois discutimos semântica. Deixa para
lá. Depois explico. É mal educado falar durante a mastigação.  Sim. Amanhã falamos.

E
já fui quase empurrando o elevador. E reclamando com as correntes lentas.

Nestas
horas me lembro de lá. Da brisa do mar serenando ânimos. Do cheiro de café da
manhã com tapioca. Da relativa calma diante do inevitável. Até o barulhinho da
rede no prendedor. Lembro tudo. Mesmo que em segundos. Como uma viagem da
matéria. Transcendental. Dá até para suspirar.

Mas
enfim. Estou cá. Foi para cá que vim. Melhor deixar de cheirar o carro. Nunca
terá cheiro de maresia. Até ri.

Ainda
bem que não é longe. Este o primeiro pensamento. Parada com o trânsito
emperrado. Não andava para lado nenhum. E quase foi o último pensamento. A buzina
delicada me fez virar para o lado.  Abri o
vidro. Pois não. Um simpático senhor sorria para mim. Até ai tudo bem. Vai ver
queria se socializar. Mas não. Avisou com a fala e com o dedo. Apontou. Está muito
baixo. Deve ter furado. Vá rápido a um posto.

Não
sabia se ria. Se chorava. Ou se descia do carro e torcia o dedo dele. E a idéia
dele de cidadania solidária. Como assim rápido. Não tinha saída. O trânsito
parado. E ele vem me apontar um pneu furado de emergência. Não deveria ter família.

Mas
agradeci. Muito obrigada. Muito gentil. Uma lady. E eu que dizia que não era
nem lady nem santa. Contradição total. Exatamente o oposto. Uma verdadeira
santa inglesa. Ou inglesa santa. Certo. Mais semântica. Hoje deve ser o dia
Nacional da Semântica.

Mas
consegui. Eis um posto.

Então
tem um prego. Vai poder trocar. Espero sim. É verdade. Coincidência existe sim.
Então ele chegou com o mesmo problema. E por um segundo eu seria primeira. Não faz
mal. Espero. Sim. Sou bem calma. E ele deve ser cego. Pensei. Mas calei.

Não.
Ela já foi. Sim. Ela achou que você chegaria no horário. E eu achei que
chegaria a tempo. Opiniões combinadas em agendas descombinadas. Quase um poema.
Sim. Você é a segunda pessoa que me fala isso hoje. Sobre mim. Devo ser mesmo. Muito
calma. Ou só tem cego por aqui. Nada. Deixa para lá. Sem problema. Entregue em
meu nome. Não esqueça. Por favor.

Sim.
Nem sei como consegui chegar. E na hora. Pode mandar entrar. Ainda bem. Se me
chamasse de calma – eu ia descer. Como assim. Sou uma Lady. E Santa. E com
letra maiúscula. Ia descer para me internar. Depois lhe conto o que foi. Esta manhã.
Mas pode mandar entrar. Rimos.

Ele
entrou junto com eles. Tinha uma covinha exposta por um mal disfarçado sorrisinho.
As mãos estavam enfiadas no bolsinho da calça.

Eles
avisaram. Ele estava todo feliz porque ia lhe ver hoje. Tem uma novidade para
lhe contar. Verdade. Ele que quer falar.

Ele
me olhou. Chegou mais perto. E disse como um segredinho. Mas com muita
seriedade. E firmeza na voz. Tirou a mão do bolsinho da calça e ergueu o
dedinho para me informar.


apendi a fasser cici em pé –

Olhei
para ele. Lindo. Feliz. Envaidecido com seu aprendizado. Orgulhoso de si mesmo.
Dei um beijo de parabéns. E celebramos na sala esta grande – e verdadeira –
conquista.

Diante
daquela frase – tudo o mais ficou tão banal.
Pneus. Furos. Horários. Ficou tudo isso tão superficializado. Diante da alegria de quem se entende
crescendo – e sabe já fazer xixi em pé. Pode parecer tão simples. Mas não é.

Poucas
vezes entendi com tanta objetividade – o progresso. Ou me ensinaram com tanta suavidade
– a evolução. O crescimento. Isto sim – é importante.

Agradeci ao Universo – o privilégio da escuta. E o dia se fez completamente – válido.

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