Fica alertado e proibido que…

O
aviso veio explícito. Claro. Objetivo.

É
proibido beijar. É proibido abraçar. É proibido falar muito próximo.

Fiquei
observando. Os comportamentos de cada um. À proporção – e este é o termo exato
– que ela avisava. O olhar. A expressão facial. O gestual.

Diria
até que se estava mais próximo a uma equação. E muito longe de um simples aviso
com palavras. Ou com explicações. A equação de cada um que escutava não se
somava com a do outro. Não havia uma conta. Ou uma soma. Nem uma divisão. Ou um
parêntesis. Talvez – com muita benevolência – um x.  Havia subitamente o conjunto vazio. Assim.
Corpos estanques. Algo por aí. Quase uma matemática. Não fosse eu péssima com números
e equações. Mas foi só o que me ocorreu enquanto olhava.

Este
tipo de aviso – expõe.

Cada
um a buscar em seu próprio corpo o limite de si mesmo. O corpo como uma
prioridade extrema. Dava até para dizer que transcendeu a idéia da matéria em si.
Uma metafísica ao contrário.

Provocou
uma certa sonoridade. Pelo discreto re-acomodar nas cadeiras. Já todos se
entendiam – num total conformismo com o distanciamento afetivo.

Ela
que veio avisar – avisou rindo. Como se alheia estivesse ao ambiente. Ou ao
risco. Deve ser como jogo de criança. Ganha quem fala primeiro. Foi só o que me
ocorreu ao vê-la dar um tom chistoso. Nem de longe pensei em associar ao Marquês.
A dose do Marquês já está creditada em excesso. Mas enfim. Deu um ar cômico
diante da interdição. De repente – completou. Nem aqui – nem em casa. Cuidado
com os familiares. Não teve jeito – venceu o Marquês.

Tudo
começara com uma gripe. Desta vez. É o que parece. Porque impossível não
generalizar. Algo como cíclico. As perdas diante dos desconhecidos, conhecidos
e próximos – põem Dor como alvo. Para que o esclarecimento se faça objetivo. Procede.

De
tempos em tempos – desde a antiguidade – surge uma doença universal. E lá se
vem o isolamento. Não só dos doentes. Mas – e principalmente – dos sadios. Uma triste
poesia abstrata. Todos lêem. Acreditam. Até se emocionam. Mas cada um vai
compor as suas rimas da forma que mais se proteja. Também procede.

E
existe nada mais imperativo de proteção – do que a interdição dos afetos. Incrível.
Como uma interminável expiação de culpa arcaica. Mais ou menos assim. Complicado
definir a demanda individual diante de um temor coletivo. Ou o contrário.

Após
o aviso não havia mais diferença entre o disfarçado temeroso e o suposto infectante.
Ambos circulavam – quase igual a um falo. Da posse de um para a posse do outro.
Cada um como portador exclusivo da praga. Diante do outro também portador
exclusivo da mesma praga. Um espelho – sem o país das maravilhas. E sem o
coelho. Vai ver por isso se perdeu a hora.

Não
faltaram as piadinhas defensivas. Uma forma suavizada de acatar. E – ao mesmo
tempo – justificar. Não sei se conto em casa. Ela vai perguntar com quem me
beijava aqui. Ainda bem que tenho um namoro virtual. Posso mandar beijo o tempo
todo. Vou arrumar também um marido virtual. Por isso prefiro só meu cantinho. Nada
de parceiros. Solidão faz bem à saúde.

E
assim este dia seguiu. Cada um como seu advogado. E promotor do outro. Ou até
um vice-versa cabe aí.

Quem
chegava para as consultas oferecia e recebia um formal, polido e adequado – cumprimento.
As salas sempre que possível – ficaram com portas abertas. É preciso que o ar
circule.

 Até ri quando escutei este comentário. E lembrei
as tantas e tantas placas que têm nas ruas daqui. Nunca feche o cruzamento. Via
alternativa. Não ultrapasse a faixa amarela. Via com câmeras filmadoras.  

Agora
é preciso acrescentar mais uma. Interna. Privativa. Asséptica. Para combinar
bem com o Lugar. Para fazer parte – se acumpliciando. Não importa se é social. Cordial.
Fraternal. Sensual. Não há diferença. Novos tempos. Real e triste. Beijar não faz
só sapinho. Beijar faz porquinho.

Nem
bem tinha encerrado este pensamento – sobre os trilhos – e entraram duas
pessoas. Estava super lotado. Pelo horário e pelo dia. As pessoas se amontoavam.
A pressa do retorno era bem maior que a lógica do espaço. Mas enfim. Eles entraram.
Um homem e uma mulher. Seguravam as barras de ferro. Cuidavam para não cair
sobre os outros. Ou os outros não caírem sobre eles. Estavam de máscara.

Impossível
não parafrasear o mestre inglês. O resto é silêncio.

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    • peter
    • July 28th, 2009

    já leu ensaio sobre a cegueira de saramago ??? agora, tem a ver com a gripe….tutto bene ??? Ciao.

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