Clareando Sonhos

Não
fora um dia dos mais fáceis.

Tudo
já começara de véspera. Mudança de horário. Troca de agendamento. Alteração no
local. O simples transformado na contramão. A ordem se oferecendo contra a lei.
A lei se fazendo firme. Para recompor a ordem. Mais ou menos assim. Nada de filosófico. Uma organização de ritmo. Sem dança. Sem
compasso. Apenas uma exaltação ao – impossível.

Durara um dia inteiro. A dissolução da linha entre o permitido e o pertinente. Até entre a consideração e a menos importância. E custara o pensamento da noite. Não diria uma noite em vão.
Este termo só existe em notas de rodapé.

Lembro
de uma frase da minha avó. É o escuro da noite que interrompe o sonho, menina,
é o escuro da noite que interrompe o sonho. Estava certa.

Mas
o dia veio – e a solução junto com ele. Enfim.

Foi
nesse agenda-e-troca que o de repente se autorizou. Uma cena realmente inesperada. Pelo
menos a parte que me coube na cena. E justo eu que tanto admiro as vozes. Fui perder
logo a minha. E no momento que mais precisei dela.

O
que saiu da minha garganta não podia jamais ser chamado de voz. Acho que nem a
primeira sonorização da humanidade foi daquele jeito. Um gutural som estranho. E
uma imensa alegria única. Vai ver é assim. A primeira parceira.

Eu
olhava em busca de um presente. O livro que ela poderia gostar. Com a falta de
horário livre lá se ia um mês de atraso. E ela sempre fora pontual nas
comemorações. Resolvido o tal agendamento – melhor também resolver as pendências.
Talvez uma opção para relaxar.

Estava
diante das prateleiras. Tentava pegar um livro. Por sorte lá as prateleiras são
fixas. Senão o mundo teria vindo abaixo.

Segurei
o volume escolhido. Achei adequado a ela. Adora poesias. Em especial as dele. Foi
ai que notei alguém do meu lado. Ele me olhou atento. Perguntou. Se eu era eu. Assim.
Falou meu nome com tranqüilidade. Até aí eu ainda possuía uma voz normal. E o cérebro
ainda funcionava. Aparentemente – ao menos. Confirmei. Polidamente. E curiosamente.

Fez
um cumprimento formal – mas sorridente. E continuou. Reconheci pela foto. Leio
seus textos. Admiro muito sua escrita. Que bom poder lhe dizer isso
pessoalmente. Que coincidência lhe encontrar aqui. Diante de uma mesma estante.
Quando este espaço é enorme. E só estantes. Riu. E comentou sobre um ou outro texto
que mais gostara. Riu de mais algum outro. Falou de um estilo diferenciado. Esta
foi o último termo de que me lembro. Estilo diferenciado.

Quis
responder. Quis relatar minha enorme alegria. Minha surpresa. E avisá-lo de que
ele fora o primeiro a me reconhecer. Que eu nem sabia que era reconhecível. Nem
poderia imaginar. Não faltaram ideias. Ou discursos. Ou metáforas.

Mas
estava já na fase dois. Eu. Já não tinha um som adequado na voz. E acho que até
o encéfalo ficou catatônico.

Nunca
me acontecera algo sequer parecido. E nunca previ que pudesse me acontecer.

Ele
continuou falando. Comentando. Fez até algumas sugestões. Exigiu uma maior
exposição da minha parte. Fez gracinhas. Deveria ter uma seta indicando os meus
caminhos. Algo por aí. Falou que eu estava escondida. Bastante desenvolto. E seguro
da sua apreciação.

Fez
uma observação sobre o livro que eu escolhera. Recomendou ficar atenta às
sugestões dele. Respondi um – obrigada. Obrigada de novo. Até me esforcei por
um terceiro – obrigada. Mas a voz já em contraponto com o entusiasmo – se isolou.
Belas companheiras. Cordas vocais tímidas. Não me faltava mais nada.

Ele
saiu. Eu fiquei ali. Com o tal livro de poesias nas mãos. O presente dela
atrasado. As palavras dele me circulando – a pele. Olhei em volta. Parecia que
de repente só eu estava ali. O lugar havia esvaziado. Deve ser assim nessas
situações. Preciso saber de alguém experiente.

Coloquei
o livro de volta na prateleira. Ela esperaria mais um dia. Aquele momento se
tornara muito meu. Não tinha como dividir. Ou ser pragmática. Não sabia se tinha
entrado numa bolha. Ou saído dela.

Voltei
feliz para casa. Ri. Com a alma. Com as mãos. Eis enfim o terceiro – obrigada. Tomara
que ele leia. E compreenda. A rouquidão – e a feliz emoção que causou.

A
noite me pareceu tão clara.

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    • Cris
    • July 22nd, 2009

    Concordo com ele, sobre você estar escondida. Por outro lado, a surpresa foi muito maior, certo? Ver o que não é tão visível, ser o descobridor… Emociona quem descobre e o descoberto. Imagino tua alegria e é muito bacana você compartilhar isso conosco – seus leitores. Logo, logo você estará autografando seus livros. Parabéns mil vezes.

    • peter
    • July 22nd, 2009

    grande vitória tão bem cantada !!!! A prateleira não caiu !!!Bacio.

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