Brisa Numérica

Foi
a primeira vez que um número me chamou a atenção.

Passei
um tempo olhando. Até com certa emoção. Nunca podia imaginar. Justo eu. Nunca
fui ligada em números. Menos ainda em estatísticas. Sempre me senti com uma
deficiência. Vai ver congênita. Para lidar com os números. E junto com a deficiência
– a objetiva inveja. Por quem sabia lidar com eles.

Podia
ser a soma mais simples. Ou a multiplicação mais primária. Subtração – em especial
– a forma mais rápida de erro. Nunca consegui subtrair. Lá ia eu logo errando. Assim.
Sem muita técnica. Sem nenhum esforço. Era boa nisso. Era me utilizar deles – e
lá vinha erro. Consegui façanhas nunca dantes imaginadas. Errava até em
calculadora.

Mas
fiquei ali. Olhando para aquele número.

E
com ele veio toda uma nova emoção. Deve ser por isso. Sem emoção – sem admiração.

Aquela
fora a minha primeira vez. Nunca havia exposto meus textos. Pelo menos não os
fora da técnica. Mas ele insistiu. Elogiou. Entusiasmou. Acreditei. Mais nele
que em mim. Claro. Sempre fui desconfiada de mim mesma. Desde os primeiros
números. Mas enfim. Sempre confiei nele. Desde a primeira palavra.

Expus.

Surgiu
um novo convite. Alguém acolheria alguns órfãos da escrita. Dariam um Lugar. Nome.
Sobrenome. E até um – discreto – logotipo. Como uma tatuagem. Uma tatuagem que
indicasse o grupo. Algo por aí. Seria oferecido para aqueles que escrevem – e não
têm paternidade. Nem maternidade. Aos que ficam à deriva. Movido pelas ondas
dos sonhos do – algum dia quem sabe.

Aceitei.

E
veio o enorme susto. Ele de lá. De tão longe – leu. Gostou. Nunca vou esquecer
o primeiro recadinho que recebi. Dizia com sinceridade. Vim aqui num local mais
discreto – não gosto de chorar em público. E se referiu ao meu escrito com
emoção. Com carinho. Comparou a suavidade da brisa de uma especifica Serra.

Lembro
que chorei. Afoita. Em público. Só não lembro o número de vezes que li e reli o
recadinho. Os números sempre saíram de qualquer registro. Até desse não
escapou.

Depois
veio a festa. O suposto orfanato recebia os órfãos – e os filhos legítimos. Ele
veio. De longe até aqui. E avisou. Não vim para a festa. Vim para conhecê-la.

Mais
emoção.

A
noite fora de apresentações. Eu sou esta. Aquele é aquele. Ela é aquela. Nós somos
estes. E cada um escondia a sua falta. Ou expunha a sua completude. De forma simultânea.
Dava para entender. A letra existe como símbolo. Muito complicado superar os símbolos
diante das imagens. Mas todos tentaram. E acho que não foi em vão. A noite foi de
festa por fora e alegria por dentro.

Nunca
mais se repetiu igual.

O
orfanato mudou de administração. Perdeu um pouco da sua ideia inicial. Mas manteve
o abrigo. Chegaram novos. Nunca mais houve confraternização. Se de órfãos ou de
irmãos se amparou num inicio – de letras estanques se manteve a partir dai.

Ali
mesmo – naquela noite – muitos se separaram para sempre. Outros por um tempo. E
poucos permaneceram se encontrando. Mantiveram o contato – seja pela letra ou
pela imagem real. Muitos não mais se esqueceram.

Há quase um ano.

E
eu fiquei diante do número. O começo pela letra acabou gerando números. Deve ser
sempre assim. Eu que nunca notei. Mas não importa. Como dizem os legisladores. Não
importa o que cada um aprende. Ou experimenta. Importa o que se torna evidência.
E evidência significa algarismos. Algo bem democrático – ao que parece.

Escrevi
duzentos textos desde aquele dia. Desde aquela vez. Desde o primeiro entusiasmo
dele. Desde a primeira exposição. Desde o primeiro elogio dele. Duzentos.

Olhei
até para as minhas mãos. Para os meus dedos. Ri das lembranças. Avisei aos mais
queridos. Agradeci a quem deveria.
Ele me abraçou – com o entusiasmo ainda me faz acreditar.
Ele me escreveu – com as lindas palavras ainda me faz chorar.
Ela enviou um comentário – com o carinho ainda faz do além mar parecer aqui na esquina.
Eles telefonaram – com os incentivos ainda me fazem continuar.

Não
existe perda diante da letra. Não importa o estilo do orfanato. Ou do cartório.
Letra é marca. Lembrei até do mestre austríaco. Ele afirmava. Não existe ideia
de psique sem a letra. Estava – Lógico, lógico – certo.

Duzentas
marcas feitas. Mas – até hoje – ainda sinto a quase lúdica alegria pela brisa número um.

Advertisements
    • Anonymous
    • July 17th, 2009

    Ainda que até hoje eu continue achando que você sempre superestimou o meu pequeno estímulo, me sinto muito orgulhoso com a coincidência do destino de poder ter sido eu a contribuir, com tão poucas linhas, para destampar um jorro de literatura tão imenso. Só pelo o que você agregou às letras do país com essas 200 pérolas já valeu a pena tudo que escrevi em minha vida.Beijos e parabéns, querida amiga. De se fã no. 1.Edmundo Carôso

  1. No trackbacks yet.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: