Re-colhendo

Fiquei
escutando o relato. Ela falava de um acontecimento do passado. Da sua família.

Ele
escrevia. Muito. E lá um dia optou por publicar.

Lembrava
da época. Não em relação ao tempo. Mas em relação às dificuldades. Estavam com dificuldade
financeira. Era ainda muito pequena. Não tinha noção exata do significado. Mas tinha
a sensação perfeita. De que estavam em período de contenção. A vida deles. A
emoção. A rotina.

Lembrava
da escola. De algumas contas que a mãe reclamava. De alguém um dia falando alto
com ele. Parecia algum tipo de cobrança. Quis até defendê-lo. Mas sem saber bem o
motivo – calou. Entendia que estavam todos nervosos. E tristes. Procurava fazer
sempre silêncio.  Quando estava em casa
mal se mexia. Não fazia barulho. Era uma sequência quase militar. Poupava a si –
e aos outros – de qualquer aborrecimento. Evitava confrontos. Desacertos. Demandas.
Aceitava o que vinha. Não pedia o que não tinha.

Vai
lá saber por que – mas a sua visão de criança a alertava. Como se a conduta
exigida fosse essa. E acatava.

Riu
quando assim falou. Como se tentasse entender a ela mesma. De frente para trás.
Só adulta se deu conta. Riu de novo pela palavra dita. Achou pertinente e
adequada. Ao relato. Continuara sempre assim. Diante de qualquer tensão. Silenciava.
Movia-se o mínimo possível.

Houve
um tempo que fez sessões de análise. Queria superar as barreiras erguidas. E lembrava
que riu muito no dia que o analista lhe perguntou. Ou interpretou. Talvez para
não acordar mais demônios. Riu porque não sabia. Ou porque sabia. Enfim.

Ele
escreveu muito neste período. Muito. Como se pela mão correndo pelo papel – a angústia
se fizesse menor. Chegava tarde da volta da rotina do trabalho. Mal jantava e
lá ia para seu cantinho. Sentava diante de uma antiga mesa de madeira. Acomodava-se
numa cadeira com uma almofada de tecido já estragado.

Dispensava
os pequenos e médios confortos. Colocava uma música. E lá ficava. Escrevia por
horas. Noite adentro. Algumas vezes reclamava dos dedos doloridos. Outras vezes
das costas. Mas não parava.

Certa
vez alguns dos papeis manuscritos caíram. Deviam ter caído. Estavam no chão. Como
que abandonados. Ou descuidados. E amontoados. Ele viu que ela o observava. E comentou
com ela. Olha os papéis no chão. Nunca antes assim ficaram sobre o frio do
mármore. Espalhados, misturados. Estes papéis falam de dor. De tristeza. Denunciam
muita solidão.  Mas deu um sorriso. Acariciou
os cabelinhos dela. E falou. Diante dos papéis assim. Caídos. Quase abandonados.
Será que sou eu ali. Juntou os papeis para ele. E os colocou sobre a mesa.

Não
compreendeu muito bem. Mas lembrou que foi dormir muito triste naquela noite. E
que evitou se mexer na cama. Acordou pela manhã quase na mesma posição que
adormecera. Foi difícil até mover a perna.  

Ela
não tinha ideia do tempo – que durou a escrita. Mas lembra do dia que ele
disse. Vou publicar. A mãe riu. Desconsiderou. Fazia muito tempo que não era
mais uma romântica sonhadora. Se é que algum dia foi. Comentou isso com uma pontinha
de tristeza. Pela mãe.

Publicou.

Naquela
noite ele chegou mais cedo. E a chamou. Pediu ajuda.

Tinha
dentro do carro muitos volumes. Muitos. Para ela – milhões. Depois soube que
foram cinquenta. Uma parte grande ficara na Editora – seriam distribuídos. Uma pequena quantidade trouxera
para casa.

Olhou
para ele. Viu que tinha um brilho mais feliz no olhar. Arrumava os livros sobre
a mesa com cuidado. Passava a mão sobre a capa. Abria. Relia alguns trechinhos.
Fechava. Passava de novo. Repetia. E ela repetia o gestual com ele. E lembra
que eles dois sorriam.

Naquela
noite ela se mexeu tanto na cama – que o cobertor amanheceu no chão.

De
repente – mudou o tom de voz. Como se tivesse voltado. Ao presente do presente.

Nem acredito o quanto falei. E só por que vi os seus papeis no chão. E quis lhe ajudar.

Juntou.
Colocou sobre a minha mesa e saiu. Não sem antes me dar um aviso. Cuidado para
não se identificar. Com os papeis no chão. Sorriu. Leve e com mordacidade. Como
os sorrisos na infância. Agradeci a ajuda e o aviso. E contei que tinha um
livro dele. Em casa.

Ficou
muito surpresa. Tropeçou na saída da sala. Quase derrubou um copo que, sossegadinho,
estava numa prateleira.

Rimos.
Estava feliz. Talvez nem tenha se dado conta disso.

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    • edmundo carôso
    • July 16th, 2009

    Lêda, querida, dá ra me emprestar esse texto ra passar um fim de semana na Bahia?BjsE.C.

    • lia
    • July 17th, 2009

    QUERIDA AMIGAPARABÉNS 200 É UM BELO Nº…MAS SEI QUE DESTA FONTE MUITAS MARAVILHAS VIRÃOBJSL

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