Motivando Sobras

Encerrou a fala desta forma. Com
este comentário. A frase ficou em destaque. Por alguns minutos. Ou horas. Vai
lá saber. A palavra sempre dispõe do tempo ao seu bel prazer. Enfim.

É uma pena.

Assim disse. E nem parecia muito
concentrada. Parecia em estado de ausência. Estava assim ultimamente. Como se
numa nova parceria – mais efetiva. Ou quem sabe conquistada – entre ela mesma e
o mundo.

Devia ter lá seus motivos.

Motivos. Esta uma palavra multi-dimensionável.
Especialmente para ela. Adequa-se bem. Cabe em qualquer espaço. Justifica possíveis
transtornos. Pressupõe adiáveis desconfortos. E já disponibiliza desculpas.

Era afável. Divertida. Solidária.
Desde que a conheci. E lá se vão tantos e tantos anos. Mas tinha motivos para
tudo. Do emocional ao físico. Fosse o que fosse – tinha motivos.

Acompanhava sempre um – de
sobra. Este – de sobra – parecia mais fundamental até do que os tais motivos.
Era pronunciado com mais ênfase. Como se precisasse se servir de uma acústica.
Ou a acústica estaria a serviço dos excessos. Algo por ai.

Passava – com tranqüilidade – uma
sensação. A de que motivos e sobras são de ordem impessoal. Quase relativizada.
Não precisa ser determinada. Muito menos qualificada. Motivos e sobras são questões
tanto estéticas quanto funcionais. E sugerem um lugar mais universal do que
pessoal. Nunca a escutei se referir aos tais motivos de sobra – dentro de si.
Sempre eles estavam – de fora. As sobras pareciam vir como paradoxais contribuições
externas.

Mas também não era o momento
para digressões teóricas. Até dera vontade de rir. O que mais sobrava eram digressões
e teorias. As faltas estavam circulando por outra esfera. Não importava se mais
ao alcance ou se muito além do alcance. Apenas circulando – como toda falta.

Mas assim falava. Assim se
expressava. Relatava a situação. O motivo da ligação. Parecia um não mais
acabar de queixa. Nada era tratado de forma pontual. Muito menos sugerindo uma continuidade.
Sim. Parecia mais um possível excesso de ponto e vírgula.

Foi nesse momento que entendi a
força dos motivos de sobra. Como cravados dentro de um vazio. Os motivos. E as
sobras.

Lembrei a minha avó. Se sobra
motivo é porque falta razão, menina, se sobra motivo é porque falta razão.

E ali fiquei. Entre a palavra e
a expressão. Tentando ultrapassar a linha que cruza o ato e a fala. Dizia o
mestre francês que primeiro vem a palavra. Depois o ato. Tão difícil simplificar.

De repente me veio uma
curiosidade. Talvez por que escutei um barulho reconhecido. Perguntei assim. Sem
mais nem por que. Onde estava.

Respondeu tranqüila. Suave. Sentada
naquela praia que você gosta. Sob um quiosque. Olhando o mar. O final de tarde
está lindo. O inverno aqui está uma beleza. Sol, céu e mar. Nada de frio.

Por isso lhe liguei daqui. Faz bem
reclamar do interno diante de um externo tão belo.

Tenho motivos de sobra para falar
daqui. Sem me preocupar quem escuta. Ou quem interrompe. Ela sempre volta na
hora exata. Parece que adivinha que preciso falar. E já chega cheia de
perguntas e demandas. Lembra até aquela sua amiga. A que nunca podia conversar
ao telefone. Porque os filhos a interrompiam. Você deve se lembrar disso. Sempre
comentávamos. Agora pareço com ela.

Ela já vai entrando e avisando. Pare
o que está fazendo. Desliga o telefone. Preciso lhe falar. Como se fosse uma emergência.
Você sabe. Ela sempre age assim. E sem motivo algum.

Ri. Muito. Achei perfeito. Pensei
isso enquanto fechava a porta da varanda. Para que a chuva e o frio não se transformassem
em meus hóspedes.

Ela continuou. Depois de um fôlego
só – avisou. Agora me vou. Acabou o pôr-do-sol. Está escurecendo. Vou voltar. Amanhã
vai ser um dia complicado no trabalho. Se eu enlouquecer acredite – não teve
jeito. Terei motivos de sobra.

Tem feito dias tão lindos. Se
você estivesse aqui iria adorar. Mas está ai no frio. É uma pena. E rindo – se
despediu.

Quando desligou – parei. O frio
aumentara. Peguei um casaco. Entrei em estado de força educadora. Sim. Comportada.
Recatada. Até repressora. Sem desconsiderar o valor da força amistosa. A palavra
pena não teve seu contraponto. Nem uma resposta mais diferenciada. Em linguagem
talvez não tão ortodoxa – digamos assim.

E – pensando bem – sem motivos ou sobras.

 

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    • cristiane
    • July 13th, 2009

    Boa noite Leide Lêda…apesar de ter ficado com ciúmes do seu comentário só da magrinha alta,rsrsrs, passei aqui pra ler a sua crônica e dizer que realmente você poooooooooooode, e merece, não somente pela sua intelectualidade, mas também pela sua humildade, e simplicidade de em pequenos gestos fazer com que as pessoas te adorem e admirem seu talento, obrigada pelo carinho e continue assim com esse seu jeito carismático e que sabe fazer com que as pessoas as pessoas se alegrem com sua presença…e que Deus continue iluminando seus caminhos!!Um beijo no coração da sua fã… Leide Crisinha da Zona Loste, ambulatório de Itaquera..rsrsr…

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