Sob o Sol do Concreto

Enquanto
estava deitada ficou lembrando. Ainda de olhos fechados. Enrolada em seu
edredom. Qual um fetiche – indispensável. Riu da ideia. Baixinho. Não queria
assustá-lo.  

Veio de repente na lembrança. Aquele último pacote de feriado. Toda a
organização. Toda a programação.

Preparou
o cenário. E foi lá se fazendo de protagonista. Deitadinha ao sol. Sorrisinho de
poder nos lábios. Olhar de integração com o ambiente. Uma sofisticação explícita.
Assim. Bem assim.

Foi
quando o cenário sumiu. A protagonista se viu diante do grau máximo da
realidade. Sem samba e com enredo. Assim parecia. Uma correria. A chuva viera
com força. O vento autoritário arrancara as toalhas brancas. As mesinhas pareciam
apavoradas.  Tremendo – ameaçavam derrubar
copos e jarras. Um horror. O tal sorriso deve ter ido com o vento. A correria pôs
por terra toda a intenção de sofisticação. Correra como uma desatinada. Tentando
salvar objetos – mais do que a si mesma. Enfim.

Foi
pensando nisso que abriu os olhos.

Este
seria mais um pacote de feriado.

Mas
não se programara. Desta vez iria fazer um outro acordo. Nada de tempo perdido.
Ou de tempo passado. Desconsideraria o tempo futuro. Iria esquecer também o tempo resgatado. Que acontecesse
o que pudesse. Sem muitas delongas – como diria o poetinha. Sem muitas
delongas.

Estava
aprendendo a compreender o tempo. Para que assim pudesse se adequar melhor aos
espaços. Quase uma lição de vida. Lembrou da avó da amiga. Ela sempre alertava.
Principalmente se fosse um dia de humor duvidoso. Apenas siga o dia, menina,
apenas siga o dia.

Recordou
aquele compositor conterrâneo. Que elogiava o mar. Disfarçava como ninguém as
tristezas. E seguia em seu ritmo bem particular. Nem sempre entendido. Mas nunca
desapreciado. Lembrou a letra da música. Linda. Simples como deveria ser –
sempre – a própria existência. Se não chover eu vou. Se chover eu não vou. Assim.
Uma pureza. Mas como toda pureza é preciso estar atento. Nem por isso de menor
profundidade. É saber escutar. Para poder incorporar.

Estava
decidida. Nada tiraria a suavidade. Nem dela. Nem dos feriados. Recontou. Quatro
dias. Quatro dias a fazer mimos com a própria vontade.

Levantou
com calma. Sem quedas e sem tropeções. Continuava sem querer assustá-lo. Deixou
o quarto como se nem sol existisse. No Universo inteiro. Deixou portas e
cortinas fechadas.  Escuro. E saiu para
sua luz.

Quase
deu um gritinho. Se viu diante de uma colorida surpresa.

O
céu azul. Abandonado pelas nuvens. O sol quase branquinho de tanta luz. Uma
brisa passeava pelo terraço.

 Abriu e fechou os olhos – várias vezes. Sim. Não
era uma fantasia. Estava mesmo acordada. Os dias de folga existiam. E ela
estava ali mesmo. Diante do calendário. E do sol. Perfeito. Esta foi a primeira
palavra que pensou. Perfeito. Podia ir ao sol. Ou o sol ir até ela. Riu.

Desta
vez foi mais objetiva. E quase riu de novo.  Sim. Objetos – só os indispensáveis. Pensou que
este deveria ser o significado exato deste termo. E lá colocou a sua cadeirinha.
Aberta. Escolheu suas músicas preferidas. Ligou tom baixinho. Não sabia mais se
por cuidado. Ou se por egoísmo. É uma linha difícil de visualizar. Sempre.

Mas
ficou ali. Deitadinha. Sentindo o calor do sol por toda a pele. A luz que clareava os
olhos fechados. Impregnando a retina recoberta. Invasiva – como deve ser a luz.
O vento retirava um ou outro fio dos cabelos repuxados. E voava com ele dentro
do alcance permitido. Fazendo pontinhos de cócegas no rosto e no pescoço.

Pensou
sobre antes. Sua praia predileta. O murmurinho das ondinhas. Os barquinhos ao
longe. Um ou outro afoito gritando ao entrar na água. As vozes das crianças. As
mães em estado de alerta. O barulhinho das bolinhas nas raquetes.

Mas
– desta vez – não nostálgica. Muito menos melancólica. Lembrou como uma
lembrança. Como um tempo vivido. Só isso. Quase igual à letra da música.

Acomodou-se
melhor na cadeira. Estirou as pernas. Jogou os braços para trás. E – como uma indefesa
despreocupada – ficou de frente para o sol. Em seu terraço. Em sua cadeira.

A
música que se iniciou a fez rir. Era uma calorosa canção napolitana. Mais uma
vez concordou. Perfeito.

E
seguiu o dia. Tranquila. De frente para a Vida.

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